Benfica

Escândalos da Democracia: jogo de Vale Azevedo acabou na prisão

por Bruno Roseiro, Publicado em 25 de Agosto de 2009   
O ex-presidente pagou parte do iate Lucky Me com dinheiro que devia ter entrado no clube
Opções
a- / a+
"O nome Vale e Azevedo continua a ser um bom detergente para lavar tudo o que acontece de mal no Benfica", dizia o ex-líder encarnado. A frase, verdadeira ou não, podia ter dez dias ou dez meses, mas, contas feitas, já tem quase dez anos. E o advogado foi mesmo declarado culpado por crime de peculato na transferência do guarda-redes Sergei Ovchinnikov para o Alverca. Os 193 mil contos (um milhão de dólares) da transacção não passaram pelos cofres da Luz mas serviram para pagar parte do iate "Lucky Me". O azar foi o líder benfiquista ter sido apanhado e condenado a quatro anos e meio de prisão.

Detido pela Judiciária em Fevereiro de 2001, ficou cinco meses em prisão domiciliária até ter passado para detenção preventiva. Razões? Duas: perigo de fuga e defesa da conservação de provas. Assim, o ex-presidente lisboeta (que esteve no cargo entre 1997 e 2000, altura em que perdeu num agitado acto eleitoral contra Manuel Vilarinho) aguardou detido o julgamento. Das lágrimas às gargalhadas, das restrições ao aparato mediático, passando pelas críticas e afirmações despropositadas, viu-se de tudo na Boa Hora.

Nas primeiras três horas da sessão inicial, Vale e Azevedo esteve só a discutir cinco dos 150 artigos de acusação. Até aqui tudo normal, não fosse ter falado de forma quase ininterrupta sobre questões como o estatuto de utilidade pública do Benfica. One man show em acção no seu melhor, para gáudio ou revolta dos muitos populares presentes no edifício. À terceira sessão, a juíza Anabela Marques detecta "contradições sensíveis com declarações proferidas à PJ" e a estratégia do acusado começa a alterar--se. "Nunca devi nada ao clube, foi o clube a dever-me. Já paguei mais de 100 mil contos desde que saí", afirma, antes de revelar todos os segredos dos bastidores do clube sem ninguém lhe pedir.

Depois as lágrimas. "Não sou nenhum monstro... É impossível que um homem como eu tenha feito aquilo de que sou acusado!", diz, na quarta sessão. E alarga as confidências ao campo familiar. "Os meus filhos não podem usar o meu nome e o mais novo até pintou o cabelo de verde porque não quer ter nada a ver com o Benfica. Mais: não compro um carro desde 1976", admitiu o advogado - autor da célebre frase "Um escudo é um escudo" -, que nunca ligou ao dinheiro. Pelo meio ainda houve tempo para dizer que o avançado norueguês Rushfeldt não ficou porque urinou as calças quando foi apresentado na Luz aos sócios.

Após 18 sessões de julgamento e 31 testemunhas em 97 dias, as 3300 páginas de processo e os 4 mil apensos não conseguiram aferir se os 5 milhões de pesetas utilizados como comissão para um grupo de empresários colocar o guardião Bossio em Espanha tinham sido usados por Vale e Azevedo para pagar o seguro do iate "Lucky me" - sim, é mesmo Bossio, porque no julgamento as acusações não pararam de aumentar -, mas ficou provado que lesou o clube em proveito próprio e se apropriou de dinheiro do Benfica para pagar parte da embarcação. A história do maior clube português, que vivia um período sofrível a nível de resultados, ficou manchada.

Agora a banda sonora de Vale e Azevedo poderia ser dos The Clash: "London Calling". O advogado, que chegou a ser libertado por 17 segundos em 2004 mas só saiu após pagamento de 250 mil euros de caução, enfrentou mais alguns processos (Euroárea, relacionado com a venda de terrenos do Benfica; Ribafria, que levou a condenação de cinco anos por transferências bancárias que visavam obter vantagens fiscais; e Dantas da Cunha) e quando a GNR se deslocou à sua casa de Sintra percebeu que já tinha ido residir para Londres há dois anos. E, segundo consta, com uma vida de luxo.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close