Assassinato

Escândalos da democracia. Padre candidato acaba morto

por Rosa Ramos, Publicado em 24 de Agosto de 2009   
Maximiano de Sousa foi vítima da explosão de uma bomba colocada no seu automóvel
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A 2 de Abril de 1976, o padre Maximiano de Sousa entrou no carro com uma aluna de 19 anos, Maria de Lurdes Costa. Juntos, davam aulas de Português e Francês a adultos na Casa da Cultura da Cumieira, freguesia próxima de Vila Real. Ao quilómetro 71 da estrada que liga as duas localidades, uma bomba accionada por controlo remoto explodiu. Os dois tiveram morte instantânea. Junto ao local do atentado, ainda hoje se lê uma inscrição em letras garrafais: "Padre Max - assassinos à solta."

A tese inicial da polícia assentava numa eventual ligação amorosa entre o padre e Maria de Lurdes, sua aluna e protegida. Só que, já em 1979, começou a investigar-se a morte de Joaquim Ferreira Torres (presidente da Câmara de Murça); associou-se então o assassínio do padre Max ao Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), grupo de extrema-direita ligado a uma rede bombista que, nos anos quentes a seguir ao 25 de Abril, se dedicou a atacar alvos de esquerda.

Pouco tempo antes de morrer, o padre Max, esquerdista assumido, tinha anunciado a sua candidatura a deputado à Assembleia Constituinte como independente, apoiado pela União Democrática Portuguesa (UDP). Meses antes tinha acontecido o golpe militar de 25 de Novembro.

Além de defender acerrimamente as suas convicções políticas, Max - uma figura muito popular no Norte - era professor de liceu. Tinha 33 anos. Vila Real recebeu, nessa altura, dezenas de milhares de fiéis vindos de todas as partes do país para assistir ao funeral, no cemitério de Santa Iria.

Julgamentos sem conclusões Apesar das suspeitas, nunca foram apuradas responsabilidades do ataque. Em 1977, o processo foi arquivado por falta de provas. Seria reaberto mais tarde, já em 1989, pelo Tribunal da Relação do Porto e são responsabilizadas sete pessoas pelo atentado.

Os autores morais teriam sido o cónego bracarense Eduardo Melo, o empresário Rui Castro Lopo, e o ex-membro do Conselho da Revolução Canto e Castro. Já os autores materiais teriam sido Carlos Paixão, Alfredo Vitorino, Valter dos Santos e Alcides Pereira - operacionais do MDLP. Por falta de provas, o processo foi novamente arquivado.

Em 1996, a Relação voltou a abri-lo. Foram pronunciados apenas os quatro operacionais, absolvidos em Março de 1997, uma vez mais por falta de provas. Passados três meses, o Supremo Tribunal de Justiça anulou o acórdão proferido e foi marcado um novo julgamento - que aconteceu a 21 de Janeiro de 1999. Os quatro arguidos foram absolvidos.

Feitas as contas, o processo arrastou- -se durante mais de 20 anos, em 2400 páginas e 12 volumes. No final, ninguém foi condenado, apesar de o Tribunal admitir que o ataque terá partido dos meandros do MDLP.

O cónego Melo foi apontado como um dos autores morais do crime. Depois do 25 de Abril, liderara a oposição da igreja às acções do PCP - que no Verão Quente de 1975 tentava entrar no Norte. Muitos chamavam-lhe o "cónego sinistro", pelas suas ligações com sectores extremistas da direita. Morreu em Abril do ano passado, em Fátima. Uma multidão de cinco mil pessoas acompanhou o enterro, num cortejo fúnebre que saiu da Sé de Braga e passou por várias ruas da cidade.

Na Assembleia da República, o CDS-PP apresentou à votação um texto de pesar pela morte do cónego Melo, mas só os centristas e o PSD votaram a favor. O PS absteve-se e o Bloco de Esquerda abandonou o hemiciclo durante o minuto de silêncio.


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