Escândalos da Democracia: Edmundo das armas e dos frigoríficos

por Rosa Ramos, Publicado em 22 de Agosto de 2009   
Dirigente do PS, Edmundo Pedro era também presidente da RTP quando foi detido
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Edmundo Pedro vai fazer 91 anos a 8 de Novembro e está a escrever o segundo livro de memórias - o primeiro volume foi lançado há dois anos. Já este ano foi eleito membro da comissão política do PS. Trinta anos depois de se ver envolvido em acusações de contrabando de armas e electrodomésticos.

Em 1978 era membro do secretariado nacional do PS e presidente do conselho de administração da RTP. A 11 de Janeiro foi preso numa operação da Guarda Fiscal. Edmundo Pedro foi interceptado pela polícia quando seguia, alegadamente, numa camioneta carregada num armazém da firma de material electrónico Tecnobazar, perto de Almada. Trazia 35 espingardas G3, pistolas, munições e, garantia a imprensa da altura, 500 contos em electrodomésticos.

Às 3 da manhã, a RDP avança com a notícia e o secretariado do PS reúne, de emergência, na casa de Mário Soares, em Nafarros, para analisar a situação. Em comunicado, os socialistas apressam-se a garantir que o incidente só poderia dever-se "à actividade antifascista e antitotalitária" de Edmundo Pedro. Mas, apesar da solidariedade manifestada, garantem ser "alheios" ao comportamento do socialista.

Edmundo Pedro deixara de ser sócio da Tecnobazar em Maio de 76, altura em que transferiu a quota para a mulher e uma sobrinha. Depois da apreensão, o histórico socialista tentou explicar que tudo não passara de um equívoco, mas foi detido. "Nem sequer havia electrodomésticos nenhuns dentro da carrinha", recorda ao i. E continua: "Nunca soube onde foram buscar essa ideia, até porque a Tecnobazar nem era uma firma de electrodomésticos, mas sim de material electrónico", conta. Em comunicado, a PJ anunciava que a detenção teria acontecido porque Edmundo Pedro era suspeito de "estar implicado na prática de várias infracções". A sobrinha, Maria Adelaide Pedro, também foi presa.

Poucos dias depois, o Estado-Maior do Exército veio explicar a origem das armas: a 25 de Novembro de 1975 (por causa de um golpe de Estado inserido no processo contra-revolucionário), o exército teria entregue armamento a várias figuras políticas. Edmundo contou que ia devolver, nessa manhã de Janeiro de 78, todas as armas. "Que fui buscar à zona de Cascais, acompanhado por vários militantes" , lembra. Contudo, na altura, o partido garantia que ninguém das cúpulas do PS "tinha conhecimento" de tal iniciativa. O jornal "Expresso" veio, dias depois, desmentir a explicação do exército. É que, além das espingardas, Edmundo Pedro trazia seis pistolas FN - armas que as Forças Armadas portuguesas não usavam. Além disso, o número de origem das armas estava "raspado", não se podendo identificar a origem. "O exército tinha raspado os números para não se saber nunca de onde vinham as armas", justifica Edmundo Pedro, absolvido em Novembro de 78, 11 meses depois da detenção. Concluiu-se que as armas teriam sido entregues ao PS em Novembro, no âmbito de um Plano Global de Operações liderado por Ramalho Eanes.

comunista desde os 13 "É uma história tão absurda que só contada", resume o socialista. "E foi uma conspiração muito bem engendrada", continua.

Edmundo Pedro nasceu em Alcochete em 1918. Foi preso várias vezes por causa da actividade antifascista. Aderiu ao PCP aos 13 anos e inaugurou a prisão do Tarrafal, em Cabo Verde, onde esteve nove anos detido. Hoje considera que foi "maltratado" pela sociedade portuguesa, "apesar de ter ajudado a consolidar a democracia em Portugal".

Mas não guarda "ressentimentos" e recorda: "Há uns anos, o Ramalho Eanes veio pedir-me perdão pelo que me fez."


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