Cinema
Francis Ford Coppola: "Apocalipse Now não era tão esquisito com eu pensava" - vídeo
Publicado em 22 de Agosto de 2009
Em Agosto de 1979 estreava aquele que viria a ser uma das obras mais controversas de Coppola. Trinta anos depois, o realizador diz que "Apocalipse Now" não era assim "tão esquisito", explica porque começou o filme com "The End", dos Doors, e fala da admiração por Woody Allen. Coppola, 70 anos, em discurso directo
Em Agosto de 1979 estreava aquele que viria a ser uma das obras mais controversas de Coppola. Trinta anos depois, o realizador diz que "Apocalipse Now" não era assim "tão esquisito", explica porque começou o filme com "The End", dos Doors, e fala da admiração por Woody Allen. Coppola, 70 anos, em discurso directo
"Quando eu tinha 16 ou 17 anos queria ser escritor. Queria ser dramaturgo. Mas tudo o que escrevia, achava eu, era fraco. E lembro-me de adormecer a chorar por não ter o talento que queria.
Alguma vez viu o "Rushmore" ["Gostam todos da Mesma", 1998]? Eu era como aquele miúdo.
Tive vinho na mesa durante toda a minha vida. Até os miúdos eram autorizados a beber. Púnhamos-lhe ginger ale ou gasosa de limão.
Fiz uma coisa terrível ao meu pai. Aos 12 ou 13 anos, trabalhava na Western Union. Quando chegava um telegrama, numa longa tira, tinha de o cortar e colar no papel e ir de bicicleta entregá-lo. Sabia o nome do director do departamento musical da Paramount Pictures - Louis Lipstone. Então escrevi, "Caro senhor Coppola: Seleccionámo-lo para escrever uma banda sonora. Por favor, venha imediatamente a Los Angeles para iniciarmos o contrato. Melhores cumprimentos, Louis Lipstone." Colei-o e entreguei-o. O meu pai ficou tão contente! Depois tive de lhe dizer que era uma farsa. Ficou completamente furioso. Nessa altura, os miúdos levavam sovas. De cinto. Eu sei por que o fiz: queria que ele recebesse aquele telegrama. Por boas razões, fazemos coisas muito más.
As pessoas acham que o meu pior filme foi "Jack" [1996]. Mas, até hoje, quando revejo os velhos filmes que fiz, "Jack" foi um dos melhores. Ninguém sabe disso. Se as pessoas o detestam, detestam. Eu só queria trabalhar com o Robin Williams.
Nunca fui descuidado com o dinheiro dos outros. Só com o meu. Porque acho que o podemos ser.
Dez ou 15 anos depois do "Apocalypse Now", estava em Inglaterra, num hotel, vi o princípio do filme e acabei por vê-lo todo. E não era tão esquisito como eu pensava. De certa forma, alargara os limites de tolerância das pessoas para com um filme.
Vi aquela lata cheia de, basicamente, filme estragado. Tínhamos cinco câmaras quando os aviões chegavam e largavam o napalm. Tivemos que filmar tudo ao mesmo tempo, por isso havia muita fita só com sequências. Então tirei uma coisa do caixote e pus na mesa de montagem. Era algo muito abstracto, de vez em quando via-se aparecer o helicóptero. E soava aquela música dos Doors, "The End". Então, eu disse: "Não seria divertido começar o filme com 'The End'?"
Tenho mais imaginação do que talento. Cozinho as ideias. É uma característica.
Admiro as pessoas como o Woody Allen, que todos os anos escrevem um guião original. É surpreendente. Sempre desejei ser capaz de o fazer.
Fazer bem é ser abundante - é a minha tendência. Se cozinho uma refeição, cozinho demasiado e demasiadas coisas. Na noite passada estive a ver um filme do Cecil B. DeMille, baseado na Cleópatra ["Cleópatra"], e percebi quantas partes da história verdadeira ele deixou de fora. Uma grande parte da arte do filme é fazer menos. Aspirar a fazer menos.
Quando estava a começar, arranjei trabalho a escrever um guião para Bill Cosby. Ele costumava ter o melhor vinho para os amigos. Não bebia, mas tinha aquele Romanée-Conti, que é considerado um dos melhores vinhos do mundo. Desconhecia que o vinho pudesse ter aquele sabor. Também foi ele que me ensinou a jogar bacará. Uma noite, tinha 400 dólares [€280], e ganhei 30 mil [€21 000]. Gastei-os em vinhos Romanée.
Temos de ver as coisas no contexto da nossa esperança de vida.
O fim era claro, o Michael [Michael Corleone, a personagem de Al Pacino] corrompeu-se - acabou. Por isso, não compreendi para que queriam fazer outro "Padrinho".
Eu disse, "O que vou fazer é ajudar-vos a desenvolver uma história. Vou arranjar um realizador e produzi-la." Eles perguntaram, "Bem, quem é o realizador?" E eu respondi, "Um tipo novo, Martin Scorsese."5 Eles disseram, "Nem pensar!" Ele estava mesmo a começar.
A única coisa em relação à qual discutiram mesmo comigo foi por lhe ter chamado "O Padrinho Parte II." Era sempre "O Filho do Lobisomem" ou "O Regresso do Lobisomem" ou algo do género. Disseram que o público acharia confuso. Foi irónico, porque começou a história dos números. Eu comecei muitas coisas.
Estava na minha roulote, a trabalhar no "Padrinho II" ou "III", em Nova Iorque, e bateram à porta. O tipo que trabalhava comigo disse que John Gotti [ex-líder da mafia de Nova Iorque] gostaria de falar com Mr. Coppola. E eu disse, "Não é possível, estou ocupado." Há uma velha história que afirma que temos de convidar os vampiros a entrar mas, uma vez que atravessem a soleira da porta, já está. Porém, se dissermos que não os queremos ver, eles não podem entrar. Não podem conhecer-nos.
Nunca vi "Os Sopranos." A máfia não me interessa.
Que maior desaire se pode imaginar que o facto de ninguém ter ido ver "Uma Segunda Juventude" [2007]? Qualquer coisa melhor do que isso, é um êxito.
Algum público gosta de ficar sentado a ver todos os nomes da ficha técnica. Estarão à procura de alguém de família?
Que posso fazer agora? Podia fazer algo um bocadinho mais ambicioso. Ou menos. Era melhor menos. Para mim, menos ambição é mais ambição."
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