Um derrame gigante de petróleo provoca prejuízos ambientais e sociais difíceis de calcular, mas dá trabalho às empresas de limpeza e cria emprego, logo aumenta o produto interno bruto (a riqueza gerada numa economia). Um programa de saúde infantil pode reduzir o risco de doença e mortalidade em crianças, fazer baixar as despesas hospitalares e, a prazo, o consumo de medicamentos, aumentando assim o bem-estar das pessoas, mas reduz o PIB. A privatização de uma praia, reduzindo o acesso livre ao público, pode estragar as férias a muita gente, mas aumenta a facturação da empresa concessionária, logo contribui positivamente para a riqueza. A exploração de petróleo, um recurso finito, idem.
Estes são alguns exemplos "paradoxais" que provam que o PIB está mal medido, defende Ladislau Dowbor, professor de Economia na Universidade Católica de São Paulo. O debate em torno dos métodos de medição da riqueza não é novo e tem obrigado economistas e instituições a puxarem pela imaginação - ou, pelo menos, a estudarem outras formas de medir o pulso à economia. Para aquele economista brasileiro, o PIB, como hoje é calculado através das estatísticas oficiais, resulta de uma "contabilidade clamorosamente deformada". Num artigo publicado em Abril deste ano, o professor Dowbor sustenta as suas teses ecologistas com o seguinte argumento: "O essencial é que [...] técnicos de primeira linha nacional e internacional estão cansados de ver o comportamento económico ser calculado sem ter em conta - ou só parcialmente - os interesses da população e a sustentabilidade ambiental. Como pode dizer-se que a economia vai bem ainda que o povo vá mal? A economia serve para quê?" Dowbor defende, em alternativa, meios que complementem a medição da riqueza material, que consigam avaliar a felicidade interna bruta.
O Butão, um país (pobre) nos confins dos Himalaias, já adoptou oficialmente a nova métrica. Nicolas Sarkozy, o presidente francês, foi seduzido pela ideia e encomendou a Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, um estudo sobre um novo indicador que tenha em conta o bem-estar e a felicidade para, eventualmente, substituir o PIB. Entretanto, a economia tradicional e a estatística tentam ganhar algum avanço. Seja pela luzinhas da Terra, seja pelas pipocas. Com Mariana de A. Barbosa
1. Luzes - indicador nocturno
Medir o crescimento económico é mais difícil em países menos desenvolvidos, onde os indicadores do Estado são muito frágeis e deixam de lado uma economia informal com peso significativo. Para o contrariar existe já um método de medição da riqueza do país através das luzes observáveis à noite. Com as devidas reservas, porque o simples aumento da população pode fazer surgir mais luzes, comparar estimativas do PIB com as medições das luzes pode dar origem a valores muito diferentes.
2. Índice de felicidade - sentimento global
Um país onde a felicidade vem antes da riqueza não é fácil de encontrar. Mas o Butão nunca encontrou indicador mais adequado aos seus valores e aspirações que medir a felicidade dos 200 mil habitantes. O conceito nasceu no país, mas o país que lidera o top dos mais felizes do mundo é a Islândia, seguida pela Dinamarca e Colômbia. “A felicidade é como a saúde. Depende do meio e da hipótese de melhorar”, diz Ruut Veenhoven, autor da lista da universidade de Roterdão.
3. Compra de pipocas - índice doce ou salgado
Por mais surpreendente que seja, o índice de compra de pipocas nos cinemas pode servir como um indicador importante relativamente ao comportamento dos consumidores. Num estudo que comparou a evolução do índice britânico FTSE 100 com a média de pipocas vendidas a cada pessoa que vai a um cinema Odeon, é possível observar um acompanhamento das curvas ascendentes e descendentes e, por vezes, uma antecipação das mesmas.
4. Indicador de progresso genuíno - olhar mais abrangente
Criado em 1995 como uma alternativa ao PIB, o IPG procura medir a situação económica, mas também social da população, adaptando-se a factores como a distribuição do rendimento e acrescentando indicadores como o trabalho voluntário, subtraindo o crime ou a poluição. Outros factores tomados em consideração são: consumo de recursos, danos ambientais a longo prazo, mais ou menos tempos livres e dependência de ajuda exterior.
5. Desenvolvimento humano - indicador humanista
É usado desde 1993 pelas Nações Unidas para avaliar anualmente o nível de bem-estar da população dos países-membros. Actualmente liderado pela Islândia, o índice engloba três dimensões essenciais: educação, esperança média de vida e PIB per capita. Com o objectivo de medir mais o desenvolvimento do que o crescimento, o índice resulta de uma média entre os três indicadores acima mencionados. Portugal é considerado um país com um índice de desenvolvimento humano elevado.




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