Foi uma asneira que correu meio mundo. Num editorial que condenava os planos de reforma do sistema de saúde dos democratas, o "Investor's Business Daily" tentava assustar os leitores declarando que no Reino Unido, onde o governo é responsável pelos cuidados de saúde, o cientista deficiente Stephen Hawking "não teria qualquer hipótese", porque o sistema nacional de saúde britânico consideraria a vida dele "essencialmente inútil".
Hawking, natural do Reino Unido, onde viveu toda a vida, e que tem sido bem tratado pelo sistema nacional de saúde, não ficou contente.
O editorial, desprezível e estúpido, não abordou a verdadeira questão. O "Investor's Business Daily" gostaria que acreditássemos que o "Obamacare" vai transformar os EUA num Reino Unido - ou antes, numa versão fantasista e miserabilista do Reino Unido. Os alarmistas das conversas radiofónicas e da Fox News pretendem fazer-nos crer que o plano é transformar os EUA numa União Soviética. Mas a verdade é que os planos em debate iriam, falando em termos gerais, transformar os EUA numa Suíça. Ora esse país pode ser habitado por gente que come queijo com buracos e veste calças tirolesas, mas da última vez que dei por isso estava longe de ser um inferno comunista.
Falemos agora dos sistemas de saúde do mundo desenvolvido. Qualquer país rico, excepto os EUA, garante cuidados de saúde essenciais aos seus cidadãos. Existem, contudo, grandes variações na especificidade, e três abordagens principais.
No Reino Unido é o próprio governo que gere os hospitais e emprega os médicos. Já todos ouvimos relatos assustadores acerca de como funciona na prática; esses relatos são falsos. Tal como qualquer sistema, o National Health Service tem problemas, mas, em termos gerais, parece prestar cuidados de saúde bastante razoáveis, gastando apenas, por pessoa, cerca de 40% do que se gasta nos EUA.
Na segunda via para a cobertura universal, a prestação de cuidados de saúde é entregue a privados, mas o governo paga a maioria das facturas. É assim que acontece no Canadá e, embora de maneira mais complexa, em França. Esse sistema também é conhecido de muitos norte-americanos, uma vez que, mesmo que ainda não beneficiemos do Medicare, temos decerto familiares e amigos nessa situação.
De novo se ouvem inúmeras histórias de terror acerca desses sistemas, muitas delas falsas. O sistema de saúde francês é excelente. Os canadianos que sofrem de doenças crónicas estão muito mais satisfeitos com o seu sistema que os seus homólogos dos EUA. E o Medicare é bastante bem visto, como o comprova a presença de manifestantes junto às câmaras municipais exigindo que o governo não toque no programa.
Por fim, a terceira via para a cobertura universal conta com as companhias de seguros privadas, servindo-se de uma combinação de regulamentação e de subsídios para garantir cobertura a todos. A Suíça é disso o melhor exemplo: todos são obrigados a subscrever um seguro, as seguradoras não podem discriminar com base no historial clínico ou em doenças pré-existentes e os cidadãos com poucos rendimentos têm apoio financeiro do governo para pagarem as suas apólices.
Nos EUA, a reforma da saúde do estado do Massachusetts segue sensivelmente o modelo suíço; os custos estão a revelar-se maiores que o previsto, mas a reforma reduziu bastante o número dos não segurados. E a forma mais comum de seguro de saúde nos EUA, a cobertura associada ao emprego, tem efectivamente alguns aspectos "suíços": para evitarem pagar impostos sobre os benefícios, os empregadores têm de seguir regras que, de facto, excluem a discriminação baseada no historial clínico e subsidiam os cuidados de saúde dos trabalhadores com baixos salários.




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