Desfila com top models do mundo inteiro. Conhece a Giselle Bündchen?
Conheço e já trabalhei com ela para a "Vogue Eyewear", mas se lhe perguntar quem eu sou ela não se lembra [risos]. Desfilámos juntos em Miami.
Falaram um com o outro ou não há tempo para conversas entre pares?
Falámos e ela, como brasileira que é, registou o facto de eu ser português, mas nada mais do que isso.
É uma mulher distante, intangível?
É uma pessoa com imenso carisma. Ao vivo ganha imenso.
É ainda mais bonita do que nas fotografias?
É muito simpática, e isso torna-a mais bonita. Tem aquela simpatia alegre e natural dos brasileiros quando estão bem na vida e se sentem confortáveis consigo próprios. Imagine isso numa pessoa sem problemas? [risos]
Mas essa é que é a ideia enganadora: achamos que certas pessoas por serem bonitas, ricas e bem-sucedidas não têm problemas?
Sim, quando digo que não tem problemas quero dizer que não tem alguns dos problemas que temos habitualmente, no sentido em que as coisas para ela estão muito facilitadas.
Para fechar o capítulo Giselle Bundchen: acha que ela é muito mais bonita ao vivo? Falo de beleza física, mesmo.
Acho.
Como é que um homem resiste a uma mulher assim?
Se quer que lhe diga nem penso em aproximar-me. Ou seja, nem sequer se põe a hipótese de lhe resistir.
Uma mulher demasiado bonita assusta os homens?
Não assusta necessariamente, mas em relação a ela em particular sei que há uma distância grande que se cria quando ela aparece para trabalhar. Ela própria sabe o impacto que tem e por isso vem programada para fazer um trabalho, falar com 30 pessoas ao mesmo tempo e manter essa distância.
Como homem e como modelo também treina essa distância em relação aos outros? O impacto de um homem bonito também é grande?
Cada pessoa aprende a lidar com as suas circunstâncias.
Mas num mundo em que se valoriza especialmente a imagem e em que a beleza é muito sedutora isso pode trazer dificuldades?
Neste mundo as pessoas viajam muito, há encontros e desencontros permanentes, os modelos conhecem outros modelos. Apaixonam-se, mas uma semana depois ou um mês depois têm de se separar. Cada um vai para países diferentes, muitas vezes distantes, e isso impede a relação.
Quer dizer que essa circunstância torna razoavelmente impossível a vida emocional dos top models?
Impossível não. Conheço alguns casos de modelos que se casaram e tentam viajar juntos sempre que possível, mas quando são paixões iniciais é mais difícil, porque não se muda de planos e de vida com tanta facilidade. Aí criam-se os tais de- sencontros que podem ser sucessivos.
É uma vida muito exigente?
É. Exigente física, emocional e psicologicamente, sim. E também espiritualmente.
Vamos por partes: fisicamente o que é que exige?
As viagens e o jet lag podem ser violentos. Chegar de uma viagem de Los Angeles, por exemplo, e seguir para a África do Sul para fazer uma campanha representa um cansaço físico que, ainda por cima, não se pode notar porque temos de ser fotografados ou filmados. Não é uma queixa, apenas a constatação de um facto.
Quantas horas de ginásio é preciso fazer por dia?
A profissão exige uma preparação e uma atenção constante, não há dúvida. Os homens não podem falhar muito o ginásio.
Se falharem, que acontece?
Há homens que se desleixam mas em vez de fazerem fotografias de corpo inteiro passam a fazer só coisas de cara, totalmente vestidos e tapados. Eu, se não for ao ginásio, faço flexões e abdominais em casa ou vou para o mar fazer bodyboard.
Já foi várias vezes capa de revista da "Men?s Health" e outras. Não pode deixar de manter os abdominais desenhados?
[risos] Sim, tenho de manter os parâmetros. Mesmo assim acho que tenho muita sorte: há pessoas que não podem comer um doce porque no dia seguinte nota-se logo, mas eu como bastantes doces e bacalhau e comidas mais pesadas, mas o meu metabolismo é muito rápido e além disso compenso sempre nos dias a seguir. Tenho quase 40 anos e tenho de ter cuidado.
Mas faz dieta?
As dietas não são para fazer durante um mês, são para manter ao longo do ano. Sempre que venho a Portugal como excessivamente e posso estar dias seguidos neste regime de comer de mais, mas depois começo a sentir-me pesado e passo os dias seguintes a fazer uma espécie de detox. Como comidas mais leves e tenho mais cuidado.
Nunca tem tentações anorécticas ou bulímicas de vomitar?
Não, não consigo vomitar.
A anorexia não toca muito os homens neste mundo da moda?
Vejo alguns mais desequilibrados. Os brasileiros têm mais o culto do corpo do que nós e acontece ver alguns muito obcecados, que não tocam em hidratos de carbono, não comem doces e vivem exclusivamente de proteínas e vegetais. Isso para mim seria impossível, dava-me cabo da cabeça e do equilíbrio.
Do ponto de vista emocional o que mais custa é esse exercício constante de desapego das pessoas e dos lugares?
Há uma certa distância que se cria em relação às pessoas que vamos conhecendo, mas eu, por acaso, gosto de me entregar, gosto de conhecer as pessoas e de me dedicar a elas. Como viajo muito, vou e volto aos mesmos lugares e gosto de manter o contacto com as pessoas, mas claro que são amizades e relações à distância.
E isso traz solidão emocional?
Sim, um bocado.
Custa-lhe?
Habituei-me. Mas às vezes custa-me.
Chora com facilidade?
Às vezes. Se estiver mais cansado fisicamente e alguma coisa me correr mal emocionalmente, posso chorar. Por acaso lembro-me da última vez que chorei, foi numa discussão ao telefone com a minha namorada, que é cantora e vive na Estónia. Acho que chorei de frustração. Acontece [risos].
Quando diz que é uma vida muito exigente do ponto de vista espiritual está a falar do ponto de vista religioso e de prática de culto ou de um sentido de transcendência?
De tudo. Sou católico e para mim é difícil ir à missa porque se gera uma certa inércia. Ou seja, se estiver a nevar lá fora não saio de casa num lugar estranho, num país que não conheço, para ir procurar uma igreja e saber a hora das missas. Não pego num mapa, nem sempre tenho internet para procurar?
Mas sente necessidade de ir à missa?
Ultimamente confesso que não tenho sequer sentido essa necessidade e era aí que eu queria chegar. Cria-se facilmente este impasse e esta inércia. Mas já houve alturas em que era intransigente e ia sempre.
Era uma necessidade?
Era, mas também era a certeza de ser o mínimo que eu podia fazer neste campo.
Sem reduzir a espiritualidade à prática de um culto religioso, pergunto que necessidades espirituais tem? De que sente falta?
Quando falava da exigência a nível espiritual era mais no sentido de uma realidade que é a minha e tem a ver com o facto de não poder estar regularmente com pessoas com quem posso falar de Deus. Isso cria afastamentos e estraga a relação com o próprio Deus.
Como se houvesse uma fonte que seca?
Repare, se eu não falar com um amigo durante três anos a relação também seca um bocado. Podemos dar umas gargalhadas ao telefone uma vez por ano, mas a relação seca porque não é bem alimentada e isso faz com que passemos a falar de umas coisas muito gerais. Se não falar de Deus e não continuar a falar com Deus (e cada um há-de ter as suas maneiras e encontrar os seus meios), vou-me afastando.
Quem é Deus para si?
Deus é um amigo. Para mim também é amor e está em todos.
No capítulo moral, a vida de top model também é muito exigente?
Também, claro.
Num meio onde há muita superficialidade também pode haver muita leviandade? Como é a vida de uma pessoa que fisicamente tem de estar em forma mas nem sempre está realizada emocionalmente nem encontrada espiritualmente?
As questões morais e éticas existem e são comuns a todos, não são um exclusivo desta classe profissional.
Mas nesta profissão a relação com o corpo e com o desejo pode estar muito distorcida e, nesta lógica, distorcer as relações. Neste mundo há tido o tipo de casais, hetero e homossexuais?
Neste meio realmente proporciona-se muito essa leviandade. Estamos pouco tempo em cada sítio e os encontros rápidos têm tendência para criar relações em que vale tudo. Repare, vamos a uma festa mas não vamos estar com os nossos amigos de infância ou com as pessoas que conhecemos ou são referências para nós?
Há muita droga nessas festas?
Há muita droga e muitos assédios. Neste contexto algumas coisas são levadas com mais naturalidade?
Porque é moda ou porque há uma abertura que vem de dentro?
Acho que há essa abertura maior neste meio. As pessoas estão cada vez mais abertas a este tipo de relações, efémeras e sem preconceitos.
Mudando de assunto, como se lida com a frustração de não ser aceite em castings, por vezes de ser consecutivamente rejeitado?
É sempre bom sermos aceites e sentirmos que estamos a ter sucesso. Todos lidamos bem com essas fases, mas são sempre alternadas com fases de insucesso, e é importante sublinhar isso. É nestas fases que se geram as depressões e os problemas psicológicos graves, especialmente nos miúdos mais novos.
Já tive depressões em fases de insucesso profissional?
Nunca tive depressões porque felizmente não tenho essa tendência. Mas vejo muitas pessoas deprimidas ao meu lado.
Como se sai desse estado? Essas pessoas podem ficar muito sozinhas num meio que, por definição, gera grandes solidões e desacertos?
Essas pessoas não podem ser deixadas sozinhas, mas na realidade há muita solidão nesta profissão. É uma pena.
Há pouco sublinhou que tem quase 40 anos. A idade pesa-lhe? Como lida com o futuro e a perspectiva de um corpo que envelhece?
Acho que lido bem. Tenho perfeita consciência da idade que tenho e sei que neste meio os homens trabalham até mais tarde.
Até que idade?
Podem trabalhar até aos cinquenta e tal?
Ou seja, tem mais dez anos e tal de longevidade?
Eventualmente quinze. Mas se calhar também não é só isto que vou fazer nos próximos quinze anos.
Tem um curso superior e formação em Química. Como é que um químico aplicado descobre o talento para modelo?
Comecei em Engenharia Química mas depois mudei de curso, estava no Técnico e mudei para a Nova porque perdi o entusiasmo pelo curso no Técnico. Nessa altura tinha algum tempo livre por isso mesmo. Nesse ano fui fazendo uns castings, uns trabalhos aqui e ali, por graça, e ganhava dinheiro com isso.
Sente que houve o feitiço do dinheiro fácil e de uma vida aparentemente mais glamorosa e divertida?
Nunca me passou pela cabeça ser modelo nem tinha pensado que os homens também podiam viver disso (risos).
A sua família também não o educou para ser modelo, presumo?
Não, não [risos]. Quando disse em casa os meus pais perguntaram se isso existia como profissão. Acontece que nessa altura de transição um amigo meu que faz surf e era modelo da Central Models falou-me disso e desafiou-me. Era de facto um dinheiro fácil, um extra que me divertia e dava para continuar a estudar.
Continua a ser dinheiro fácil?
Nessa altura era fácil. Estava a estudar, não fazia diferença se era contratado ou não nos castings, e todo o dinheiro que ganhava era fácil no sentido em que não me dava muito trabalho nem me exigia muito. Agora, como profissão, já não é um dinheiro assim tão fácil. Tenho de investir imenso nas fotografias, nos portefólios, em trabalhos que são quase de graça mas interessam do ponto de vista do currículo para poder ter exposição para outros trabalhos. Tudo isto passa por uma gestão constante e, como falámos, por uma atenção constante ao corpo.
E obriga-o a viajar permanentemente?
Sim, se ficar parado em Portugal, perco muitos trabalhos.
Em que países esteve ultimamente?
África do Sul, Alemanha, Inglaterra, Estónia, Áustria e Suíça.
Ainda gosta de viajar ou tudo passou a ser mais do mesmo?
Ainda gosto de viajar, mas claro que me cansam tantas viagens.
Tem o sonho de estabilizar, casar e ter filhos?
Tenho, e isso não é incompatível com a profissão, até porque a partir de um certo estatuto as pessoas podem viver no seu país e ser chamadas para trabalhar pontualmente fora.
Qual é o segredo de algumas top models que continuam na linha da frente muito depois dos 40? Saber reconverter a vida e orientá-la para outros objectivos?
Cada uma tem a sua história, e são histórias muito diferentes, mas quase todas as mulheres têm este chamamento a partir dos 30, passam essa barreira, querem ter filhos e criam naturalmente alternativas, até porque sabem qual é a longevidade de uma top model.
Tem tempo para ler livros, ir ao cinema e fazer uma vida normal, por assim dizer?
Agora estou a ler um livro muito técnico sobre a maneira de fazer um business plan, porque nunca fiz nenhum e quero desenvolver um negócio no futuro [risos].
Há um preconceito social relativamente aos homens e mulheres muito bonitos. Muitas pessoas acham-nos superficiais e pouco inteligentes. Isso incomoda ou pesa?
Pesa um bocadinho, porque muitas vezes as pessoas aproximam-se já nessa suposição e tratam-nos como modelos.
Acham que se é giro tem de ser pouco esperto?
Sim.
E o que é ser tratado "como modelo"?
É chegar a um lugar ou a um trabalho e não terem consideração pela pessoa. Como se um modelo fosse um objecto que querem usar com um único objectivo.
Isso custa?
Custa. Às vezes não é humano, sequer. Mas também não vou chegar e dizer: "olhe que eu faço outras coisas na vida, não sou apenas modelo!". Todas as pessoas têm de ser tratadas como seres humanos.




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