Li vários romances estas férias e em nenhum deles encontrei uma só proposta de casamento. Estas coisas deixam-me descoroçoado, porque tenho saudade de literatura assim. "Devia haver uma lei que impedisse os romances de acabarem mal", escreveu Darwin na sua "Autobiografia". O espírito voa para o século 19, em que os escritores lidavam abundantemente com a coisa. Eis alguns, poucos, exemplos.
Comecemos por Portugal. Nos "Fidalgos da Casa Mourisca", de Júlio Dinis, há uma proposta que dura páginas e páginas. É quando Jorge declara a Berta (que tem "os olhos húmidos de pranto") o seu amor. Júlio Dinis, de resto, é especialista na matéria. Nas "Pupilas do Senhor Reitor", Daniel não fica a dever nada a Jorge - nem Margarida a Berta ("tremia sobressaltada" no momento em que se abandonava "às branduras do sentimento"). E Henrique e Cristina, que "cora", na "Morgadinha dos Canaviais", portam-se igualmente bem (para não falar de Augusto e Madalena, esse "anjo libertador"). Na "Família Inglesa", Carlos também não falha no pedido de casamento a Cecília.
Nestes casos corre tudo bem. Mas nem sempre é assim. Em "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen (qualquer romance dela tem óptimas propostas de casamento), o Sr. Collins insiste em tomar cada recusa de Elizabeth como sinal indubitável de um secreto desejo de aceitar o seu pedido.
Há, além disso, propostas que não são feitas, embora sejam tomadas como efectivas. Em "Guerra e Paz", de Tolstoi, Pedro Bezukov, sensível aos encantos de Helena Kuraguine, não se decide a pedi-la em casamento, mas o príncipe Vassili, pai dela, farto da hesitação (Pedro é um rico herdeiro), decide dar como consumado o gesto: "Dirigiu-se a Pedro num passo rápido, afivelando uma máscara prazenteira [?] "Louvado seja Deus!", exclamou o príncipe. Minha mulher contou-me tudo!", e com um dos braços enlaçou Pedro e com o outro a filha. "Helena, minha querida filha! Sinto-me muito, muito feliz." A voz tremia-lhe de emoção. "Fui muito amigo do teu pai" e ela será para ti uma excelente esposa" Que Deus vos abençoe."
O casamento acaba muito mal para Pedro, mas isso não importa aqui. Importa é que a cena romanesca era possível. Hoje, por razões que não tenho espaço para discutir, não é. Se alguém provar que estou errado, agradeço. Levo o que aconselharem para as próximas férias. É uma promessa.
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto




Rating: 0.0
Actividade em ionline