Turismo

Férias diferentes? Seja voluntário e prepare-se para suar - vídeo

por Vanda Marques , Publicado em 18 de Agosto de 2009   
Bancários, gestores ou médicos são pedreiros e pintores nas férias. Trocam uma semana de descanso por um trabalho com a AMI. Regressam cansados, mas todos querem voltar
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É uma equação difícil de resolver: quem faz turismo de voluntariado está de férias? Vamos por partes. Marcam a viagem para a fazer algures nos 22 dias de férias a que têm direito. Ficam fora de casa durante um curto período, normalmente uma semana e meia. Pagam o alojamento, assistem a espectáculos e passeiam. Até aqui tudo bem, não fosse um detalhe: ao longo desses dias trabalham e pagam para isso. Confuso? O turismo de voluntariado é assim. O lazer mistura-se com o projecto de uma organização não governamental (ONG).

Não há agências de turismo nem praias paradisíacas, e comodidades como o ar condicionado ou a televisão são raras. Mas, diz quem fez, é a única forma de se conhecer verdadeiramente um país. "O prazer de umas férias pode ser um descanso diferente: o de contactar com uma realidade distinta", explica Paulo Cavaleiro, porta-voz da Assistência Médica Internacional (AMI), que foi a primeira ONG em Portugal a desenvolver o conceito. Desde 2007 já realizaram sete "Missões Aventura Solidária". Durante nove dias, os turistas visitam um dos países do programa - Senegal, Guiné-Bissau e Brasil - e trabalham cerca de quatro horas de manhã. À tarde são turistas: fazem passeios e assistem a espectáculos tradicionais. Parte do dinheiro que pagam pela viagem é um donativo directo para o projecto local. Até agora, a AMI já levou 70 turistas e montou dez estruturas, como centros de saúde e escolas. Conheça quatro exemplos de turismo de voluntariado.

1. Aquela imagem nunca mais lhe saiu da cabeça. Uma aldeia inteira a comer à mão, directamente de um balde cheio de milho e água. Depois de dançarem, as crianças começaram a ficar com fome e, de repente, já toda a aldeia se reunia à volta do balde. "Foi uma imagem muito forte, uma coisa meio animal, que teve um grande impacto em mim", conta Roberto Basílio. O gestor, que sempre quis fazer voluntariado, descobriu no site da AMI a forma de conciliar a experiência com o seu trabalho. Inscreveu-se em Janeiro e em Abril já estava a aterrar no Senegal. "Sabia que era um trabalho mais simbólico. No fundo, demos uma contribuição de 500 euros para a construção do centro de saúde e vimos de perto o que ajudamos a construir, deixando uma marca pessoal." Roberto até gostava de ter trabalhado mais. Sempre que tinham tardes livres, entre as actividades culturais e as visitas, o gestor queria ajudar na cozinha. Mas a AMI também utiliza estas férias para dar emprego aos locais, que tratam de tudo no acampamento. Mesmo assim, o trabalho não era assim tão fácil. "Custou um bocadinho por causa do calor, mas trabalhamos tão rapidamente que acabamos antes do previsto", conta Roberto, que saiu de lá com o sentimento de dever cumprido: "As cerca de 100 grávidas que moravam na aldeia de Parba tinham de fazer quilómetros a pé para ir a um centro de saúde. Agora não. Ajudámos genuinamente e recebemos em troca uma visão muito genuína da cultura do país."

2. Nas férias, Susana Martins começava a trabalhar uma hora mais tarde que no banco. Às nove horas já tinha uma trincha de tinta na mão e mesmo com um calor infernal, a rondar os 40oC, estava pronta para pintar a escola da aldeia de Madina, na Guiné-Bissau. "Não se esqueça desse cantinho", "Olhe que ali falta outra demão", diziam os habitantes. A bancária de 46 anos, com pouca experiência na arte de pintar paredes, seguia as dicas. Durante a semana de férias pintou portas, janelas e paredes, em vez de passear numa avenida europeia ou descansar numa praia paradisíaca. "É a melhor maneira de se conhecer um país e a sua realidade. Vamos a locais onde não chegam os turistas." Esta é a segunda aventura da AMI em que participa, depois de ter estado no Senegal. Mesmo assim, na viagem de avião, uma pergunta martelava-lhe a cabeça: "Será que o meu dinheiro faz alguma diferença?" Só quando aterrou é que percebeu o impacto destas missões. Na Guiné-Bissau, 66,7% da população vive com menos de 2 dólares por dia, por isso oferecer uma escola através da AMI parecia uma óptima ajuda. Nem o perigo de apanhar malária ou o calor tornaram as férias menos interessantes. "Adorei a experiência. Ajuda-nos a relativizar os nossos problemas. Conheci pessoas muito generosas e felizes com tão pouco. Pessoas que tinham apenas uma refeição por dia e ainda assim a queriam partilhar connosco. Tenho de repetir."

3. "Estás maluca? Vais pagar para ir trabalhar nas férias?" Foi assim que alguns colegas reagiram à notícia de que Maria da Conceição ia para o Senegal. Durante nove dias dormiu numa tenda, acordou às sete da manhã, andou de carroça para comprar pão e trabalhou com 40 e tal graus. A professora universitária descobriu as férias de voluntariado da AMI no site da ONG. Inscreveu-se num impulso. Não desistiu nem quando foi à reunião de planeamento e ninguém lhe abriu a porta - chegou atrasada e o grupo estava longe da campainha e não a ouviu. Da viagem a Mbambaye o que recorda não é ter suado em bica enquanto pintava as paredes do centro de saúde, ou as dores de costas, mas sim as actividades que tinham à tarde. Assistiram a lutas tribais, danças, cânticos, batucadas, mas Maria da Conceição Peleteiro só percebeu o verdadeiro impacto da sua missão quase no fim da viagem. "Fomos visitar uma mesquita e no caminho de regresso íamos entregar livros a uma aldeia. Chegámos com duas horas de atraso, mas as pessoas continuavam à entrada da escola à espera. Bateram palma, sem qualquer ressentimento pelo atraso." A experiência é para repetir, mas não para já: "Estas coisas devem ser vividas de forma pausada." E quanto ao cansaço? "O mais importante é descansar a cabeça."

4. Ir para África sem conhecer ninguém para trabalhar? A família de Liliana Silva não achou muita piada à ideia. Mas isso não a impediu de seguir o sonho de ir a África e trabalhar numa missão de solidariedade. O Senegal era o destino e o objectivo ajudar nos acabamentos do centro de saúde de Mbambaye. Aguentou o calor estoicamente e divertiu-se a pintar portas, paredes e a limpar o centro. Só ficou mais triste quando se apercebeu do nível de medicina que se praticava. Ou da falta dela? Como extra, Liliana e dois outros turistas da área da saúde decidiram despender duas manhãs para dar formação aos habitantes sobre sida e nutrição. Tinham um enfermeiro local para traduzir. O maior espanto foi perceber que ele não dava assim tanto crédito à medicina ocidental e que por vezes utilizava os medicamentos da AMI de forma incorrecta. "Prescrevia antibióticos quando não era necessário." Mesmo assim, valeu a pena. "Para quem gostar de viajar, for aventureiro e quiser ajudar, é maravilhoso." Só a falta de higiene pessoal é que lhe fez confusão. Na aldeia onde ficavam a dormir, Réfane, havia muitos cortes de luz e de água, o que implicava tomar banho de púcaro.


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