Como te sentes depois de teres sido leiloada por aquele preço na Christie's?
Foi uma grande aventura. Não sou nada uma artista de leilão e só participei em leilões de beneficência para contribuir para causas. Isso, para mim, faz todo o sentido, mas ser leiloada, e logo pela Christie's, foi fantástico. Não sabia o que havia de dizer.
Ficaste nervosa?
Bastante, porque havia um lado inesperado, eu não sabia como é que aquele tipo de acção decorria. Fui montar a peça e quando lá cheguei vi que na mesma exposição em que ia ficar o meu "Coração" estavam imensas obras importantíssimas, todas elas a valerem imenso dinheiro. Fiquei nervosa e a pensar o que eu estava ali a fazer no meio daquilo tudo...
E a pensar no que iria valer a tua peça?
Exactamente. As peças valiam todas para cima de um milhão, milhão e meio, poucas eram abaixo de um milhão. Foi engraçado porque a instalação na Christie's era muito bem feita. Era uma exposição, no fundo... Eu achava que no leilão as peças estavam separadas mas não, havia um sentido conceptual. Aquilo é feito exactamente como uma exposição e fiquei mais à vontade porque percebi que tudo se ia passar como se estivesse numa exposição.
Voltaste a sentir-te no teu elemento?
Sim. E depois havia o momento do leilão propriamente dito, ao qual iria assistir à distância.
Onde estavas?
Estávamos em casa e tínhamos planeado ver pela internet (deram-nos um link especial). Começava às 19h30, eu era o nº 31 e achei que seria leiloada mais tarde, mas quando, finalmente, nos conseguimos ligar à internet, a minha peça estava a ser leiloada.
Essa rapidez poupou-te os nervos?
Não, porque enquanto decorreu o leilão o nosso contacto da Christie's ia fazendo comentários: dizia que estava a correr muito mal porque o Jeff Koons não subia o preço, ia descrevendo os passos e a evolução do leilão, e nós deste lado numa pilha de nervos.
Imagino que sim. Ser leiloada com o Jeff Koons põe a fasquia muito alta?
Eu pensava "se o Jeff Koons não passa o preço, estou feita!" [risos].
Quando o negócio ficou fechado, qual foi a sensação?
Foi de estranheza, porque nós não sabíamos se estávamos em libras, dólares ou euros. Ficámos a pensar quanto é que aquilo valia!
Em todo o caso, o dinheiro não era para ti, ou era?
Não, mas era importante ser bem vendida, porque sabemos que os preços dependem dos mercados e, como em Portugal o mercado é muito pequeno, é bom ter um preço aferido pelo mercado internacional. Ainda por cima quando são preços públicos como os dos leilões. Este leilão foi bom para fixar o meu preço no mercado.
Tu vives do teu trabalho e crias postos de trabalho. Quantas pessoas trabalham contigo?
Depende, porque vamos recebendo estagiários, gente a fazer pós-graduações, mestrados, mas na equipa fixa somos cerca de 14 pessoas.
Não te assusta ter custos elevados num país com a nossa escala?
Nunca na minha vida tinha pensado ter tanta responsabilidade e ainda bem, porque se calhar não tinha dado estes passos [risos]. Mas isto foi crescendo e hoje todas as pessoas que tenho aqui são fundamentais naquilo que fazem, às vezes até penso que devia ter um suplente para cada uma [risos], porque cada uma delas é indispensável nos conhecimentos que traz.
Aprendes tanto com eles como eles contigo?
Tenho uma equipa com pessoas de formações muito diversas, que completam a minha capacidade de acção. Tenho pessoas formadas em restauro de pintura e de mobiliário, um técnico com conhecimentos sobre máquinas e efeitos especiais, uma que estudou joalharia comigo; dois arquitectos - um deles que sabe imenso de Photoshop; um especialista em fotomontagens, outro em história de arte, outra formada em produção, outra em gestão?
Mais as pessoas que bordam...
Tenho o ateliê de costura, com a Aldésia e a Clara, sim.
Qual é a sensação de poderes viver da tua arte e juntares à tua volta esta equipa?
Tenho a sensação de ilha!
Mas ninguém é uma ilha...
Uma península, pronto [risos]! Mas é a sensação de saber que tenho aqui uma estrutura e um grupo de gente muito diferente do que é costume nos ateliês. Isto faz-me perceber a imensa sorte que tenho, mas também o imenso trabalho que me deu até chegar aqui. Encontrar a equipa certa e este ateliê levou-me 15 anos. Não sou de famílias ricas, não recebi heranças nem tive cunhas, tudo isto foi conquistado com o meu trabalho.
Onde é que começaste há 15 anos?
Num ateliê com 45 metros quadrados, no Bairro da Boavista, em Monsanto, sem certezas nenhumas de que a minha vida pudesse evoluir neste sentido. Ao longo dos anos fui percebendo que podia tentar ir sempre um pouco mais longe, acrescentar mais alguém à equipa.
Nessa altura não tinhas a ambição de fazer as peças com esta escala com que fazes?
Fiz o lustre dos tampões num 5.o andar sem elevador [risos] e, portanto, não é o espaço que condiciona o artista. Fiz imensas peças sem condições nenhumas, porque a arte quando tem de ser feita, faz-se. Não podemos estar à espera de ter espaço, de ter dinheiro ou assistentes: as peças têm de ser feitas porque há uma necessidade artística.
Farias o que fazes independentemente do reconhecimento e da valorização da obra?
Alguém me dizia no outro dia: "O seu ?Coração? agora vale mais dinheiro." Mas não, essa peça sempre valeu o que vale, é uma boa peça, com características estéticas e escultóricas fantásticas, que se adapta ao espaço de uma maneira especial. Não é porque custa mais ou menos dinheiro, é porque a peça em si é uma boa peça.
De onde vem a imaginação para fazer sapatos com panelas e tampas, um lustre de tampões, corações com talheres de plástico?
No fundo é um processo de observação, é um pouco como ser jornalista: para podermos criar, temos de ter capacidade de observação e estarmos abertos, atentos e absorver a realidade à nossa volta. Só que eu em vez de escrever faço esculturas. É uma forma de expressão, uma emoção.
Mas podes explicar (se é que isso é explicável!) quando é que percebes que os sapatos feitos naquele material vão resultar bem?
Cada um, com as suas ferramentas, constrói como quer. Cada criador tem um esquema de criação, uma série de associações de pensamento de forma a poder criar. Neste caso, comecei com uma preocupação, uma ideia, que era representar a dualidade da vida feminina: como a mulher se afirma no presente e no futuro, como mulher intervém na vida doméstica, na família, como a mulher mantém o seu papel na vida pública, como a mulher associa esses dois lados da vida, como vive essa dualidade? E comecei a pensar como ia representar essa dualidade. O que simboliza a mulher na família, em casa, ligada à tradição e à vida doméstica? Panelas! O que simboliza a mulher na vida pública, no social, a mulher glamorosa? Os sapatos de salto alto! E aí pensei: "OK, vou fazer um sapato de panelas!"
Tiveste logo certezas?
Toda a gente achava que ia ficar péssimo. Quis escolher o tacho mais internacional, aquele que na China, em Portugal ou na Austrália é sempre reconhecido. Para isso escolhi a panela de 16 cm. Peguei então nesse tacho, que é reconhecível onde quer que seja, e todo o sapato tem um módulo que é o tacho. A partir desse módulo, cheguei à escala do sapato, que é o tamanho 38, o mais universal.
Tens sobressaltos à medida que constróis as peças?
Quando foi o caso dos sapatos pensei: "Uau! Grande ideia que estou a ter!" [risos] Mas não chega ter boas ideias, o problema é realizá-las! Tive de pensar que modelo ia fazer e foi então que apareceu a Marilyn como grande símbolo de mulher com uma vida independente. A Marilyn usava este modelo de sapato, que é dos mais difíceis de usar, porque o calcanhar não tem tira e a parte da frente é muito estreita, mas a Marilyn usava este tipo de sapato com um supernível. Como não queria deixar de prestar uma homenagem à Judy Garland e ao "Feiticeiro de Oz" (e aí começa a desenhar-se uma história...), à nossa Carmen Miranda e à Cinderela, de repente havia uma série de personagens femininas cujos sapatos eram o elemento pivô na mudanças das suas vidas. O sapato começou a fazer cada vez mais sentido porque era toda uma criação de identidades, passou a haver o pé esquerdo, o direito e o par, que era a "Marilyn".
Tu amplias e expões fábulas que estão no imaginário comum mas também revelas intimidades que as mulheres não expõem facilmente, como os tampões?
No caso do lustre, a origem da peça está no título "A Noiva" e tem a ver com a tradição. Neste caso há outra vez essa ambiguidade entre o que é tradicional e contemporâneo, entre a forma como as mulheres vivem esse encontro entre o passado, o presente e o futuro.
Em que sentido?
"A Noiva" é um lustre, que é um objecto de luxo, tal como é também um vestido de noiva. São objectos de perfeição, de riqueza, de poder económico das famílias que apresentam a sua noiva. O lustre é feito de tampões brancos, a simbolizar o vestido branco da noiva e funcionam pela lógica que tem a ver com uma interrogação: será que as noivas, hoje em dia, são virgens? O vestido de noiva branco tem uma lógica associada, uma tradição, que é a virgindade no casamento, a perfeição e a pureza, mas a maioria das pessoas que se casam agora já não é virgem. Há aqui uma lógica que é a da libertação sexual das mulheres contemporâneas, que nada tem a ver com a clausura e a virgindade do passado, socialmente imposta. Hoje em dia as mulheres são livres de fazer da sua vida o que querem. É uma peça que, de alguma maneira, critica uma tradição que as mulheres insistem em prolongar, mas não é justa. As mulheres já não precisam de carregar o branco no dia do casamento, a não ser que gostem e queiram.
Tens uma linguagem própria. Sentes-te estranha no mundo?
Ça dépend! [Risos].
Depende do olhar dos outros ou do teu próprio olhar?
Às vezes é mais do olhar dos outros, porque eu sinto-me bastante integrada. Quando chego a um museu para montar uma exposição, a minha capacidade de adaptação é fundamental. Por vezes estamos pouco mais de uma semana num museu e, nessa semana, temos de criar relação com muitas pessoas, desde a senhora da limpeza (que te vai aspirar a peça e fazer perguntas) até ao director do museu, passando pelo serviço educativo, a imprensa, a parte económica do museu. Num curto espaço de tempo, temos de nos dar com toda a gente, produzir a obra, envolvermo-nos com a equipa de montagem, enfim.. É tudo muito interessante porque revela relações muito fortes e muito instantâneas. Não me vejo uma estranha no mundo, porque tenho de lidar com todo o tipo de pessoas.
Mas isso é no circuito artístico. Quando estás fora desse circuito, as pessoas falam uma linguagem muito diferente?
Sim, mas também é muito diferente seres sapateiro ou seres enfermeiro, não têm os mesmos problemas. Todos nós temos uma intervenção social e uma intervenção familiar e, nesse sentido, não sou diferente das outras pessoas. A minha intervenção social é uma, que é fazer sonhar, e a minha intervenção no quotidiano é bastante igual à das outras pessoas, tenho uma família normalíssima.
Quando entraste neste mundo de fantasia e a criar peças?
Lembro-me de ser uma criança e uma jovem normal. Cresci como todos os miúdos e naturalmente fui procurando o meu caminho. Essa é a grande vantagem: não ser pressionado e ter espaço para descobrir. Nisso os meus pais foram fantásticos: tive espaço e tempo. Mas não foi só na minha família, também foi na escola. Escolhi ir para a escola António Arroio porque havia outras pessoas como eu. Não me sentia diferente, mas sentia necessidades diferentes, porque o liceu não me dava as respostas que procurava. Fiz joalharia, desenho, artes plásticas e fui explorando. Isso é que é a grande aventura: ter coragem para procurar.
Achas que estás a cumprir a tua vocação e a trabalhar o teu talento?
Sim, e isso é uma sorte e um grande privilégio, porque há muitas pessoas que não podem fazer aquilo que eu faço, mas que gostariam muito e teriam capacidade.
O que te inspira?
Tudo o que seja feito com qualidade, com sinceridade, em que as pessoas levem a fronteira um pouco mais além. A energia de querer ir mais longe inspira-me sempre.
Fascina-te a superação permanente?
Exactamente, é isso que me move. Não é tanto um autor, ou uma carreira, pode ser uma boa pergunta ou uma boa música, porque tudo o que é feito com sinceridade e força é inspirador para mim.
Lidas de uma maneira muito natural com a tua imagem. O teu peso não te incomoda?
[sorriso] Sou uma pessoa que tem um grande gosto pela tridimensionalidade e pela escultura. A beleza da forma (e os corpos também são formas!), a tridimensionalidade e a beleza dos volumes são uma estética e uma harmonia. Os padrões estéticos mudam consoante as culturas e os lugares.
A Giselle Bündchen, por exemplo, é um corpo que inspira?
É um corpo escultórico fantástico! Há corpos de modelos geniais, em termos de perfeição e de volumetria. Há pessoas que são esculturas autênticas, mas a harmonia não existiria se não houvesse uma harmonia interior.
Tu sentes essa harmonia? O teu corpo tem a ver com aquilo que tu és?
Sim. Sou uma pessoa com uma volumetria especial, é verdade [risos]. Em termos de saúde deveria ter menos peso, mas no sentido de aparência não me incomoda nada, porque a volumetria é uma coisa que se gere como se pode.




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