Volta a Portugal
Nuno Ribeiro. Rei morto. Rei posto. A reconquista aos espanhóis
por Mariana Pinheiro, Publicado em 17 de Agosto de 2009
Ao serviço da LA-Pecol venceu a Volta de 2003 em Viseu. Este ano, o ciclista da Liberty Seguros repetiu o feito
Mais uma vez a história repete-se. Há uma espécie de déjà vu no enredo desta Volta. Se Nuno Ribeiro não foi à bruxa em Valongo, pelo menos parece. E a mulher, decerto, profetizou-lhe uma carreira com picos de glória semelhantes, conturbados apenas por alguns anos de mau presságio, que o atiraram para a rua da amargura depois de falhar o controlo antidoping para o Giro de Itália. À conta disso foi despedido da Pro Tour Liberty Seguros e ficou num lugar medíocre na Volta a Portugal de 2005. Esse annus horribilis, em que já ninguém se lembrava dele, era para ser esquecido. Mas como o povo gosta de heróis renascidos, que andaram pelos caminhos do infortúnio, não tardou a aclamá-lo como vencedor da Volta deste ano, assim que as coisas começaram a correr bem. E a polícia, na berma da estrada, tirava-lhe o chapéu enquanto Ribeiro cruzava as ruas de Viseu em contra-relógio.
A reconquista Assim o rei voltou à ribalta, disposto a reconquistar Portugal aos espanhóis. Um rei pujante que não se rala com as ameaças de David Blanco e diz, em relação a esse senhor, que vai continuar a "dormir descansado", e sem mais arrumou o assunto com a tranquilidade de quem sabe que vai correr tudo bem, (a história da bruxa mantém-se perante tamanha assertividade).
Nuno Ribeiro foi o último português a vencer a Volta a Portugal, em 2003. O único deste milénio. Depois dele venceram três espanhóis (David Blanco venceu duas vezes) e um russo. Há seis anos, tal como agora, venceu a etapa da Torre, ao quinto dia vestiu-se de amarelo e mais uma vez serviu-se da sua cidade- -talismã: Viseu, onde foi declarado vencedor das Voltas a Portugal de 2003 e 2009.
"Sabia que não podia falhar, especialmente depois de todo o trabalho que a minha equipa fez ao longo de toda a prova. Foram todos excelentes e a eles uma vez mais agradeço e dedico esta vitória. Tinha 1,47 minutos de avanço, perdi 40 segundos, mas tinha todas as condições para ganhar a Volta", disse o ciclista da Liberty Seguros à chegada, por entre os abraços efusivos da mulher e da equipa.
Nuno Ribeiro, de 32 anos, foi o nono classificado no contra-relógio (39m54s50?), a sua maior fraqueza. Héctor Guerra, da mesma equipa, compensou a inexperiência do português e venceu a etapa com 38m52s63?, num dia que considerou "não ter sido muito bom". E ficava tudo na Liberty Seguros que pulava de contente sempre que chegava um ciclista da equipa.
A perda da hegemonia David Blanco não tinha tantos motivos para sorrir e, conformado, disse, no final da prova, que nunca pensou que Ribeiro estivesse tão bem. "Estava mais forte do que no ano passado, mas se não dá, não dá e não me vou pôr para aqui a chorar." E, de facto, não deu. Blanco, o vencedor de 2008, acabou em segundo com 39m01s08?, depois de uma série de azares. No sábado, na etapa da subida à Torre, enquanto perseguia Nuno Ribeiro, teve um problema mecânico a seis quilómetros da meta. Conseguiu recuperar, mas ficou com 2,17 minutos a pesar-lhe na consciência. David Blanco (Palmeiras Resort-Prio), um dos favoritos antes da partida ficou em segundo na classificação geral. David Bernabéu (Barbot-Siper) ficou em terceiro e João Cabreira (CC Loulé-Louletano), que durante muito tempo foi terceiro acabou em quinto por causa do tempo perdido no contra-relógio.
Apesar de ter ultrapassado os 41 minutos no contra-relógio, Joaquim Andrade estava radiante. Não é todos os dias que se encerra a carreira no dia em que se nasceu. Esta foi a 21.a Volta consecutiva do Velhote da LA Alumínios - Rota dos Móveis. Completou ontem 40 anos e despediu-se das estradas portuguesas.
A família e o repasto Nuno Ribeiro, o trepador, acumulou a camisola de montanha e Cândido Barbosa que diz ter feito das "tripas coração" para ajudar o cunhado, levou para casa a camisola de pontos. Raquel Ribeiro, a mulher do vencedor, não sabia para que lado se virar. Se para o filho Guilherme sentado no carrinho, a quem toda a gente apertava as bochechas, se para o irmão ou o marido que chegavam à meta sob os 30 graus do sol de Viseu. "Quando é assim em contra-relógio, torço pelo Cândido porque ele é melhor. Mas quando a etapa é de montanha, então, claro, pelo Nuno. Ele é um excelente profissional, está sempre a trabalhar para ser melhor". Mas falta-lhe peso na bicicleta para não balançar tanto durante as etapas de contra- -relógio.
A Liberty Seguros não faz por menos e já resolveu o problema de peso e balanceamento do levezinho. O jantar do dia em que termina a Volta é sempre no mesmo sítio, no Cortiço, onde é feita a comida mais típica da região. Uma comitiva de cerca de 70 pessoas deixa atarantados os empregados do pequeno restaurante que já tratam ciclistas e directores por tu. A comida é um manjar dos deuses, digna de reis.
Os louros são agora para Nuno Ribeiro que saboreia a vitória com uma sede de seis anos. O vencedor disse ao i que tinha feito uma promessa antes da Volta começar, mas que não a podia revelar. Talvez seja construir outra casa ao Cândido, o cunhado, lá na Rebordosa.
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