Porque escolheu a beira-rio para esta entrevista?
Por duas razões: primeiro porque tinha acabado de participar aqui numa sessão fotográfica para a exposição da Operação Nariz Vermelho, uma magnífica causa de jovens voluntários que percorrem os hospitais do país vestidos de palhaços a animar as crianças, e depois porque tenho uma dependência visceral do mar. Aqui não tenho o mar, mas tenho o rio.
Foi aqui que deu o mergulho quando estava a fazer campanha por Lisboa?
Sim, foi mais ou menos aqui. Quando ia mergulhar veio uma ordem a dizer que era proibido mergulhar dos cacilheiros e obrigaram-me a passar primeiro para um bote. Mergulhei, subestimei a distância e fui sair ao pé do Padrão dos Descobrimentos.
Fartou-se de nadar!
Sim, cheguei lá exausto. As televisões queriam declarações e eu nem conseguia falar.
Teve nojo da água?
Tive nojo e na altura perguntei ao Dr. Germano Rego de Sousa, meu médico de família (que mais tarde veio a ser bastonário da Ordem dos Médicos), o que devia fazer para me proteger da poluição da água. Mas eu queria reforçar a ideia da ecologia e sublinhar a necessidade de o Tejo ficar mais despoluído.
De onde lhe veio a ideia do mergulho nas águas poluídas?
Fui muito influenciado por um presidente da Câmara de Berlim Oeste que tinha tido um gesto parecido, mas também fui movido por razões práticas de notoriedade. A minha notoriedade em relação a Jorge Sampaio estava muito baixa e precisava de dar um salto para a aumentar.
Um salto para a água, neste caso?
Isso mesmo. O meu amigo Germano aconselhou-me a vacinar-me contra a hepatite B.
E vacinou-se?
Não, porque eram três doses e não tinha tempo para as tomar. Pensei "seja o que Deus quiser!" e mergulhei, mas perto do Padrão dos Descobrimentos era a saída do esgoto de Lisboa e nadei naquela água. Uns tempos depois fiz análises e verifiquei que tinha tido contaminação por hepatite B mas tinha ficado imunizado.
Podia-lhe ter corrido muito mal esse mergulho?
Podia ter sido muito mau mas acabou por ser bom: fiquei imunizado graças ao mergulho no Tejo [risos].
Tem saudades desses tempos?
Do mergulho não! Tenho alguma saudade da campanha eleitoral por Lisboa.
De que é que tem saudades?
Foi talvez a campanha eleitoral com maior debate estratégico, urbanístico e ambiental sobre Lisboa. E foi há 20 anos, quando isso não era muito habitual. Espero que o debate nas próximas autárquicas seja igual.
Não está a ser nada imparcial.
Não estou a ser imparcial, mas na realidade Jorge Sampaio e Hermínio Martinho apresentaram propostas muito interessantes e muito daquilo de que se tem falado nos últimos 20 anos foi dito pela primeira vez por nós nessa altura. Tenho saudades do debate de ideias, mas do mergulho não. Não sei se é por estar mais maduro (na altura achei muito divertido), mas hoje sei que não voltaria a dar esse mergulho.
Nunca se cansa de ser o Marcelo Rebelo de Sousa?
No sentido do desgaste da imagem?
Sim, de ser reconhecido por toda a gente, constantemente.
Isso é uma factura que se paga. Ser muito conhecido faz com que muitas pessoas pensem que são minhas familiares. Acontece com grande frequência estar em qualquer sítio e virem cumprimentar-me. Mas, mais do que isso, as pessoas às vezes sentem-se à vontade para pedir favores, fazer contactos, pedir opiniões. Já perdi aviões por causa disso!
Fica irritado com essas pessoas?
Há pessoas que me abordam com problemas graves que acham que têm de ser expostos naquela hora. Eu bem pergunto se não pode ficar para outra ocasião, mas por vezes acham que não. Na altura pedi a uma das pessoas em questão que me escrevesse uma carta (hoje já diria um email) a expor a situação, mas o senhor insistia que tinha de falar comigo naquele instante porque era emigrante na Suíça e tinha medo de nunca mais me encontrar.
Valeu a pena ter perdido esse avião?
Sim, valeu a pena perder o avião, mas não se pode fazer por sistema [risos]. No dia- -a-dia, o mais frequente é ter de mudar de sítio onde almoço, de praia que frequento.
Não se cansa de tanto feedback?
É um bocadinho cansativo, mas isso tem a ver com a visão que temos da vida. A vida é uma coisa excepcional e, como cristão, acho que foi um dom que recebi de Deus em condições particularmente privilegiadas. Ou seja, tive uma educação que muitas pessoas não tiveram, um bom contexto familiar, com pais que me proporcionaram muito, viajei pelo mundo...
Isso obriga-o mais?
Quem mais recebe mais deve dar. Eu costumo dizer que a vida é uma espécie de rally paper que vou fazendo em que vou contando pontos. De cada vez que faço alguma coisa errada perco pontos e depois tenho de os recuperar. Portanto, quando tenho disponibilidade para uma coisa, mesmo que seja uma estopada ou alguma coisa mais penosa, recupero uns pontinhos... poucos, para compensar os que vou perdendo!
O que é para si um erro crasso?
É, por exemplo, ser injusto. Criticar uma pessoa e depois chegar à conclusão de que a crítica era injusta, ou não ter uma atenção com alguém que estava a precisar. Aí perco pontos, como é evidente.
Também perde pontos quando diz mal de alguém, ou não?
O José Miguel Júdice costuma dizer de mim o seguinte: a minha superfície é boa, a minha camada intermédia dá a sensação de ser má, mas o fundo é bom. Neste sentido, sou extrovertido, sou sociável, dou-me bem com as pessoas e faço este esforço de disponibilidade. Acho que tem a ver com o sentido da vida.
E quando faz crítica pública?
Quando faço crítica pública é impossível deixar de ter um aspecto agreste e de desagradar aos visados: acham sempre pouco se digo bem e acham sempre uma brutalidade se digo mal. Há um desgaste inevitável. As pessoas lêem intuitos que eu não tenho, interpretam nas entrelinhas, quando eu nem sequer tinha imaginado aquelas entrelinhas! Começam a imaginar o que está por detrás do que eu disse, que no fundo não quis dizer.
Isso incomoda-o?
Tem um preço. Faz parte da lógica de ter esta exposição. Mas no fundo tenho a noção de que não sou capaz de ser rigorosamente justo, apesar de tentar sê-lo. Muitas vezes tenho de ser crítico relativamente a amigos, que é uma coisa que eles não perdoam, mas depois fico compungido quando vejo que fui injusto ou excessivo.
É imune aos comentários das pessoas que dizem que é perverso?
Sabe, eu tenho a noção de que comento há décadas, mas também sou comentado há muito anos! Quer dizer, comentam-me mais do que eu comento.
Como vive com isso?
Quem vai à guerra dá e leva! Quem se expõe - e isto é uma coisa que muitas vezes os políticos e as figuras públicas em geral não percebem - quer ter as vantagens da publicidade sem ter os aspectos negativos, e isso não existe. Tirando o José Carlos Vasconcelos, sou o comentador mais antigo da política portuguesa. Faço isto há 40 anos e como é evidente levo pancada! Ao longo de 40 anos há sempre pessoas que discordam, que me criticam, tal como eu falo das situações e das outras pessoas.
Outra crítica que lhe fazem é ser torrencial e comentar tudo. Acusam-no de falar muito e ouvir pouco.
Por acaso acho que é uma crítica muito injusta. Sou torrencial porque o tempo é pouco e os acontecimentos são muitos. Depois, normalmente falo de questões em que me sinto mais à vontade, política, direito, matérias económicas e sociais ligadas à política, matérias culturais relacionadas com a educação. Mas quando é fora disso peço a opinião de especialistas e peço que me expliquem. Depois tenho de meter duas horas em dois minutos! E o mesmo pode acontecer e acontece com outros temas.
Quais são os seus calcanhares de Aquiles em termos de matérias?
Sinto-me desconfortável em alguns domínios sociais mais especializados, aí tenho de pedir apoio. Na segurança social, por exemplo, ou em certos aspectos económicos muito especializados. Apesar de ter começado a ensinar Economia, se não me sinto à vontade peço o apoio de especialistas. Em alguns domínios das artes plásticas também. De cinema não percebo nada! De teatro percebo pouco. De música conheço alguma coisa, mas evito falar. Reconheço quando não estou à vontade e só falo se a matéria, dentro destes temas, for relativamente incontroversa ou desde que tenha uma ajuda que me permita tratar dela. Ou seja, a sensação de que falo de tudo não é verdadeira: falo de áreas relativamente limitadas.
Que viagens gostaria muito de fazer?
Austrália, Moscovo, Sampetersburgo, sobretudo nas noites brancas. Gostava de percorrer de automóvel a costa ocidental dos Estados Unidos da América. Gostava muito de ir ao Círculo Polar Árctico, é uma loucura quase impossível, mas gostava muito. Depois queria regressar a sítios de que gostei muito: ao Canadá francófono, o Quebeque...
Não tem o fascínio do Oriente?
Do Oriente conheço a China e gostei, talvez até voltasse lá mais uma vez. Nunca fui ao Japão, não sei porquê, porque já tive três convites. Gostava de regressar à Terra Santa, onde já estive numa longa viagem muito agradável, mas que foi também uma loucura por ter sido imediatamente antes do começo da guerra no Líbano.
Qual é a sua idade interior?
Não sei. Em algumas coisas acho que tenho traços de juventude.
Que coisas?
Começar cada dia como se fosse o primeiro, com o mesmo ânimo e um sentido inaugural, com a mesma alegria e o mesmo espanto perante as coisas, as pessoas e os lugares.
Há quem diga que não passamos dos 30 no nosso coração, na maneira de amar...
A minha idade interior é feita de muitas idades. Nalgumas coisas tenho 20 e poucos anos, noutras 30 ou 40 e poucos, na hipocondria 60 e muitos anos!
Está apavorado com a gripe A?
Não, não estou, já estudei tudo e estou preparado. Já tratei do Tamiflu para uma emergência familiar.
Vai usar máscara?
Em princípio não, a não ser nalgumas viagens que tenha de fazer e que irei reduzir ao mínimo entre meados de Outubro e Dezembro. Mas nas que tiver de fazer levo a máscara para o caso de ser necessário.
Mas um homem que passa a vida a ser beijocado e abraçado...
Isso é um hábito português. E venho de uma família beijoqueira, já os meus pais eram assim e eu também sou assim com os meus filhos e os meus netos, beijocamo-nos muito. Os portugueses beijocam--se muito! Ainda no outro dia estava na missa a pensar que quando estivermos na altura máxima de contaminação o momento do abraço da paz vai ser um momento de grande exaltação para o vírus. O vírus vai dizer "é agora, é agora" [risos].
Como escapa a isso?
Provavelmente há que utilizar o abraço da paz oriental.
Acha-se giro?
Não, de maneira nenhuma! Nem quando tinha barba nem agora sem barba.
Mas gosta de ter olhos azuis, estar sempre bronzeado e ter boa figura?
Ter olhos azuis e ser moreno é só relativamente raro em Portugal, mas o facto de ser raro não quer dizer que seja giro.
O que é que acha de si fisicamente?
Nunca pensei muito nisso. À partida não acho nada de especial... Mas, o que é que eu acho de mim? Tenho 1,78 m, o que para a minha geração é normal, e tenho oscilado entre o muito gordo e o muito magro, mas tendencialmente mais magro do que gordo. A barba envelhecia-me e tirei-a, mas não foi por causa disso, foi por causa da hipocondria! Por causa dos ácaros. Tirei a barba em 1993, nas férias de Verão, e quando voltei ninguém me reconheceu.
Não fuja à questão, nunca se achou giro? Acha-se feio? O que é que acha de si?
Um elogio em boca própria soa a vitupério. Mas acho que sou divertido, sou uma boa companhia para férias, boa companhia de trabalho, boa companhia política, boa companhia profissional.
Como homem faz sucesso com as mulheres?
Não acho especialmente isso. Tenho visto outras figuras públicas fazerem mais sucesso. Mas cada um é como é e nem todos podem ser Robert Redford! Estou feliz em relação àquilo que sou.
Qual é a sua relação com a morte? Sente que vive este tempo em desconto?
Sou cristão e nisso não tenho angústia nenhuma. A morte é uma passagem para outra vida. Nesse sentido até me choca um bocadinho que nas missas de corpo presente, nesses momentos que são imediatamente dolorosos, não haver a ideia da Acção de Graças. Mesmo os cristãos vêem só o lado da separação física, em vez de darem graças por se ter aberto uma nova vida, que no fundo é o que nós andamos a fazer aqui. Andamos por aqui em peregrinação, o tal rally paper para essa outra vida. E quando chega a morte as pessoas pensam como se a sua fé não fizesse sentido nenhum. Ora se a fé faz sentido, então a morte tem de ser lida à luz dessa fé.
Quantos anos lhe apetecia viver mais?
Sou providencialista: aqueles que Deus quiser. Agora, sem ser providencialista, acho que estou aqui para cumprir determinadas missões no domínio do ensino, da comunicação com os outros, da pedagogia e da transmissão aos outros. O Amigo lá de cima decidirá se é daqui a dois, cinco, dez ou 15 anos. Mas eu tenho uma teoria que descobri agora: as pessoas morrem como vivem. Se vivem pachorrentamente, serenamente, morrem assim. Se vivem de forma violenta, abrupta, morrem assim. Há uma frase em latim que diz tales vita finis ita - tal vida, tal morte. O que quer dizer que já há muitos séculos se pensava isso. Eu, como tenho uma vida particularmente agitada, provavelmente vou ter uma morte agitada.
Tem muitas saudades dos seus pais?
Do meu pai e da minha mãe. Eu era até mais próximo da minha mãe. O menino do pai era o meu irmão Pedro, que é o mais novo, eu era o da mãe, e o António, o do meio, considerava-se um bocadinho menos querido, mas era beneficiado dos dois lados.
Gostava imensíssimo do meu pai, tenho muitas saudades dele, mas saudades gratificantes. Mas, se possível, tenho ainda mais saudades da minha mãe. Tenho saudades dos grandes debates que tínhamos. Ela era noctívaga, ficávamos a discutir noite fora. Faz-me muita falta.




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