Brasil

Escândalo no Senado: brasileiros querem varrer José Sarney

por Gonçalo Venâncio, Publicado em 14 de Agosto de 2009   
Crise na casa da democracia leva brasileiros à rua. De cara pintada, pedem uma faxina
Opções
a- / a+
Nepotismo, contas bancárias secretas no estrangeiro, desvios de recursos públicos e omissão de património imobiliário. Com acusações deste calibre no currículo, não há político que resista. Não no Brasil. Há seis meses que José Sarney tenta manter-se à tona num mar de escândalos (ver caixas). Antigo presidente brasileiro (1985-1990), romancista e actual presidente do Senado, é apontado pela imprensa como a cara de um gigantesco polvo de interesses, com tentáculos espalhados pelo espectro político brasileiro.

Composta por apenas 81 senadores, a casa - termo pelo qual é conhecido o Senado - emprega dez mil pessoas. É este o resultado de um fenómeno de reprodução sem limites da elite política brasileira nos cargos públicos.

Nos últimos meses chegaram a público mais de 600 "actos secretos", documentos aprovados em segredo desde 1995, que (no mínimo) ilustram a falta de austeridade da classe política. Há de tudo: nomeação de filhos, netos e primos de senadores. Exemplos? O próprio clã Sarney. Roseana Sarney, filha de José, já na função de governadora do Maranhão, continuou a utilizar um motorista do Senado como mordomo. Henrique Dias, namorado da neta de Sarney, conseguiu emprego no Senado por intermédio do sogro, Fernando Sarney, que está a ser investigado pela Polícia Federal por fazer negócios à custa da casa. Também há aumento de salários para os amigos e multiplicação de mordomias. A tal ponto que há motoristas e seguranças a ganhar mais do que o presidente da República, Lula da Silva. Escreve a "Veja" que "há anos que o templo da democracia abriga um mausoléu de más práticas". Todos pedem a cabeça de Sarney.

A crise de credibilidade do Senado é histórica e os brasileiros saem à rua de cara pintada, recuperando uma forma de protesto popular durante o processo de destituição do então presidente Fernando Collor de Mello. Na mira dos brasileiros estão as práticas da Casa e as não menos "escandalosas" alianças entre Collor de Mello, José Sarney e Lula da Silva. "Gostaria de tratar o Sr. José Sarney com respeito e elegância. Gostaria, mas não posso. Não posso porque estou a falar com um irresponsável, um omisso, um desastrado, um fraco. Um cidadão com más intenções." Na campanha presidencial de 1989, Collor de Mello humilhou o então presidente José Sarney. Suprema ironia, dois anos depois foi Sarney quem liderou o processo de destituição de Collor por acusações de... corrupção.

Sarney detestava Collor, e Collor odiava Lula (ferozes adversários na eleição de 1989). Hoje, juntam-se os três para não deixar cair o presidente do senado. Collor é a guarda avançada de Sarney na casa. E, por sua vez, Sarney, um histórico do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), é fundamental para viabilizar a legislatura de Lula. E também para projectar a candidatura de Dilma Rousseff em 2010. Com isto, Lula caiu no centro do furacão.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close