Visto de fora

Foi o Estado que evitou o pior

por Paul Krugman, Publicado em 14 de Agosto de 2009   
Há sinais de retoma. Parece que não vamos ter outra Grande Depressão. Ronald Reagan estava errado: às vezes o problema está no sector privado, e a solução no Estado
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Parece que afinal não vamos ter outra Grande Depressão. Quem nos salvou? A resposta é, essencialmente, o Big Government (Estado intervencionista).

Esclareçamos alguns aspectos: a situação económica continua péssima, pior do que se poderia imaginar ainda há pouco tempo. Os EUA perderam 6,7 milhões de postos de trabalho desde que a recessão começou. Se levarmos em conta a necessidade de emprego de uma população activa cada vez maior, temos provavelmente 9 milhões de postos de trabalho a menos.

E o mercado de trabalho ainda não deu a volta. A ligeira queda na taxa de desemprego registada no mês passado foi provavelmente uma aberração estatística. Ainda não chegámos ao ponto em que as coisas estão de facto a melhorar; por agora, só nos podemos regozijar pelo facto de as coisas estarem a piorar mais devagar.

Todavia, os últimos indicadores apontam para que a economia tenha recuado vários passos da beira do precipício.

O pânico financeiro dos finais de 2008 foi tão grave, em alguns aspectos, como o pânico bancário do princípio dos anos 30. Durante algum tempo, os indicadores-chave da economia (comércio mundial, produção industrial mundial e até as cotações das acções) desceram tão depressa como os de 1929-30, ou mais depressa ainda.

Mas, nos anos 30, a tendência continuou a ser de descida, incessantemente. Desta vez, o mergulho parece estar a acabar, ao fim de apenas um annus horribilis.

Mas então, o que nos salvou de uma reprise da Grande Depressão? A resposta, quase de certeza, está no papel muito diferente desempenhado pelo Estado.

Talvez o aspecto mais importante da acção do Estado na crise não seja o que fez, mas o que não fez: ao contrário do sector privado, o governo federal não cortou a despesa na proporção da redução das receitas (quanto aos governos estaduais e locais, a história já é outra). As receitas de impostos desceram substancialmente, mas os cheques da Segurança Social continuam a ser enviados; o Medicare está ainda a cobrir as contas hospitalares; os funcionários federais, desde os juízes aos vigilantes das reservas naturais, passando pelos soldados, ainda estão a receber os seus ordenados.

Tudo isto ajudou a aguentar a economia nesta hora de necessidade de uma maneira que não aconteceu em 1930, quando a despesa federal constituía uma percentagem muito mais pequena do PIB. E, sim, é verdade: isto significa que os défices orçamentais (nocivos em tempos normais) são agora salutares.

Além de ter tido este efeito "automaticamente" estabilizador, o governo entrou em cena para salvar o sector financeiro. O leitor poderá argumentar (como eu tenho feito) que as injecções dadas às empresas financeiras podiam e deviam ter sido mais bem pensadas e que os contribuintes pagaram de mais e receberam de menos. Mas, sem elas, as coisas teriam sido muito piores.

O que importa frisar é que, desta vez e ao contrário do que aconteceu na década de 1930, o governo não assumiu uma postura de distanciamento enquanto grande parte do sistema bancário soçobrava. E essa é outra razão pela qual não estamos a viver a Grande Depressão II.

Desde o início que defendo que o plano de estímulo de Obama pecava por falta de dimensão. Seja como for, as estimativas mais razoáveis apontam para mais um milhão de cidadãos com emprego agora do que sem esse plano, um número que irá aumentar ao longo do tempo; e que o estímulo desempenhou um papel significativo ao travar a queda livre da economia.

Em suma, e no cômputo geral, o Estado desempenhou um papel estabilizador fulcral nesta crise económica. Ronald Reagan estava errado: às vezes o problema está no sector privado, e a solução no Estado.

E não é caso para nos regozijarmos por o governo estar nas mãos de pessoas a quem não assusta um governo com peso específico?

Não sabemos o que teriam sido as políticas económicas de uma administração McCain-Palin. O que sabemos, porém, é aquilo que os republicanos na oposição têm vindo a dizer - e que se resume à exigência de que o Estado deixe de fazer de entrave a uma possível depressão.

Não estou só a falar da oposição ao estímulo económico; os republicanos mais influentes querem também descartar os estabilizadores automáticos. Em Março passado, John Boehner, líder da minoria da Câmara dos Representantes, declarou que, uma vez que as famílias estavam a sofrer, "é altura de o governo apertar os cintos e de mostrar à população que ?we get it? (já percebemos)". Felizmente, esse conselho foi ignorado.

Continuo muito preocupado com a economia. Ainda há, lamentavelmente, grandes probabilidades de o desemprego se manter alto por muito tempo. Mas parece que evitámos o pior. Uma catástrofe profunda já não parece provável.

E é ao Big Government, tendo ao leme pessoas que lhe compreendem as virtudes, que isso se deve.

Economista Nobel 2008
Exclusivo i/The New York Times

 

 



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