Ser campeão de golfe aos 17 anos é um espectáculo?
É uma sensação única, porque foi um objectivo desde pequeno. Alcançá-lo, entre os melhores jogadores do país, é mesmo um espectáculo!
Em Portugal há muito bons jogadores de golfe?
Hoje em dia há. Em Portugal, os melhores jogadores têm em média 18/19 anos, porque em 2008 houve um projecto que fez com que isso acontecesse. Começou a apostar-se nas camadas mais jovens e por isso foi-se dando mais rotatividade a esses jogadores a nível internacional e nacional.
Desde Pequim? Mas nos Jogos Olímpicos não há golfe, pois não?
Acabou por não haver, mas era para ser um desporto olímpico... Mesmo assim, para nós foi bom ter-se feito esta tentativa, porque houve uma preparação e começaram a apostar nas camadas mais jovens, o que é sempre bom para se poder ter boas bases.
Ser campeão nacional absoluto entre pares mais velhos, mais experientes e maduros, num desporto que exige maturidade, experiência e estratégia, é obra, não é?
Pois é, mas eu e outros da minha idade começámos neste projecto aos 12 anos e por isso temos uma experiência que se calhar alguns dos mais velhos não têm.
Que experiência é essa?
Experiência internacional, torneios de todo o tipo. Andamos sempre a viajar pela Europa, pelos Estados Unidos, pelo Japão, etc.
Isso é fascinante?
Isso também é um espectáculo [risos]. Apesar de quase não vermos outra coisa sem ser os greens, é bom para a equipa.
E é sempre bom para conhecer jogadores de todo o mundo?
Sim, já conhecemos quase toda a gente.
Conhece o Tiger Woods?
Não, não, o Tiger Woods ainda não tive oportunidade de conhecer.
Mas gostava?
Gostava, adorava!
Quem é que gostava mais de conhecer, para além dele?
O Sérgio Garcia e o Adam Scott, dois dos meus ídolos.
Disse que ser campeão nacional era um sonho desde pequeno. Pergunto: quem inspirou esse sonho? Quando é que se lembra de ter acordado e pensado "gosto de jogar golfe e é isto que eu quero fazer na vida"?
Comecei no Vila Sol, no Algarve. O meu pai ia bater bolas e eu ficava sentado no cesto a vê-lo. A certa altura ele comprou uns tacos para eu começar. Foi aí.
O seu pai joga bem?
Joga, mas nunca se profissionalizou porque começou a jogar mais tarde e sempre por prazer. Ou seja, não leva o golfe tão a sério como nós.
Como é o dia-a-dia de um jogador a sério?
Acordo todos os dias muito cedo e depois é tudo muito intenso: a preparação física, os treinos, o facto de não podermos sair à noite. Fazemos treinos por objectivos, o que é sempre importante.
Quais começam por ser os objectivos?
Divide-se o treino por partes e em cada uma treinamos uma exigência específica. Depois, nos torneios, avaliamos o que correu mal e bem. Na semana a seguir treinamos intensamente a parte que correu mal. Sem esquecer as outras, claro.
Concretizando tecnicamente, que nome se dá a cada parte do treino?
Treinamos o jogo comprido (que são os shots mais compridos), o jogo curto, que é o chip, e o putt ali à volta do green... E também temos de treinar muito a parte psicológica, porque é impossível obter bons resultados sem termos uma boa cabeça e uma boa capacidade estratégica.
Boa cabeça quer dizer boa capacidade de concentração?
Boa capacidade de concentração, calma, visualização, imaginação? São tudo aspectos importantíssimos. Decisivos.
Quem é que dá esse apoio psicológico?
Temos uma especialista na selecção nacional, a Vera Guerreiro, que nos dá apoio nessa área. Aprendemos a fazer exercícios de respiração para nos podermos dominar quando estamos mais nervosos...
É um jogo de tensão permanente?
Sim, porque há a necessidade de uma concentração total. Há sempre aqueles momentos-chave, em que é preciso ter cabeça e aquela calma para aguentar.
Que momentos são esses?
O início, por exemplo, porque é importante começar bem. Ou a parte do fim, no último dia de um torneio. É importante dominar as emoções nessas alturas.
Para si isso foi difícil?
Sim, porque eu tinha muito mau feitio quando era mais pequeno.
Então foi bom aprender a controlar o mau feitio...
(Risos) Foi, e hoje em dia quase me dizem que sou humilde de mais, porque parece que não tenho essas emoções nem essas atitudes.
Aos 17 anos é uma pessoa completamente controlada?
Sim, sou.
Excessivamente?
Se calhar, não sei.
Esse excesso pode não ser muito bom?
Pois, mas por dentro estou sempre com garra e vontade de ganhar.
Acredito, mas esse controlo emocional conseguido a partir dos 12 anos acaba por ser um esforço muito grande, ou não?
Sim, mas esse trabalho é feito a partir dos 16 anos. Quando somos mais novos deixam-nos mais à vontade, porque nessas idades é impossível conseguir esse domínio. Há que deixar seguir um processo natural para depois, a partir dos 16, haver um salto na carreira em que é preciso começar a trabalhar verdadeiramente esses pontos.
A prova de que é um salto é que foi esse o ano em que se tornou campeão.
Sim, foi [sorriso]. Foi um alívio, uma coisa tão boa que nem sei descrever.
O prazer de ganhar e ser campeão também está associado ao prazer de libertar toda a tensão acumulada?
É um bocadinho as duas coisas. No ano passado comecei a sentir que os resultados não estavam a aparecer e eu sempre fui uma pessoa que trabalhou imenso e que se esforçou imenso... Este ano comecei a jogar melhor outra vez e ter sido campeão foi o culminar destes anos de trabalho. Isso deu-me uma felicidade enorme. Acho que já não era sem tempo [risos].
Há muitos que vão continuar a trabalhar muitos anos e nunca vão ser campeões nacionais absolutos...
Sim, há muita gente que treina muito e investe muitas horas e esforço nos treinos mas nunca chega a ser campeão. Essa é a dificuldade do desporto.
Desde que foi campeão passou a ser muito mais solicitado para viajar, fazer estágios e participar em torneios. Também foi convidado para estudar na Universidade do Minnesota. É uma escolha difícil nesta idade?
Sim. Tive uma fase má no ano passado e ir agora para uma universidade nos Estados Unidos estudar e jogar não era uma decisão fácil, especialmente depois de ter passado por essa fase mais desgastante.
Como era o projecto do Minnesota?
Ofereceram-me uma bolsa para estudar e jogar golfe ao mesmo tempo. Treinar de manhã e estudar à tarde, ou vice-versa.
O Minnesota é um dos melhores lugares do mundo para treinar campeões?
Sim. Em Portugal é impossível conciliar os estudos com um desporto. Lá têm sempre estes planos com equipas dentro das universidades, têm um circuito nacional de universidades. Era um bom caminho.
Que decidiu - ir ou não ir?
Decidi não ir porque comecei a sentir que havia outras coisas que tinha de deixar para trás. No torneio no Porto Santo, na Madeira, logo depois de ter sido campeão nacional, senti que tinha de pensar seriamente em tudo isto. E comecei a ponderar se devia ir para a universidade este ano ou no próximo, se ia para os Estados Unidos ou ficava cá, e decidi acalmar um bocado, abrandar o ritmo e para já ir para a universidade em Lisboa.
Foi uma decisão demorada?
Sim. E muito difícil.
Quem o ajudou a tomar essa decisão?
Ninguém. Tomei-a sozinho e só depois é que falei com o meu pai, a minha mãe e os meus treinadores.
Alguém fez pressão para que continuasse?
Não. Achei que iam ficar chateados comigo ou desiludidos, mas todos me disseram logo que para eles o mais importante era que eu me sentisse bem, e isso deixou-me muito mais contente e aliviado.
Acho uma coragem enorme estar no auge da carreira, ser campeão e continuar interiormente livre para decidir ir ou ficar...
Reconheço que foi preciso um bocado de coragem, sim. Toda a gente me dizia que ir para o Minnesota era uma oportunidade única, que aquilo era um espectáculo e que eu devia ir.
O que o fez não ir? A dedicação exclusiva ao golfe, ficar longe da família e dos amigos? Alguma coisa o assustou?
Não, foi mais por estar a precisar de parar para pensar no que quero fazer da vida. Não queria chegar lá e voltar passado um mês ou dois, em frustração, por não me sentir bem lá.
Percebo, seria uma frustração muito grande. Assim é uma escolha...
Sim, exactamente. E ainda tenho a possibilidade de ir para o ano, ou no outro a seguir, e recomeçar com tudo mais assente e as coisas já mais tranquilas, em vez de ter tanta pressão em cima de mim. Vou fazer as coisas com mais calma e dedicar--me aos estudos este ano.
Que estudos vai fazer?
Gestão de Empresas. E vou candidatar-me à Universidade Católica em Lisboa.
Acha possível não voltar mais ao golfe?
Ainda não tenho certezas...
Neste momento está apenas cansado e precisa de descansar...
[Sorriso] Neste momento tudo é possível e agora que parei até estou outra vez com vontade de agarrar nos tacos e jogar um bocadinho. O que sinto desta vez é que se calhar não quero levar as coisas tão a sério como até aqui. Levar mais na desportiva, jogar uns torneios a nível nacional, mas não com a pressão com que estava a jogar.
Sentia-se desgastado?
Estava a ficar muito cansado das viagens, de tudo.
E descentrava-o de outros interesses e outras necessidades?
Sim, muitas vezes. Principalmente no Verão, porque queria estar com os amigos, sair à noite de vez em quando e nunca podia, porque estava em torneios.
Ter uma namorada e manter uma relação também é difícil?
É quase impossível ter namorada. Ou então é possível, mas a namorada tem de ter muita paciência [sorriso].
Tudo isto quer dizer que o Ricardo é uma pessoa com capacidade de escolher o melhor, no sentido de ter o melhor de vários mundos: das relações, das emoções e do desporto. Sentiu que se escolhesse só o mundo desportivo ia ficar de certa forma limitado?
Sim, ia recuar nos outros dois. Ou ter de prescindir deles.
A maturidade para fazer escolhas também veio do treino psicológico no golfe?
Sim, e também da experiência dos torneios. Ajudou-me a ter mais maturidade. Hoje, na selecção, noto uma coisa: olhamos para outras pessoas da nossa idade, mesmo amigos nossos, e vemos que a maturidade é completamente diferente.
E isso fá-lo sentir-se desfasado dos da sua idade ou não?
Não, dou-me com toda a gente de todas as idades.
Que mais gosta de fazer, além de jogar golfe?
Muita coisa. Jogar ténis e futebol, estar com os amigos, sair à noite. Adoro ouvir música, estou sempre a ouvir. Gosto dos The Killers e dos Coldplay, por exemplo, mas de vez em quando também gosto de músicas calmas... Adoro uma música da Mariza que é "A Chuva". E quando estou a fazer exercício físico gosto de ouvir músicas que passam na noite, dão-me energia.
Acha-se giro?
Não sei [risos].
O que acha giro nas raparigas?
A cara, olho sempre para a cara. E os cabelos...
Louros ou morenos?
Castanhos claros é o ideal. É entre os dois [risos]. E depois a cara, os olhos...
O que mais valoriza numa rapariga?
Gosto que seja simpática e tenha sentido de humor. Só depois vem a beleza. E gosto que seja querida e compreensiva.
Já teve algum namoro longo?
Não, por acaso nunca tive namorada durante muito tempo.
Mas já se apaixonou?
Já, já me apaixonei [sorriso].
E já sofreu por amor?
Toca a todos, não é?! Mas nunca tive namoros muito longos, por causa do golfe.
Sente que faz sucesso entre as raparigas?
[sorriso] Isso não sei, tem de lhes perguntar a elas.
Interessa-se por discussões políticas da actualidade, como por exemplo usar ou não usar burka? Que impacto tem uma burka para si?
Faz-me impressão, apesar de nunca ter convivido com raparigas muçulmanas. Mas às vezes nos aeroportos cruzo-me com mulheres que usam burkas e para mim é sempre estranho.
Como é que lê isso?
Acho que tem a ver com o machismo dessas religiões.
Esse machismo repugna-lhe?
Sim, faz-me confusão. Como ainda por cima as burkas são tão contrárias à nossa religião, ainda mais estranho é.
Alguma vez fez uma oração em campo, quando ganhou ou quando perdeu?
Fazia mais quando era miúdo, agora já não tanto. Lembro-me que rezava para que o dia seguinte corresse bem e Deus estivesse comigo.
E depois agradecia se corresse bem?
Agradecia nessa noite e pedia o mesmo para o dia seguinte.
Voltando ao capítulo das miúdas: na sua geração há mais igualdade ou ainda há muito machismo?
Acho que hoje em dia já somos mais iguais.
É essa atitude de igualdade que o Ricardo tenta cultivar?
Sim, sempre respeitei as raparigas. Às vezes vejo namorados que se excedem e são agressivos com as namoradas e aí quase bato neles. Choca-me sempre.
Para si é igual pedir namoro ou pedirem-lhe namoro a si?
Não, acho que é diferente.
Faz mais sentido pedir namoro?
Não, faz mais sentido ser ela a pedir-me namoro [risos].
Isso é muito à frente! Mas é por insegurança?
É um bocadinho, sempre fui um bocado inseguro.
Se pudesse dizer qualquer coisa sobre o seu pai, o que diria?
Agradeço-lhe tudo o que ele sempre fez por mim. Sempre foi uma pessoa que me apoiou no golfe e em tudo na vida.
E sobre a sua mãe?
A minha mãe dá-me muita força a nível emocional. Sempre que estou em baixo ajuda-me, dá-me imensa alegria e força.
E os seus irmãos?
Às vezes são um bocado chatos [risos]. O do meio, o Tomás, agora também está com o vício do golfe e sempre lhe disse que ele tem mais talento que eu. Se trabalhar como eu acho que vai ter futuro.
Antes dizia: "Quero ser o melhor do mundo." Agora que é o melhor de Portugal ainda quer ser o melhor do mundo?
Nesta altura tento não pensar muito nisso.
Mas ainda seria possível?
Ainda será possível! [sorriso] Ainda sinto que tenho a chama aqui dentro.




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