Editorial
A energia que falta
por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 10 de Agosto de 2009
A poderosa Inglaterra está em vias de ficar sem electricidade! Portugal, com o odiado Pinho, estava em vias de resolver o problema. Sócrates demitiu-o. E agora?
A Inglaterra corre o risco de ficar sem electricidade já em 2012. Isso: sem electricidade. Um dos países mais poderosos do planeta está em vias de se apagar porque não consegue produzir energia suficiente para as suas necessidades. Pior: essa incapacidade está a colocar a independente coroa britânica nas mãos de fornecedores estrangeiros - esses simpáticos monopolistas que ficam na Rússia e na Argélia. O que é que isso interessa, perguntam? Muito: Portugal tem um problema semelhante. Ou tinha - e pode facilmente voltar a ter. Vamos por partes.
A energia é essencial ao planeta, já se sabe, e o seu consumo é proporcional ao crescimento da economia. Ou melhor: é essencial ao seu crescimento, o que significa que para uma economia crescer é preciso investir antes em energia. É necessária na produção, claro, e torna-se indispensável no uso doméstico - já ninguém sabe viver sem gás, electricidade ou petróleo.
Sabe-se, igualmente, que em todo o planeta são estas fontes tradicionais (tanto as reservas subterrâneas de gás e petróleo, cavadas cada vez mais fundo, como o carvão e água necessários para as turbinas eléctricas) que estão a escassear. Além disso, só com investimentos em massa se consegue eficiência na produção. Barragens novas e modernas, centrais de carvão limpo, furos que acertem à primeira nos poços, enfim. Isso exige milhões, muitos milhões, o que gera um segundo problema: quem paga?
Em Inglaterra o governo de Blair quis dar ao mercado a possibilidade de gerir a procura desses investimentos. Falhou. Hoje o célebre e ex-CEO da BP, Lorde Browne, pede que se regressem aos grandes investimentos públicos. E aqui entra Portugal.
O odiado Manuel Pinho, com que todos embirravam pelas suas curiosas aparições públicas, sempre de cigarro na mão e gafe na ponta da língua, disse (ninguém quis ouvir) que o problema mais sério da economia portuguesa era a sua dependência energética face ao exterior. E por isso montou um plano de investimento em energias renováveis - vento e água, sobretudo - que chamou até a atenção do prémio Pullitzer, o americano Steven Pearlstein, que assina uma coluna no "Washington Post". Escrevia ele na crónica de 6 de Maio: "O ministro Manuel Pinho lançou-se a alterar a condição portuguesa de pequeno produtor de energia numa indústria suficientemente grande para alcançar economias de escala, investir em investigação e atrair milhões em investimento." Foi o que fez o nada mediático Pinho - conseguindo reduzir o défice energético nacional e criar uma indústria de produção de energia que não existia. A tal que, existindo em Inglaterra, não a deixaria agora nesta situação perigosa. Mesmo assim, Sócrates não hesitou em demiti-lo?
Em ano de eleições, é bom que os portugueses não esqueçam que este é um assunto-chave da economia nacional. Não há cheques- -poupança ou apostas em pequenas e médias empresas que resolvam nada de estrutural se esta aposta de Pinho não for continuada. Quem é o candidato que primeiro trará este assunto para a agenda?
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