Coluna vertical

O telefonema a Joana Amaral Dias causa problemas éticos?

por José Couto Nogueira, Publicado em 08 de Agosto de 2009   
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Pergunta

Caro José Couto Nogueira,

Bem sei que estamos na chamada silly season e que em período pré-eleitoral todos os pretextos servem para falar de tudo o que de perto ou de longe possa ter a ver com a acção política dos dirigentes partidários (e se meter uma loura jeitosa melhor).

No entanto, o caso do telefonema privado que Joana Amaral Dias decidiu transformar num facto político-partidário é demasiado poucochinho para não nos sentirmos todos em certa medida insultados no nosso Verão, e até mesmo no nosso Verão mediático.

A folhinha de hortelã do cargo de direcção no Instituto da Droga e Toxicodependência, que Paulo Campos afirma a pés juntos não ter sido um assunto conversado com Joana Amaral Dias, cobre este bolo de vento. E no meio do bolo, a manipulação das listas do PS por Coimbra, o livre-arbítrio, digamos assim, de que o secretário de Estado das Obras Públicas parece fazer uso (olha, não queres ficar com este lugar - que é meu - que eu agora não me dava jeito?). Tráfico, sim, e de poderes democraticamente consagrados.

Não lhe parece que este não caso levanta várias questões éticas? A mim parece-me. Gostava de lê-lo sobre isso. Os meus cumprimentos,

Clemente Neves

resposta

Como muito bem diz, o "caso" do convite feito a Joana Amaral Dias trata-se de um fait-divers empolado por canais de TV à cata de notícias e mais preocupados com o social do que com o essencial. Contudo, e mais que não seja, o caso relembra uma questão de ética; sobretudo, destaca como a ética está tão afastada do contemporâneo político que nem sequer existe já a preocupação do (falso) pudor.

O comportamento dos intervenientes, por mais questionável ou vergonhoso que possa parecer ao comum dos mortais, na verdade não tem nada de particularmente perverso ou invulgar, inclusive o facto de poderem estar a mentir ou, pelo menos, a ocultar a verdade.

O episódio faz parte de uma praxe que, essa sim, tem muito que se lhe diga: o sistema de escolha dos candidatos a deputados. E não interessa para o caso se esse sistema é, ou não é, utilizado noutras democracias; as avaliações éticas não funcionam por comparação. Uma situação vale por si, independentemente de ser muito ou pouco praticada.

O princípio democrático seria que os deputados fossem os representantes dos cidadãos, pessoas escolhidas entre pares para dar voz a quem os elege. Portanto, os candidatos deveriam vir da vontade dos que vão representar e não ser escolhidos à porta fechada pelas chefias partidárias segundo várias ordens de interesses, entre os quais o interesse da República não será certamente o mais relevante.

Além da pouca representatividade real do processo, ainda assistimos ao espectáculo constrangedor das trocas de favores e das ânsias, desilusões e raivas daqueles que se põem em bicos dos pés, ou se acham com direito ao lugar por serviços prestados aos partidos.

A solução seria o chamado sistema uninominal, em que os candidatos se apresentam no círculo onde vivem e são escolhidos pelas pessoas com quem contactam regularmente, que os conhecem e que eventualmente eles irão defender. Poderiam pertencer a partidos e provavelmente teriam mais hipóteses com os meios à disposição dos aparelhos, mas responderiam apenas perante os eleitores.

Só que os partidos não querem tal sistema, porque perderiam o poder de vida ou de morte (política e quiçá patrimonial) que têm sobre os deputados. Tão simples e descarado como isso.

Do modo que está, chegamos ao ponto em que os representantes do povo pouco têm a ver com o povo que supostamente representam. Todas as arbitrariedades são possíveis.

E a ética? Bem, a ética, onde ela já vai...

Escreve ao sábado


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