Pandemia

Gripe A. Casos diários vão passar de 40 para quatro mil

por Aida Sofia Lima e Marta F. Reis, Publicado em 08 de Agosto de 2009   
Dois doentes estão internados em estado grave no Hospital de São João. Pneumologista explica evolução da doença
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Dois doentes infectados com gripe A no hospital de São João, Porto, estão em risco de vida. Os quadros clínicos de um homem de 63 anos com uma doença cardiovascular crónica - até aqui internado no Hospital de Famalicão -, e de uma mulher de 30, com uma pneumonia, pioraram nos últimos dias, levando o secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, a admitir que as duas pessoas "correm risco de vida".

Os dois pacientes estão desde ontem na Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço de Doenças Infecto-Contagiosas do Hospital de São João. Os primeiros casos de evolução negativa eram esperados em Portugal, mas o vírus não parece estar mais agressivo, segundo especialistas contactados pelo i. Nas últimas semanas, a letalidade do H1N1 atingiu valores muito próximos dos previstos para a gripe sazonal (0,1% a 0,3%) e estima-se que, no espaço de um ano, a gripe A possa matar 250 a 500 mil pessoas em todo o mundo. Os números servem para alertar que é preciso prevenir "grupos de risco e conseguir diagnósticos o mais depressa possível", explica Jaime Pina, pneumologista e director do serviço de Infecciologia Respiratória do Hospital Pulido Valente, Lisboa.

De acordo com Jaime Pina, os 477 casos de gripe A em Portugal mantêm o país numa fase muito ligeira do surto pandémico, longe da realidade dos próximos meses: "No Outono, em vez de 40 casos diários, serão quatro mil - o que aumenta muito as proporções do problema", alerta. "No futuro, a gravidade da pandemia vai evoluir e depende das mutações que o vírus possa sofrer, o que é bastante incerto. Para já, é seguro pensar que 25% a 35% da população vai ser atingida. Vai adoecer muita gente ao mesmo tempo, as escolas vão encerrar. Em termos de saúde, se o cenário actual se mantiver, os quadros clínico serão na grande maioria das vezes favoráveis."

Apesar de os dois casos graves no Porto serem confidenciais, é possível traçar o perfil de evolução da doença. No caso da doente com 30 anos, o exame laboratorial que confirmou a infecção com o vírus da gripe A (H1N1) só foi feito 36 horas após a hospitalização, o que atrasou o início do tratamento com Tamiflu. Segundo o "Público", a doente foi duas vezes enviada para casa pelo Centro de Saúde de Celorico de Basto, por não apresentar sintomas de gripe A. A mesma justificação foi avançada pela Direcção-Geral da Saúde para o diagnóstico incompleto, após o internamento a 4 de Agosto.

Pneumonias agravam gripe Jaime Pina adianta que as pneumonias são a "consequência mais comum de qualquer gripe". Em causa podem estar dois cenários: um mais grave, em que se trata de uma pneumonia vírica - neste caso provocada pelo próprio H1N1 - ou a normal pneumonia bacteriana - em que os pulmões ficam mais debilitados devido à infecção com o vírus da gripe A - permitindo a entrada de uma bactéria. "As pneumonias víricas são geralmente mais graves, uma vez que não atacam os brônquios, mas a zona onde se fazem as trocas de oxigénio. O doente deixa de ventilar e tem de ser ligado a máquinas nos cuidados intensivos", diz o médico. Os últimos dados do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, revela que o número de vítimas mortais entre doentes internados com pneumonia está a diminuir - em 2007 desceu de 18,3% para 12,8%. Ainda assim, esta é a principal causa de morte por doença respiratória.

O caso de um doente de 63 anos, com um historial de doença crónica, inspira outros cuidados. "Quando uma pessoa tem uma doença debilitante, não tem a capacidade natural para combater o vírus. Além de não ter anticorpos (resistências específicas ao vírus), tem uma imunidade natural muito baixa. Numa pessoa saudável, é esta imunidade, com a ajuda de medicamentos, que ajuda a resolver a infecção."

Risco Em caso de contágio, doentes com condições crónicas como diabetes, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), insuficiência renal ou do fígado estarão entre os mais vulneráveis, aponta o especialista, sendo o risco bastante agravado para pessoas com doenças imunológicas, como a sida ou o lúpus. Mas ao contrário da gripe sazonal - que atinge sobretudo a população mais idosa - a faixa etária mais jovem tem tendência a desenvolver quadros clínicos graves na presença de um novo vírus pandémico, como é o caso do H1N1.

"Estes vírus atingem pessoas de todas as idades, mas os mais jovens são sempre mais vulneráveis a vírus novos. Tiveram menos contacto com vírus diferentes ao longo da vida, logo têm menos resistências", explica Jaime Pina. Outro problema, e que gera situações sérias, é o facto de um sistema imunitário muito forte - como é o dos jovens - poder reagir de forma excessiva à infecção. "É uma situação muito típica num cenário pandémico. Os mais jovens acabam por desenvolver mais pneumonias, infecções no coração ou no cérebro", adianta o especialista.

Ontem, no São João, o prognóstico em relação aos dois doentes nos cuidados intensivos era "reservado". Margarida Tavares, coordenadora do plano de contingência do hospital, adiantou ao i que "é precoce" fazer qualquer previsão de recuperação. "Quer num caso quer noutro estão a ser tomadas todas as medidas habituais", assegurou.

 



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