Conversas de Agosto

Tita Balsemão: "Aprendi a ser discreta para me defender" - vídeo

Publicado em 08 de Agosto de 2009   
Ser mulher de um homem poderoso e influente num país com a escala de Portugal condiciona a sua vida, mas não ao ponto de a obrigar a ser quem não é
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A vida tem muitas dificuldades mas quanto mais experiência temos, mais somos capazes de lidar com as dificuldades. Vão-se aceitando, vão-se contornando e vão-se encarando. Pertenço à percentagem ínfima de pessoas privilegiadas no mundo. A minha vida é óptima e não me queixo absolutamente de nada.

Foi essa consciência de privilégio que a fez avançar com a SIC Esperança?

Também foi, mas repare: a SIC sempre foi uma estação de televisão solidária. Desde o primeiro dia que a SIC faz acções de solidariedade, campanhas de angariação de fundos e de sensibilização social. Só que era tudo feito de uma maneira dispersa e um pouco inconsequente. Não chegava fazer acções avulsas, era preciso uma estratégia. A SIC Esperança nasceu justamente da necessidade de enquadrar todas essas acções.

O que é que acha que a SIC Esperança inaugurou verdadeiramente?

Inaugurou um conceito de empresa focada na solidariedade social em Portugal.

Com a consciência de ter um meio poderoso, que é a televisão?

É verdade. Era importante fazê-lo. Muitas vezes sou abordada por pessoas que me falam de reportagens que viram, de casos que ficaram a conhecer e também de exemplos que acontecem à sua volta depois de terem visto a SIC Esperança.

De que casos fala?

De crianças, por exemplo, cujos pais não podem pagar os estudos mas foram acolhidas em escolas que frequentam sem pagar porque viram exemplos parecidos na SIC Esperança.

Os bons exemplos são contagiantes?

Sempre.

A SIC Esperança existe há seis anos. Acha que a maior conquista foi esse efeito de contágio?

Sem dúvida. Temos uma estratégia que passa por escolher um tema anual, que pode ir das crianças aos idosos, passando pelos deficientes e pessoas com carências graves, até às questões do ambiente e da sustentabilidade. Há muito por onde escolher e os temas não faltam. O que fazemos depois é contactar as instituições que têm a ver com esses temas e articulamos acções com elas. Não se trata de chegar e entregar um cheque, é muito mais do que isso.

É uma troca de sinergias?

Exactamente. Nós funcionamos como critério ao definir as instituições e os projectos que merecem ser apoiados, fazemos pontes, abrimos portas e damos o ecrã. Trata-se de fazer coincidir os meios com as necessidades. O que nós temos para oferecer é muito amplo, é a televisão.

Quais foram os projectos mais marcantes?

Gosto muito do primeiro que fizemos. Tocou-me particularmente por ter sido um projecto alegre, que envolve muita gente. Pintámos o Hospital D. Estefânia todo e foi um projecto pioneiro. Teve um impacto enorme e conseguimos um patrocínio para cada serviço.

Foi fácil conseguir esses patrocínios?

Não. Foi complicado porque foi o primeiro projecto, mas depois correu muito bem. Pintar um hospital de cores alegres tem um impacto enorme nas crianças, nas famílias e nos profissionais de saúde que vivem o dia-a-dia naqueles corredores e quartos. As pessoas chegam ali muito fragilizadas porque não se sentem bem e é importante dar-lhes conforto e alegria.

Não bastam os cuidados médicos, é isso?

É. O espaço para estas pessoas também é muito importante e em vez de encontrarem umas paredes cinzentas, assépticas, mais uns senhores vestidos de batas brancas e uns aparelhos hostis cheios de tubos, passam a ver um espaço criativo onde tudo é possível. É como se fosse uma brincadeira e puxa pela imaginação porque podem inventar histórias a partir dos desenhos das paredes. Enfim qualquer profissional que lá trabalhe pode atestar os efeitos terapêuticos de um espaço mais acolhedor e divertido.

Que outros projectos a marcaram?

O tema deste ano é a integração e dá gosto, nesta altura, ir por algumas praias e ver que já existem cadeiras que facilitam a vida aos deficientes. Já é possível às pessoas com limitações físicas tomar banho sem todas aquelas dificuldades que sempre houve nos acessos à areia e ao mar.

Está a falar daquelas cadeiras de plástico amarelo que bóiam no mar e têm rodas?

Sim, sim. A SIC Esperança conseguiu que muitas praias tivessem estas cadeiras. Nesta área da saúde os projectos que mais gosto de apoiar são os que acabam por excluir químicos e fármacos, justamente por serem criadas condições de conforto que aliviam um certo tipo de sofrimento moral e emocional.

Gosta de se envolver em projectos que façam bem à alma, é isso?

Sim. A Vela Sem Limites, em Cascais, é outro destes projectos que permite aos deficientes (e muitos são profundos, note!) manobrar um barco e sair para o mar com alguém a apoiá-los. O facto de passarem umas horas por semana no mar, num barco à vela, enche-os de vida e quase se esquecem das suas limitações.

O exemplo de Bento Amaral, ex-campeão mundial de vela adaptada e atleta olímpico, tem sido um exemplo contagiante para estes projectos?

Tem sido um grande exemplo para todos, sim.

A SIC Esperança tem mudado a vida de muitas pessoas. E a sua, também mudou?

Acho que sim, que também mudei. Fui vendo outras realidades e conhecendo mais pessoas extraordinárias. Embora sempre tenha tido atenção à solidariedade social, é muito diferente o contacto e a proximidade diária, em que vemos que tudo acontece e onde tanta coisa se resolve, desde os casos mais complicados aos mais simples. Fiquei ainda mais consciente do mundo à minha volta.

O facto de ser casada com Francisco Pinto Balsemão, que é um homem poderoso, já foi primeiro-ministro, tem um grande capital político e um ascendente muito forte na sociedade, condiciona a sua vida?

Até certo ponto. O facto de ser casada com um homem público fez com que a minha vida se passasse noutro plano. Eu andava no Instituto de Ciências Políticas e Sociais e por isso, nessa época, a política atraía-me. Acompanhei e vibrei com a Sedes, a Ala Liberal, etc. Mas, quando comecei a viver a política com mais intensidade, depois do 25 de Abril, também percebi que não era muito fácil, havia um lado muito complicado.

Em que sentido?

Nessa altura, pelo menos, era um mundo cheio de coisas difíceis de encaixar. Cheio de intrigas e desilusão. Um mundo onde muitas vezes valia tudo.

Repugna-lhe esse "vale tudo"?

Completamente.

Isso fê-la ficar mais na sombra, na retaguarda, ou deu-lhe vontade de intervir e mudar?

Afastei-me completamente. Não gostei nada desse lado da política.

E no sentido social, é fácil ser a mulher do Francisco Pinto Balsemão num país com esta escala?

Hoje em dia é, mas nessa altura não era. Também fui aprendendo [risos].

Sentia-se muito exposta?

Foi uma altura muito complexa. O 25 de Abril e os tempos que se seguiram foram difíceis no sentido em que havia uma luta constante pelo poder, uma ambição política desmedida que dava a alguns uma fixação carreirista, só lhes importava subir a qualquer custo. Enfim, eram tempos muito exigentes e até muito diferentes dos de hoje.

Qual era o seu papel?

Acima de tudo era mulher de um homem que lutava por um partido e por levar as ideias dele avante. Nunca tive mordomias.

Abstraindo-nos das mordomias, pergunto se se sentia mais devassada ou exposta ao julgamento dos outros por ser mulher do primeiro-ministro, por exemplo?

Não, nessa altura absolutamente nada. Isso aconteceu-me depois, mais tarde.

Mais tarde, quando?

Nesse tempo tinha os meus filhos pequenos e estava mais resguardada, ocupada com a minha vida familiar. Depois, fiquei mais exposta e de uma maneira diferente, porque ser mulher do patrão de um grupo de media traz outro tipo de exposição.

Sentiu-se mais assediada socialmente?

De alguma forma sim.

E por ser a "mulher do Balsemão" as pessoas passaram a fazer-lhe mais pedidos?

Sim, mas isso é normal na nossa sociedade. Não dou demasiada importância.

Como é que filtra o assédio e os pedidos? E como é que lida com a pressão?

Já estou muito habituada [risos]. Não tenho muitas maneiras de evitar mas protejo-me não criando falsas expectativas. Sou sempre cuidadosa na maneira como recebo esses pedidos e na maneira como os encaminho. Quando valem a pena e consigo dar-lhes sequência fico muito contente, mas é evidente que não posso atender a tudo e as pessoas sabem isso.

Tem facilidade em dizer não?

Não gosto, mas às vezes é preciso.

Está a atravessar um período mais difícil depois da morte da sua mãe e não sei se se importa que lhe fale sobre isso.

Não me importo, podemos falar.

Vi-a com a sua mãe e os seus irmãos no hospital, na unidade de cuidados paliativos onde sou voluntária, e percebi a relação calorosa e alegre que existia entre mãe e filhos. O que lhe custa mais nesta morte?

É muito complicado dizer. Sinto-me órfã, é a palavra que define exactamente o que sinto. Falta-me qualquer coisa de essencial, sabe?! Há uma ligação que se quebra mesmo e nos faz muita falta. É como se ficássemos desprotegidos no mundo.

Quantos anos tinha a sua mãe?

Tinha 83 e, por isso, tive a sorte de gozar a minha mãe durante uma vida inteira, até porque ela esteve muito bem até às últimas duas ou três semanas. Era, ainda por cima, uma mulher forte e deu-nos um exemplo fantástico, até na doença.

E na saúde, que exemplo deixou?

Foi uma mulher admirável, que soube sempre gerir a família. Teve cinco filhos e dez netos e somos todos muito unidos.

De que é que sente mais saudades?

De lhe telefonar todos os dias. Era uma necessidade diária. Hoje em dia faz-me impressão chegar de uma viagem e não poder ligar à minha mãe a contar. Fazem-me falta aquelas rotinas, aquelas pequenas coisas a que só nós damos importância. Sinto imensas saudades de ir a casa da minha mãe e das nossas conversinhas do fim da tarde. Todos os dias passava lá e isso faz-me muita falta.

Qual foi a marca que ela imprimiu em si?

Foi, sem dúvida, o sentido de família.

De onde vem essa sua inclinação para ser discreta, apesar de estar sempre tão exposta? Cultiva a discrição estrategicamente ou está na sua natureza?

[risos] Se calhar é tudo um bocadinho. Acho que aprendi, embora não seja daquelas pessoas que adoram ser o centro das atenções. Mas também é uma estratégia para me defender e tem mesmo que ser assim, até para proteger a minha família. Os meus filhos também são assim e a Laurinda conhece-os.

Tem razão, são muito discretos.

São superdiscretos e às vezes até acho que são demais. Acho que os eduquei para serem discretos, mas não precisavam de ser tanto [risos]. Mas antes assim, até porque isso os obriga a construírem por eles a sua própria vida, independentemente de serem filhos de quem são.

Herdou esta atitude dos seus pais ou foi fruto das suas circunstâncias?

Acho que foi mais da minha circunstância familiar. Os meus pais não era portugueses, como sabe. Eram espanhóis, de Barcelona, e só pelo facto de serem estrangeiros tinham uma mentalidade completamente diferente da dos portugueses.

Quando é que eles vieram para Portugal?

Depois da guerra civil de Espanha. Vieram para cá e conheceram-se aqui. Toda a vivência da guerra e do pós-guerra, e todo esse espírito de entreajuda, nos foi passado. Cresci a ouvir histórias de guerra e de dramas humanos. Todas estas histórias reais, verdadeiras, e a maneira como nos eram apresentadas, contribuíram para a nossa educação.

Tem muitas memórias de infância em Barcelona?

Tenho. Os meus pais tinham uma casa na praia, perto da Costa Brava, e íamos para lá todos os Verões. Foram tempos maravilhosos.

Preocupa-se com a sua imagem?

Um bocado, não excessivamente. Tenho cuidados mas não sou obsessiva. Não passo a vida no cabeleireiro.

Mas vai ao ginásio?

Vou e gosto imenso. Faço ginástica e faço Pilates.

Tem medo da velhice?

Não gosto nada da ideia da minha velhice, nada [risos]. Há bocado falámos da minha mãe e ela, de facto, envelheceu muito bem, mas faz sempre impressão as pessoas perderem agilidade e elasticidade, mesmo quando estão bem de cabeça.

Tem fé?

Tenho e isso ajuda-me, claro.

Muitas pessoas vão ler esta sua entrevista na praia, de férias, e eu pergunto o que são umas boas férias para si?

Há muitos anos que tenho sempre duas férias: uma com amigos ou sozinha com o Francisco, normalmente a viajar, e outra familiar, com os nossos filhos e netos.

Ainda há lugares no mundo onde não tenha ido mas gostasse de ir?

Tive a sorte de já ter ido a muitos dos que gostava mas, mesmo assim, ainda há muitos que ficaram por ver. Sobretudo na Ásia e na América do Sul. Gostava de ir ao Nepal e ao Tibete; adorava voltar à Índia, que é muito grande e apetece sempre conhecer melhor. Gosto muito da Malásia. No Oriente há uma delicadeza do trato que nos faz sentir bem.

O facto de ser algumas vezes vítima de falsidades ou meias verdades nos media irrita-a?

Isso já não me enerva, sou superior a isso.

Criou uma imunidade?

Sim. Ignoro o que se diz.

Mas chega a ler ou nem sequer lê?

Às vezes contam-me, raramente leio. Já não me afecta porque consigo ter um distanciamento em relação às opiniões das pessoas que não me conhecem. Só me preocupam as opiniões dos que me são próximos. Isso sim, afecta-me imenso.

E o que é que faz?

Se houver um mal entendido, faço tudo para o desfazer.

Tem facilidade em pedir desculpa quando erra?

[risos] Tenho.

É perfeccionista?

Gosto muito das coisas bem feitas.

Na praia gosta de ficar ao sol ou de dar passeios?

Nunca gostei muito de ficar ao sol. Gosto de dar passeios e mergulhos. Se estiver à sombra a ler um livro, estou lindamente, se não estou a passear ou dentro de água.

Usa fato de banho ou bikini?

Bikini, ainda [risos]. O fato de banho nunca mais seca e fico sempre cheia de frio. Não gosto nada.


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