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Máfia da Noite ainda tem elementos activos

Publicado em 03 de Agosto de 2009   
Testemunhas do caso que envolveu Alfredo Morais, ex-PSP, dizem que pagamentos continuam
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Alfredo Morais foi preso em Pasvalys, na Lituânia, junto à fronteira com a Letónia, no dia 9 de Julho. Mas Paulo Baptista, braço direito do ex-PSP, continua em parte incerta. Apesar do mais mediático dos arguidos do processo Máfia da Noite, ter sido condenado a sete anos de prisão, ninguém sabe se o grupo continua, ou não, activo. Testemunhas do processo, a que o i teve acesso, garantem que há muitos elementos do grupo que não foram a tribunal e que continuam a receber pagamentos de casas nocturnas em troca de segurança ou apenas da garantia de não haver problemas naqueles espaços.

Um relatório recente da PSP, que investigava o paradeiro dos únicos condenados foragidos, Alfredo Morais (entretanto detido) e Paulo Baptista, dava conta de que haveria indícios de que poderiam ter-se ausentado para o Brasil, onde possuem património e onde há fortes possibilidades de estarem elementos do grupo fugidos da justiça portuguesa. O documento da PSP refere ainda que em Espanha e França residem elementos ligados ao grupo liderado por Alfredo Morais.

Neste processo há relatos sobre homicídios que geraram outros processos, que correm nos tribunais, e que envolvem Alfredo Morais e elementos apontados como sendo do mesmo grupo que durante quase dez anos aterrorizou a noite lisboeta. Entre outras, há descrições detalhadas da morte a sangue frio de um traficante, Hary Neto, a quem cortaram a cabeça depois de lhe desferirem um tiro no crânio. Também há relatos da forma como Alfredo Morais e outros, entre os quais um agente da PSP, se teriam dirigido a um dos bares para matar Alfredo Sanches. Numa outra ocorrência relatada foram agredidos um agente da PSP e outro da ASAE.

Há muito que era voz corrente na noite lisboeta que ex e actuais polícias - a maioria da PSP - se dedicavam a actividades de segurança e auferiam, desta forma, remunerações ilícitas. Sobretudo quando os chamados gratificados (agentes da PSP fardados que recebiam um suplemento legal) acabaram junto dos bares mais problemáticos e a actividade de segurança privada teve terreno fértil para se implantar junto de proprietários e gerentes dos espaços de diversão nocturna.

Bares de alterne e strip Eram essencialmente os bares de alterne e striptease - onde ficou provado haver prostituição feminina - que estavam na mira do grupo do Alfredo. Nomes como "Elefante Branco", "Gallery", "Night and Day" e "Black Tie", "Nórdico", "Coche Real", "Lord Jim", "Savana/Zeferinus", "Whispers", "Tropical", "Lareira", "Merlin", "Bar L", "Big T", "Bar 4", "Kalipso", "Bagdad", "Lobby" e "Photus" estiveram em cima da mesa das investigações, conduzidas até ao fim por uma unidade especial comandada pelo subintendente da PSP, Dário Prates, que teve a seu cargo a coordenação estratégica do processo. Em tribunal, Dário Prates confirmou que havia ligações à PSP, pelo que criaram uma equipa fechada para a investigação.

Apesar dos rumores serem muito anteriores, só em 2006, altura em que Pedro Gameiro, Diamantino Fernandes e Francisco Cascalheira, entraram no "Gallery" e causaram distúrbios, é que começaram as investigações, que incidiram preferencialmente em escutas telefónicas e vigilâncias. Segundo o relatório final das investigações, Alfredo Morais fundou um grupo que se deslocava ao interior de bares de alterne e, através de ameaças, às vezes concretizadas, pedia dinheiro para fazer segurança ou, simplesmente para não afugentar os clientes, o que aconteceu inúmeras vezes.

Perto dos bares "Gallery" e "Elefante Branco", um antigo assessor do Benfica, José Teixeira, abriu uma pensão (Classe A) que veio a servir para as mulheres que frequentavam os bares se prostituírem. A frequência dos bares também era controlada pelo grupo de Alfredo Morais que decidia quem podia ou não entrar. Muitas das prostitutas, segundo os relatos, eram agredidas por elementos do grupo e tinham de pagar comissões e percentagens sobre o dinheiro que ganhavam nas suas actividades.

Ainda segundo o relatório final, Pedro Gameiro, conhecido pela sua extrema violência, seria o chefe operacional no terreno. Mesmo quando Alfredo Morais esteve preso por causa do processo "Passerelle", que ainda não terminou, controlava todas as operações a partir da cadeia. O tribunal apurou que não só recebia o dinheiro das percentagens do grupo, como ainda tinha um sistema de reencaminhamento de chamadas telefónicas que lhe permitia estar sempre em contacto com os operacionais. Todavia, é proibido ter telemóvel na prisão ou deter mais do que uma pequena quantia em dinheiro.

Elefante Branco Foi o testemunho dos dois gerentes do "Gallery" e "Elefante Branco", Luís Miguel Santos e Carlos Alberto Gonçalves, que veio a ser decisivo para criar a convicção do tribunal.

Luís Santos referiu-se a inúmeros episódios de violência, alguns que atribuiu a Alfredo Morais. Por exemplo, um dia agrediu uma pessoa com um cargo importante no país por não se ter desviado o suficiente para ele passar, que acabou por não apresentar queixa para não ficar comprometido. Noutra situação, relata, um médico foi agredido com um cinzeiro na cabeça, tendo havido intervenção da polícia, mas também não houve queixa. Conta Luís Santos que Alfredo Morais meteu uma dose de pipocas pela boca abaixo de uma senhora que lhe tinha atirado uma, atitude que lhe desagradou. O gerente do "Gallery" disse também que o grupo andava armado, afirmando ter visto Alfredo Morais e Pedro Gameiro com armas.


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