Estrada fora

Bibliomóvel: um livro para o caminho

por Hélder Beja, Publicado em 01 de Agosto de 2009   
A biblioteca sobre rodas de Proença-a-Nova leva histórias onde nem os telemóveis chegam
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"Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive." A frase, do Padre António Vieira, está afixada na Bibliomóvel, a carrinha da biblioteca itinerante de Proença-a-Nova. Ao volante vai Nuno Marçal, o bibliotecário (34 anos, funcionário da autarquia) em périplo pelas aldeias isoladas do concelho.

Pouco passa das 10h00 quando arrancamos. A carrinha, uma Renault Master transformada em biblioteca com rodas, vem carregada de livros, revistas e DVD. Há também um computador com acesso à internet. As madeiras das estantes oscilam e rangem no caminho sinuoso - e é como se estivéssemos num barco. "Também há bibliotecas itinerantes em barcos, na Noruega e na Amazónia", lembra Nuno, um apaixonado pelos livros.

Velhos são os trapos Juntas têm mais de mil anos. São todas mulheres, estão perfiladas na sala do Lar de Idosos do Monte da Senhora. Esperam "o Sr. Nuno", que hoje traz alguém para ensinar um pouco de ciência. "Ter o Sr. Nuno aqui é uma alegria", começa D. Rosa, de 87 anos. "Ele lê-nos histórias muito bonitas e assenta aquilo que a gente conta para fazer livros." Nuno explica que está a fazer uma "recolha de histórias, lendas e quadras populares" da região e que um dia espera ver tudo publicado. Enquanto conversamos, D. Maria, também octogenária, aprende a fazer sabão: "A gente quer é aprender, seja o que for."

Ao nosso lado está a Maletras, a mala da biblioteca que Nuno renova a cada 15 dias com revistas e alguns (poucos) livros. As mulheres deste lar lêem pouco, muitas porque a vida não lhes permitiu aprenderem, outras porque estão cansadas. D. Rosa, sempre enérgica, pode não saber ler mas é um ás das quadras. Inventa-as num ápice e dedica--as a Nuno e a nós, forasteiros: "Tivemos uma boa visita / de uns senhores muito bonitos / por serem assim como são / na história vão ficar escritos."

Sem anos de solidão "No primeiro dia ao volante desta carrinha, há três anos, tive a lembrança de ver passar as bibliotecas da Gulbenkian." Vivia e vive em Castelo Branco e sempre frequentou a Biblioteca Municipal. Mas via as velhas carrinhas partirem, cheias de histórias. "Duas décadas depois vejo-me a fazer isto, é inacreditável." O bibliotecário fala de um lado romântico da profissão, das amizades que reforça a cada semana. O resto às vezes é negro. "Passo por zonas em que nem o telemóvel tem rede. Se me acontece algo só dão pela minha falta no dia seguinte."

Descemos em direcção ao povoado de Rabacinas e vamos olhando as estantes. Há de tudo: best-sellers como Miguel Sousa Tavares ou Paulo Coelho; e prémios Nobel, de García Márquez a Saramago. São as personagens destes e de outros livros que acompanham Nuno quando fica mais de meia hora parado, à espera de leitores, numa aldeia deserta.

Quem não tem muita paciência para histórias e personagens é Francisco Sebastião. Espreita alguns livros técnicos mas há muito que visita a Bibliomóvel com outro intuito: aprender informática. São três da tarde e Francisco chega acompanhado do seu computador portátil. Desta vez quer saber como alinhar dados em tabelas. "Comprei o computador e pago 15 euros por mês", conta. E nota-se o contentamento de ter uma placa de banda larga e de a usar todos os dias.

Seguimos viagem por estradas estreitas onde não se vê vivalma. Quando entramos em Sobral Fernando, a aldeia parece fantasma. Só a buzina da Bibliomóvel faz aparecer duas mulheres por detrás das fitas de uma porta. Fernanda Santos, a avó, com a revista de bordados, e Patrícia, 15 anos, com um livro de Isabel Allende e a escolher um filme. De férias, admite que não costumava ler muito: "Foi mais por vir aqui com a minha avó que lhe ganhei o gosto."

O que não vem nos livros O naco de presunto, o queijo e o copo de tinto que temos diante de nós, minutos depois de chegarmos a Maxiais, são bom espelho da hospitalidade desta gente. Não há doutores nem letrados e por aqui poucos livros se consomem. Para Francisco Ribeiro, 82 anos, Nuno e os jornais que lhe deixa são uma ponte com o mundo.

E não se pense que Francisco corre logo aos desportivos, para saber notícias do Benfica. Gosta mais de ir vendo "as letras gordas dos outros", saber o que está a acontecer no mundo. "Vivo aqui com a mulher. A filharada está toda para Lisboa. Já andei por França e por muito lado. Agora gosto daqui."

Maxiais é a última paragem da Bibliomóvel por hoje. Na adega, pequena e com pouca luz, o ti Manel vai fazendo força para que todos comam e bebam. E nós vamo-nos esquecendo dos livros, das personagens, dos autores. A realidade, mais uma vez, apresta-se a superar a ficção.


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