Em ano de autárquicas, Lisboa é a cidade mais apetecida. A luta entre PS e PSD para conquistar a capital ganhou ontem um novo impulso com o debate televisivo entre Pedro Santana Lopes e António Costa. O debate está hoje centrado na responsabilidade de cada um deles nas contas da autarquia (com um buraco entre 1,5 e 1,7 mil milhões de euros), uma vez que ambos já estiveram à frente dos destinos da câmara.
Mas os lisboetas parecem menos interessados na guerra dos números do que em soluções concretas para a cidade. O i identificou os dez grandes problemas que os lisboetas querem ver resolvidos: dos arrumadores ilegais ao estacionamento na cidade, passando pelo trânsito congestionado, a recuperação urbana, as estradas esburacadas e as obras no Terreiro do Paço, o Bairro Alto fechado às 2h00 da manhã, o Parque Mayer, a pala das Docas quase sem utilização, a limpeza da cidade, os contentores na frente do Tejo e os famosos dejectos de cães nos passeios.
Concentrados no debate televisivo, os candidatos não estiveram disponíveis para apresentar a sua solução para estes problemas. O i recuperou as propostas e declarações de ambos nas últimas semanas para descodificar o que pensam sobre cada um dos assuntos.
Lisboa está cada vez mais desertificada, sobretudo no centro. A especulação imobiliária leva a que as casas atinjam preços inalcançáveis para a maioria. Com as pessoas a procurarem os subúrbios para habitação, agrava-se outro problema: o trânsito. Se António Costa quer tirar 80 mil carros da cidade, Santana Lopes segue a linha do “seu” Túnel do Marquês. As campanhas “Unir Lisboa” de Costa e “Lisboa com sentido” de Santana irão permitir a discussão intensa dos problemas e das soluções propostas.
António Costa e Santana Lopes têm ideias muito diferentes.
1 - Arrumadores de automóveis por toda a cidade
À falta de estacionamento e aos problemas com os parquímetros (dos mais baratos da Europa, a par dos parques subterrâneos mais caros), junta-se a presença de arrumadores ilegais. O programa Porto Feliz tentou reabilitar os arrumadores toxicodependentes com psicólogos, assistentes sociais e a “ajuda” da PSP. Em Sevilha, a câmara acusou os “gorrillas” de “mendicidade coactiva” e a actividade é agora castigada com coimas até aos 120 euros. O Automóvel Clube de Portugal diz que devem ser regulados. Santana Lopes e António Costa não se pronunciaram.
2 - Terreiro do Paço com duas faixas e muito trânsito
No projecto do arquitecto Bruno Soares só existem duas faixas de rodagem. “Nas actuais condições e por vários anos, a eliminação da travessia da Praça do Comércio não só acarretaria imensos prejuízos [...] como iria agravar fortemente as condições de circulação na rede viária principal.” As conclusões são do professor Nunes da Silva, autor de um estudo sobre mobilidade na cidade. Era uma previsão, mas as obras confirmaram o caos diário. “Não descansaremos enquanto a Frente Tejo não for extinta”, queixa-se Santana Lopes, indignado pela intervenção prevista nesta “zona sagrada da capital”.
3 - Os buracos nas estradas e nos passeios
Se ainda não furou um pneu em Lisboa teve sorte. Os buracos são incontáveis e raramente têm sinal de aviso: na estrada ou nos passeios de calçada portuguesa com pedras à volta. Podem provocar lesões e dificultam ainda mais a vida às pessoas com deficiências, obrigadas a lidar com inúmeras barreiras arquitectónicas. Demasiadas vezes, o pavimento é uma mistura impraticável, com carris abandonados e remendos em várias capas. “Mesmo com esta leva de alcatrão pré-eleitoral, os buracos continuam e o excesso de lombas também”, recorda o ACP. Com ruas em semelhante estado, a má sinalização rodoviária e a ausência de pintura são problemas quase menores. Como os carros estacionados nos passeios ou as irregularidades da calçada portuguesa.
4 - Bairro Alto fecha às duas da manhã
As grandes cidades europeias têm uma zona boémia aberta quase 24 horas por dia. Pessoas na rua, bares abertos e uma vida nocturna que dá cor à cidade. O Bairro Alto tem tudo para ser assim, excepto fechar às duas da manhã. A restrição iniciada o ano passado não agradou aos lisboetas e houve até uma petição: “Não deixem o Bairro Alto morrer.” O encerramento já provocou perto de 400 despedimentos e uma quebra de 70% no volume de negócios, segundo a Associação de Comerciantes do Bairro Alto. A Associação confirmou ao i estar “em negociações com a câmara” para voltar a alargar os horários de funcionamento. Santana Lopes não se compromete a alterar a situação se ganhar as eleições. A partir das 2h00 a alternativa é descer para a Bica e para as discotecas do Cais do Sodré.
5 - Guerra dos contentores na frente ribeirinha
Tudo começou com um contrato, sem concurso prévio, entre o governo e a Liscont que permitia aumentar o terminal de contentores. Miguel Sousa Tavares liderou a revolta dos lisboetas.
António Costa Propôs uma moratória de 20 anos para, em vez de triplicar o espaço do terminal, criar um jardim na zona. A Administração do Porto de Lisboa não aceitou.
Santana Lopes Recusa ter mais contentores em frente a Lisboa. Considera que o ideal seria ter um porto para paquetes turísticos, mas mantém o porto de mercadorias para abastecer Lisboa com o indispensável.
6 - Edifícios degradados e arrendamento
O programa de reabilitação urbana está parado. Motivo? A guerra entre a Câmara (PS) e a Assembleia Municipal (controlada pelo PSD). O executivo camarário projecta mais de 300 obras de requalificação mas precisa de um empréstimo de 120 milhões de euros – vetado pela Assembleia. Santana Lopes diz que não se pode “mistificar” as obras de reabilitação. “Vamos continuar”, garante o candidato do PSD, que prefere os pequenos aos grandes projectos e aposta na acção social. Propõe ainda bairros “de iniciativa colectiva” e promete zelar pelo património.
7 - Parque Mayer. Afinal o que vai ser?
O projecto de reabilitação do Parque Mayer, aprovado em 2006, contempla 30 mil metros quadrados destinados a habitação e serviços e 18 mil para uma zona cultural, incluindo teatros e uma escola de Jazz: 134 milhões de euros (incluem honorários de Frank Gehry).
António Costa: A câmara mantém em tribunal uma acção administrativa para anular a permuta entre os terrenos da Feira Popular e os do Parque Mayer.
Santana Lopes: Promete “pôr fim ao litígio que existe” e dar aos artistas o Parque Mayer. As receitas do Casino de Lisboa reverterão para financiar a reconstrução do Parque.
8 - A pala das Docas está sem utilização
Construída em 2002 sob a Ponte 25 de Abril, a pala e o arranjo do local onde foi colocada custaram 2,75 milhões de euros. repartidos pela Administração do Porto de Lisboa (APL), a autarquia e a Rede Ferroviária Nacional (com fundos comunitários). Estava prevista a construção de um lago entre a pala e os bares das docas de Alcântara. Em 2006, Manuel Frasquilho, à data presidente da APL, admitiu que a pala podia vir a ser demolida. “Não tem nem nunca teve qualquer uso”, escreveu o ano passado José das Neves Godinho, presidente da Junta de Freguesia e deputado municipal.
9 - Falta de civismo e excesso de dejectos no chão
Lisboa é uma capital suja. Cartazes colados e descolados nas paredes, graffitis e tags sem sentido nos edifícios – muitos deles históricos – dejectos de animais que fazem uma pessoa saltitar de um lado para o outro no passeio sob pena de ir para o trabalho com um “presente”.
António Costa: Em 2007 a CML iniciou uma acção de limpeza geral da cidade que envolveu lavagem de passeios e remoção de cartazes ilegais.
Santana Lopes: Quer ter a cidade “num brinquinho”. Pôr a funcionar coisas básicas como a limpeza, “de que não se pode prescindir”.
10 - Trânsito no eixo central de Lisboa
António Costa: O actual presidente quer tirar 80 mil carros da cidade e Manuel Salgado, vice-presidente da câmara, já admitiu que o estacionamento em Lisboa pode ficar mais caro.
Santana Lopes: No seguimento do túnel do Marquês, apresentou a proposta de um desnivelamento na zona do Saldanha. Quanto à terceira travessia sobre o Tejo, não admite a componente rodoviária. Para solucionar o problema das cargas e descargas promete acordos com as associações de comerciantes.
A dois meses das eleições, diga-nos quais são, na sua opinião, os problemas de Lisboa. Por exemplo, o que pensa sobre os espaços verdes da cidade? Os prédios deveriam ter garagens para estacionar os automóveis ou as que existem devem continuar a ser utilizadas como espaços comerciais? E o que pensa sobre o sistema de transportes públicos? E sobre a oferta cultural da capital de Portugal? E sobre os parques infantis? E as piscinas municipais? E as ciclovias? Qual é a sua opinião sobre os bairros sociais?




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