EDITORIAL

Os números assustam

por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 28 de Julho de 2009   
Ricardo Reis revela o que se supunha: há um crescimento galopante da despesa do Estado que, quando gera mais défice, é sempre financiado por um aumento de impostos
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Sempre que o défice orçamental cresce, os impostos sobem com ele. A conclusão - muito importante em ano eleitoral - está num estudo que o economista estrela português, Ricardo Reis, preparou para o i ("O consumo público em Portugal: um olhar desde 1985", na edição em papel). A evidência estava lá (e sobre a qual se escreveu aqui há dias neste espaço). Agora os números não deixam mentir: em Portugal, défices altos fazem aumentar impostos.

Como se sabe, tanto Ferreira Leite como José Sócrates já prometeram que não vão subir impostos. Se o fizeram, porém, vão contrariar uma tendência de todos os governantes que os precederam. E há uma razão para que os números revelem esta tendência preocupante - a economia portuguesa é dependente de impostos. Não conhece outra forma de encontrar dinheiro. E o mais assustador é perceber que esse aumento de impostos tem servido, sobretudo, para alimentar o monstro da despesa.

Uma ressalva: estes números que aqui se analisam, para facilitar o raciocínio, são acumulados e a preços correntes - ou seja, não levam em conta o real valor do dinheiro. Olham para ele como notas de um jogo - mas a conclusão, olhando com a complexidade das finanças públicas, seria a mesma mas com valores absolutos menores. E nestes números correntes, e acumulados, percebe-se a disfunção que existe entre a dinâmica da economia e o peso da despesa mais o peso dos impostos. É simples: o crescimento da economia, visto assim, é inferior ao da despesa. E este, por sua vez, é menor do que o crescimento dos impostos - aliás, os impostos são a variável que mais cresceu em Portugal desde 1985: 964%. Não é gralha, são mesmo 964% acumulados e a preços correntes. Por ano, isto significa que a carga fiscal de cada português (famílias e empresas) subiu 40%.

O que este ensaio de Ricardo Reis oferece é um olhar completamente diferente sobre a economia nacional - de pouco serve a partir de agora dizer que o peso da despesa pública tem crescido em % do PIB. O que importa é mostrar o ritmo alucinante desse crescimento acumulado: 27% todos os anos. E como se não bastasse, este murro no estômago é precedido de outro: os impostos cresceram ainda mais rápido do que a despesa - financiando cada tostão a mais gasto pelos nossos governantes.

Estes assuntos parecem complexos e pensados para grandes economistas. Não são: revelam o que todos sentiam - em Portugal, os governos sucessivos deixaram crescer o monstro e financiaram essa engorda taxando a riqueza gerada por cada um de nós. Já se dizia que a taxa fiscal do país parecia gigante quando comparada com os benefícios - agora surge como astronómica. E o pior é o resultado: de cada vez que a despesa aumenta acima da riqueza, financia-se essa parcela de gordura com mais impostos.

É esta tendência que permite dizer: em Setembro, depois das eleições, seja quem for que as ganhe vai aumentar impostos. Se não o fizer, e terminar o mandato com um défice mais baixo do que aquele que encontrou, entrará para a história como um caso único da política portuguesa.

 

 

 



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