Futebol Internacional
Chilavert: "Se o vosso melhor foi Baía então não foram abençoados"
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 27 de Julho de 2009
Chilavert faz hoje 44 anos de língua afiada. O antigo guarda-redes paraguaio arrasa Gamarra, Roberto Carlos e até Hugo Chávez
Em pequenino, era do Sportivo Luqueño, a equipa da cidade onde nasceu (Luque), e do Schalke 04, porque Alfredo Strössner, presidente do Paraguai entre 1954 e 1989, era de origem alemã e os jogos do campeonato passavam neste país sul-americano. Em grande, Chilavert destacou-se na baliza do Paraguai e de mais sete clubes. Com defesas aparatosas. E com golos de livre directo (17) e de penálti (45). O primeiro, a Higuita (Colômbia). Em 1997, marcou antes do meio-campo ao River Plate. E em 1999, marcou três golos de penálti num só jogo. Pelo meio, tentou a sua sorte em pleno Mundial-98, com a Bulgária, e o público francês aplaudiu a façanha do primeiro guarda-redes a sair da baliza para marcar um livre directo. Pendurou as luvas em 2004 e (como no!) marcou na despedida oficial. Eis a sua história, sem meias palavras.
Cinco anos sem José Luís Chilavert no futebol. Alguma coisa mudou nos guarda-redes?
Pouco, muito pouco. Vai ser impossível que me substituam como figura carismática. Antes, os guarda-redes só estavam lá para defender, agora é diferente. Revolucionei o lugar e nunca vai haver um guarda-redes que supere o que fiz.
Mas em matéria de golos [Chilavert marcou 62], o Rogério Ceni [83, todos pelo São Paulo] está à sua frente.
Não sei como fazem as contas no Brasil mas não se podem comparar esses números com os meus. Marquei oito golos na selecção paraguaia, ele não marcou nenhum pelo Brasil. Marquei em quatro fases de qualificação para o Mundial, ele não. Então é assim: os brasileiros estão sempre em segundo, atrás do Chilavert. Em primeiro, está o paraguaio.
Se assim é, porque nunca chegou a um grande clube europeu?
Ah, isso é uma história feia. Porque não tenho um empresário como os outros. Há tantos guarda-redes desastrosos por essa Europa fora. E não só guarda-redes. Um exemplo patético é o de Beckham: um jogador comum, que joga bem à bola mas que tem um excelente exército de bons assessores de marketing atrás dele. Mas eu fiz história na Europa!
Como?
Olha, joguei no Saragoça, em Espanha, e no Estrasburgo, em França. Em Espanha, marquei um golo de penálti [em 1989-90]. O Saragoça tinha sido eliminado da Taça do Rei com quatro penáltis falhados. No jogo seguinte, com a Real Sociedad, em casa, houve um penálti no último minuto. [Radomir] Antic, o treinador, deu-me ordens para o bater, enquanto os adeptos gritavam "Chi-la-vert, Chi-la-vert", e eu lá fui, mas passei pelo Villanova, o nosso número 10, e disse-lhe: "Vai para a baliza e independentemente do que suceda não te mexas." Foi golo de penálti mas não sou nenhum Ben Johnson e quando cheguei à baliza já era tarde. Foi golo da Real Sociedad, porque o Villanova estava a festejar com um companheiro fora da área. Virei-me para ele e disse-lhe: "Se a tua mãe te manda ir às compras ao supermercado, tu vais jogar futebol com um amigo?" E ele respondeu-me: "É que nunca tinha visto um guarda-redes marcar um penálti." Ficou como uma piada de galegos.
E em França?
A única vez em que fui suplente foi no Estrasburgo. Havia umas complicações com o meu contrato e mandaram-me para o banco para ver se me negava a ir e assim accionarem a cláusula de rescisão automática. Sentei-me tranquilo no banco, sem problemas, e até fumei um [charuto] cubano.
Conheceu algum guarda-redes português?
No meu tempo [anos 90], lembro-me que o titular da vossa selecção era Vítor Baía.
E então?
E então? E então se o Vítor Baía foi o vosso melhor guarda-redes não foram abençoados.
Mas ele jogou no Barcelona, é o jogador com mais títulos de sempre [29] e foi eleito o melhor guarda-redes pela IFFHS [Federação Internacional de História e Estatística do Futebol] e até pela UEFA?
Por favor, ele não sabia jogar com os pés e isso é coisa essencial para qualquer jogador de futebol. Quando a bola ia para aqueles pezinhos, o estádio tremia. Eu via todos os jogos pela televisão, ainda hoje é assim, e dava para perceber o frisson dos adeptos. Eu marcava golos de livre directo e de penálti, porque sabia o que era uma bola e sabia o que era bater uma bola com a parte interior do pé, a exterior, com o peito. Nos tempos actuais, naquelas peladinhas com amigos, sou avançado, jogo na posição 9 e até marco golos de cabeça.
Mas há alguém que lhe agrade?
Jogadores de campo, Michael Laudrup. E Ronaldo Fenómeno, não só como jogador mas também como pessoa, com uma auto-estima fortíssima. Na baliza, digo-te três nomes que são bons e não excepcionais: Buffon, Cech e Casillas.
E no passado?
Dino Zoff. Uma vez, encontrei-o na Alemanha e disse-lhe que tinha sido o melhor, ao que ele me respondeu, sussurrando ao ouvido: "Nós éramos bons, mas tu és o melhor." Ainda hoje não posso crer.
E, lá voltamos nós outra vez, não jogou em nenhum clube grande e é uma figura reconhecida.
Tenho valor, sabes porquê? Porque fui campeão argentino, sul-americano e até mundial pelo Vélez Sarsfield, um pequeno ao pé de Boca Juniors e River Plate. Uma vez, marquei um golo ao Burgos [Boca Juniors] a 60 metros. Se eu estivesse vestido de azul e dourado [Boca], a esta hora, os adeptos do Boca ainda estavam a dar voltas ao Obelisco [ex-libris de Buenos Aires, onde o Boca costuma festejar os títulos].
Com esse estilo de Super-Homem, nunca tem medo de nada?
Da água. Não sei nadar. Sou uma pedra. Se me atiro ao mar vou ao fundo.
E os seus problemas de indisciplina, com o lateral brasileiro Roberto Carlos, por exemplo?
Chamou-me índio, com um sorriso estampado na boca, e não me restou outra alternativa se não cuspir na cara dele. Nós, paraguaios, descendemos de índios guaranis e eu não admito esse tipo de provocações. Obviamente que foi uma coisa desagradável, daquelas que não quero que a minha filha veja, mas eu defendi-me na selva que é o futebol. Com cinco anos de idade, na cidade onde nasci [Luque], já caçava lagartos às três da tarde...
E na selecção paraguaia, houve confronto com Gamarra, não é verdade?
Para levar a família dele em primeira classe e hospedá-los num hotel cinco estrelas, como aconteceu no Mundial-2006, na Alemanha, Gamarra combinou com os dirigentes da federação que não discutiria os prémios de jogo. Com Chilavert de capitão, nos Mundiais 1998 e 2002, cada jogador ganhava 10 mil dólares por jogo, com Gamarra, ganhavam 1500. E por que razão Gamarra não falava comigo quando coincidimos na selecção? Porque tinha medo.
E o que faz agora?
Sou uma pessoa comum, que nasceu pobre e está numa posição privilegiada, graças ao futebol. Estou mais tranquilo que a Lassie, não preciso de acordar cedo para os treinos e estou mais gordo que sei o lá o quê! Mas, mesmo assim, o telefone não pára de tocar. Há uns meses, estive na Indonésia a treinar os guarda-redes da selecção. A Indonésia também contratou Baresi para treinar os defesas, Roberto Baggio para os médios, Batistuta e Paolo Rossi para os avançados.
O projecto político "Chilavert presidente" continua em prática?
Não o descarto. Há políticos que me ligam e tal, mas não é o momento.
Para quando, então?
Não sei, não sei. Aviso já que sou de direita e um dos meus ídolos foi José María Aznar, do PP espanhol. Agarrou um país em cacos e catapultou-o para o primeiro mundo.
E o inimigo mais visível?
Tantos. Hugo Chávez, por exemplo. Quer aproveitar-se dos analfabetos. O comunismo já não existe mas ainda derruba a democracia da América do Sul. Chávez manda na Bolívia, no Equador e quer mandar no Paraguai mas não vai ter sorte nenhuma. Aqui, na América do Sul, os amigos juntam-se e levam todo o dinheiro e mais algum. Comigo, é 70 por cento para o Estado e 30 para o povo.
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