Todos os músicos se lembram do momento em que se apaixonaram pelos seus instrumentos. Para o guitarrista Quinn Sullivan, esse momento foi aos quatro anos: estava com o pai a ver uma actuação no jardim zoológico de New Bedford (Massachusetts) e decidiu que preferia juntar-se à banda a ser um simples espectador. Agarrou na guitarra miniatura que trouxera, subiu ao palco e começou a tocar. A partir daí, foi sempre em frente. Numa idade em que a maioria dos miúdos se entusiasma com o Noddy, Quinn começou a pensar nas míticas guitarras Fender Strat. Já tocou com lendas dos blues como B. B. King e Buddy Guy. Já foi aos talk shows de Ellen DeGeneres e de Oprah. E enquanto a escola está de férias e os outros rapazes jogam basebol no parque, Quinn participa em espectáculos em Hampton Beach (New Hamsphire) Austin (Texas), Chicago e até Nashville, onde esteve em gravações com o compositor Tom Hambridge.
A Criança
Quinn fez dez anos em Março. Bebendo uma cerveja sem álcool na modesta casa ao estilo rancheiro da família Sullivan, num bairro sossegado de New Bedford, Quinn até podia parecer um típico aluno da quarta classe. No entanto, a camisa de linho e o colar de missangas destoam. Apesar disso, é um miúdo como outro qualquer: gosta de andar de bicicleta, de jogar à bola e de ver a série de animação "Family Guy" com os amigos; tem de fazer os trabalhos de casa e não responder torto aos pais ou à professora; no dia de anos recebeu uma pistola de brincar, com um tambor de seis dardos, uma pistola de água e uma taça cheia de Smarties, de bolachas de manteiga de amendoim e de peixinhos de goma. Enfim, um dia em cheio para qualquer miúdo.
O Prodígio
Ponham-lhe uma guitarra na mão e ei-lo na sua versão Eric Clapton, Jimi Hendrix ou Duane Allman. "Disse para mim próprio que, se estes tipos faziam o que fazem, porque não havia eu de o fazer também", conta Quinn, falando à vontade com um repórter enquanto sacava frases de blues de bom gosto na sua Fender branca." Foi assim, pronto." Ligou-a ao amplificador Chicago Blues Box - um presente de Buddy Guy - e arrancou numa série de impressionantes recriações de exercícios de blues rock clássico de Clapton - "Crossroads", "Strange Brew" e "Presence of the Lord". "I have finally found a way to live/Just like I never could before", cantou, com mais alma do que seria de esperar de um pré-adolescente, filho de um vendedor itinerante de bebidas. O virtuosismo de Quinn na guitarra em tão tenra idade constitui, em certa medida, um desafio para os pais, Carol e Terry Sullivan - especialmente para Terry, um baterista amador que um dia sonhou com o estrelato no rock até perceber, há muitos anos, que não passaria do circuito de bandas que fazem versões. Agora que o filho é quase famoso, o papel de Terry Sullivan - além de às vezes acompanhar Quinn na bateria -, é encontrar o equilíbrio entre apoiar o dom do filho, evitar os perigos de um estilo de vida roqueiro e ter a certeza de que ele está na cama às 9 da noite. "Ele tem tido a oportunidade de conhecer gente fantástica", conta Terry Sullivan, de 46 anos, mostrando fotografias de família afixadas no frigorífico de uma cozinha impecavelmente arrumada: Quinn na praia; Quinn a brincar com um corta-relvas de brinquedo. Ah, e também Quinn à desgarrada com B.B. King; Quinn posando com Ronnie Wood, guitarrista dos Rolling Stones, e com Buddy Guy. "São os meus ídolos", diz o orgulhoso pai num repente. Depois cai em si. Quinn ainda não é uma estrela de rock: vai acabar o liceu e seguir para a faculdade de música.
O Protegido
Neste Verão, Quinn anda em digressão. Mas Terry Sullivan já lhe pôs um travão: "A escola está primeiro; ele não vai deixar de voltar à escola em Setembro para partir em tournée, como os Jonas Brothers [banda adolescente americana]." O pai acompanhará o filho aonde quer que ele vá - não para se vangloriar com o estrelato da criança, mas para garantir que há sempre um progenitor por perto. E Terry também lhe fala sobre drogas - "Fizeram isso muito nos anos 60, certo?", perguntou Quinn quando o assunto veio à baila. Terry Sullivan reconhece que Quinn, enquanto guitarrista, está a aprender: ainda não sabe quando se deve deixar ir e quando ser mais contido, especialmente quando toca Buddy Guy, cujos solos ganham força gradualmente até chegarem a uma explosão. Mas tempo para se aperfeiçoar não lhe falta: em 2011, aos 12 anos, já deve ter adquirido esse conhecimento.
Quinn gostaria que a carreira fosse como a do guitarrista Derek Trucks, que hoje tem 30 anos mas começou a tocar em sessões com a Allman Brothers Band aos 12. Por outro lado, foi ajudado no seu percurso por Butch Trucks, o baterista da banda de blues e tio dele.
Em 2007, quando Buddy Guy foi a New Bedford, Terry perguntou se o ícone dos blues poderia assinar a guitarra do filho antes do espectáculo. Nos bastidores, recordou Quinn, mostrou a Guy alguns acordes "e ele disse: ?Vê se estás pronto quando eu te chamar.?"
Quinn tocou ao lado de Guy nessa noite. Desde então, Guy tomou-o sob a sua alçada, partilhando com ele o agente, o palco e ajudando-o nas negociações para as gravações de um álbum. "Não sei, tocamos o que ele quiser tocar", disse Quinn com um encolher de ombros, descrevendo o que é estar em palco com uma lenda viva da música. É a resposta que se poderia esperar de um miúdo que pega numa guitarra e canta, sem qualquer treino formal. Tem um professor de guitarra, mas não sabe ler música nem percebe de teoria da música. E Quinn não está todo o dia de volta da guitarra. Depois de uma hora a queimar os dedos nas cordas, numa recente tarde de sábado, Quinn saiu para a rua, para andar de bicicleta com a irmã Kobza e as suas amigas: Lexie, de nove anos, Kaci, de 11 e Shaina, de 12. (Quinn diz que elas gostam de blues quando é ele a tocar, mas preferem os Jonas Brothers.) Depois de Quinn sair, Terry Sullivan mostrou-nos um vídeo do filho a tocar "Who?s Gonna Fill Those Shoes" com Buddy Guy, em Chicago. "Este homem sabe tocar", disse Guy ao público entusiasmado. Quando o duelo de solos de guitarra abrandou, voltou-se para Quinn e disse: "Ainda hás-de ser alguém." O pai, orgulhoso, assistia: "Olhem; foi aqui que me veio uma lágrima aos olhos.?? No ecrã da televisão, Guy e Quinn arrancam para a música "Voo doo Chile", de 1968) de Hendrix - dois guitarristas em total sintonia.




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