Abençoada troika

por Rui Costa Pinto, Publicado em 24 de Setembro de 2011   
Felizmente o abandalhamento crónico do regime democrático foi travado a partir do momento em que a troika aterrou em Lisboa
Opções
a- / a+
A descoberta de uma dívida oculta na Madeira provocou um clamor extraordinário. Do embaraço do Presidente da República à preocupação do primeiro--ministro, tudo concorreu para a crítica certeira a Alberto João Jardim.

A agitação é plenamente justificada, tendo em conta que qualquer desvio, ainda que com pouco impacte nas contas públicas, é mais um passo no sentido do abismo.

Não vale a pena tentar desviar as atenções, transformando um caso grave num pasto de acerto de contas entre partidos políticos. Quem falhou no exercício de funções, por acção ou omissão, deve ser substituído. Nas eleições regionais de 9 de Outubro, os madeirenses têm a oportunidade de restaurar nas urnas um dos valores essenciais em democracia: a responsabilidade política.

Os erros do passado não podem servir para tentar branquear o desastre financeiro na Madeira. A extraordinária manipulação do défice em 2009 e os exemplos do BPN, do BPP e das parcerias público-privadas, entre outros, já são suficientemente penalizadores, pelo que é urgente estancar esta espécie de "constancionalização" do escrutínio das contas públicas.

Ainda mais importante do que a averiguação da responsabilidade da dívida madeirense, da ordem dos 5 mil milhões de euros, é o governo ter percebido, ou ter sido obrigado a perceber, que acabaram os tempos em que as equipas das Finanças, em especial os secretários de Estado do Orçamento, se limitavam a gerir alçapões para ocultar a dívida e o défice.

Felizmente, o abandalhamento crónico do regime democrático, em que ninguém sabe de nada, ninguém faz nada e ninguém é responsável por nada, foi travado a partir do momento em que a troika aterrou em Lisboa. Sim, desde 12 de Abril passado, os tais senhores estrangeiros que nos emprestaram o dinheiro em troca da limpeza das contas públicas estão a levar por diante uma tarefa que os nossos governantes e demais políticos não foram capazes de fazer em três décadas de democracia. E o trabalho ainda vai no adro. O buraco da Madeira poderá não ser o último a ser trazido ao conhecimento dos portugueses e dos mercados financeiros.

A perda de autonomia para os representantes do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional só pode ser encarada como uma receita inevitável e útil. E torna risível as críticas lançadas pelos principais responsáveis pelo estado a que o país chegou.

É um enorme progresso, mas não chega. Para continuar a merecer a confiança dos portugueses, Pedro Passos Coelho tem de continuar a seguir os bons exemplos, não pode hesitar em relação a quem entende o Estado como a sua própria casa.

O debate não pode estar confinado ao assomo de patrioteirismo tardio, para alijar responsabilidades ou por razões ideológicas. Até agora, e contrariamente ao que se passa em relação às investigações anunciadas pelo procurador- -geral da República, os portugueses estão a começar a levar a sério a premência de rigor imposto pela troika.

Não obstante o clima de austeridade, bem como as terríveis consequências sociais, começa a ser possível respirar melhor neste país ainda atolado na probidade de fachada. Aliás, não é por acaso que o combate contra a corrupção e a criminalização do enriquecimento ilícito voltam a estar presentes na agenda parlamentar e na primeira linha do debate público.

No país adiado, que perdeu o comboio do desenvolvimento proporcionado pelas ajudas comunitárias, chegou o momento de não ter medo de afirmar: abençoada troika.

Escreve ao sábado


Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close