Suicídio entre jovens
O estranho caso dos suicidas da Patagónia
Publicado em 27 de Julho de 2009
Entre 1997 e 1999, 12 jovens de 25 anos suicidaram-se em Las Heras. Leila Guerriero, jornalista argentina, viajou até à Patagónia à procura de respostas. Acabou por escrever um livro com a história de uma povoação-fantasma
Último dia do milénio. Juan Gutiérez, 27 anos, bom jogador de futebol, soube que não queria continuar vivo quando toda a Argentina festejava com champanhe e fogo-de-artifício. Quando a mãe foi à procura dele, encontrou-o enforcado num cabo da luz como "um fruto mole".
Sandra Mónica Banegas pintava as unhas de preto, a cara de branco-giz, desenhava caveiras no quarto e ouvia rock. No início de 1997, disparou um tiro na boca com a espingarda de caça do pai, depois de escrever uma carta a lápis preto. No quarto, sobrou uma frase: "Juro silêncio sobre o meu futuro."
Carolina Gonzaléz, 19 anos, deu banho ao filho na manhã de 13 de Maio de 1998 e pô-lo bonito. Horas depois apertou o pescoço com um cinto e enforcou-se na parte mais alta do beliche. Deixou uma carta que o filho deveria ler quando fizesse 19 anos. Não foram os únicos mas ninguém ligou. Em dois anos, 12 jovens com idades próximas dos 25 anos suicidaram--se em Las Heras. Inventaram-se rumores mas ninguém fez perguntas. A lista oficial dos mortos nunca existiu. Ali, em Las Heras, província de Santa Cruz, Sul da Argentina, Patagónia profunda, ninguém sabia sequer quantos nasciam e quantos morriam. Só depois se soube que eram 8382 habitantes, 2315 desempregados e que 30% das mulheres engravidavam antes de fazer 18 anos.
O email que levou a Las Heras Leila Guerriero, jornalista, nunca tinha ouvido falar de Las Heras até ao dia em que chegou ao diário "La Nación" um email de uma organização que ia implementar em Las Heras um plano de Jovens Negociadores. Desenvolvido pela UNICEF na Universidade de Harvard, estava a ser aplicado pela primeira vez no interior do país, devido aos altos níveis de desemprego, alcoolismo, prostituição e suicídios em Las Heras. "Chamou-me a atenção que num lugar tão pequeno acontecessem tantas coisas", conta Leila ao i, ao telefone, a partir de Buenos Aires.
Leila Guerriero foi atraída pelas circunstâncias dos suicídios - todos eles violentos e bizarros - e pelas coincidências: todos se suicidaram em datas diferentes, mas marcantes - no último dia do milénio, na data do aniversário da melhor amiga, dois meses antes de a mãe dar à luz o irmão. A jornalista pesquisou "Las Heras" no Google. Encontrou muito pouco; apenas uma notícia "muito ridícula de uma mulher que denunciava que um homem se tinha metido nos seus sonhos para lhe roubar o número da lotaria". Procurou a lista telefónica de Las Heras, fotocopiou-a e começou a marcar números à sorte. "Não era um método muito ortodoxo, mas serviu. Não tinha nada, não havia nada sobre aquela aldeia, nem sequer uma lista dos suicidas ou da família." À segunda tentativa, ligou para a irmã da primeira jovem que se suicidou, que aceitou recebê-la. Estava decidida: queria fazer uma reportagem sobre os mistérios de Las Heras. Tentou vender a história à revista "Rolling Stone", de que era colaboradora. Estávamos em 2001, ano do descalabro económico da Argentina, e Leila ouviu: "Não te podemos pagar esta viagem, nem sequer de autocarro." Leila partiu sozinha, por sua conta, rumo à Patagónia. Ainda longe de saber que a reportagem se transformaria no livro "Os Suicidas do Fim do Mundo."
A viagem Primeira impressão de Las Heras: o caminho para lá chegar. Conta Leila: "Era um caminho completamente desolado, sem animais, uma linha recta no imenso vazio da Patagónia."
"Dos lados, em cima, em baixo, não havia nada. Nem pássaros, nem ovelhas, nem casas, nem cavalos. Nada que pudesse chamar-se vivo, novo, velho, exausto, doente." Encontrou um lugar perdido, terra de vento, deserto e eufemismos: "Tinham-me dito que ali o vento era uma coisa insuportável. Mas só quando saí do autocarro percebi que era uma espécie de loucura. Foi o que me impressionou mais: a força do vento, que parecia uma coisa maligna."
Las Heras era a solidão pura. Antes próspera e florescente, quando toda a população trabalhava na indústria do petróleo, até ser privatizada nos anos 90. Depois, perdeu o rumo: desemprego, mães solteiras, famílias desintegradas, falta de perspectivas. Não havia janelas abertas, nem quiosques, nem cinema, nem internet e até os telefones eram cortados pelo vento. Diziam os habitantes que existia um letreiro "Las Heras, cidade fantasma" que fazia jus à solidão desértica, mas a jornalista nunca o encontrou. A vida e o movimento de Buenos Aires ficavam lá longe, no distante Norte.
Leila Guerriero encontrou mais do que uma história de suicídios. Histórias "esquisitas e arrepiantes" que só a revista local "La Ciudad" contava. "Esta menina foi encontrada morta nos sanitários do cemitério. Este menino foi encontrado dentro de um saco no lixo. O pai e a mãe bateram-lhe, meteram-no no saco e deitaram-no fora; dois rapazes encontraram-no nu com marcas de cigarros."
Sobre os suicídios, várias teorias: que era tudo culpa dos índios que tinham sido enterrados naquela zona ou culpa do petróleo, que havia uma seita que tinha motivado os jovens ao suicídio, que a primeira suicida tinha feito uma lista com os nomes e os detalhes dos suicidas seguintes, lista que muitos juravam existir, mas que ninguém possuía ou alguma vez tinha visto.
Leila Guerriero voltou mais vezes, para escrever o livro. Usou as férias, ao longo de três anos, conversou com as famílias, com os amigos, com os amigos das famílias. Conversas intermináveis. Depois escreveu tudo num mês e meio, de forma obsessiva, trancada em casa.
Na aldeia pequena e longínqua não havia só suicídios mas outras coisas bizarras, que, mais uma vez, só a revista "La Ciudad" contava.
A jornalista não encontrou "a" resposta: "Havia uma grande quantidade de problemas: o desemprego, o isolamento, famílias desmembradas, a falta de futuro e de diálogo. Era mais complexo do que um terramoto." O livro que destrói os mitos da Patagónia foi publicado na Argentina e em Espanha, e traduzido para várias línguas. Nada acabou. Os suicídios continuam. Mas o resto da Argentina nada sabe sobre as mortes do Sul.
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