Doenças tropicais

Febre amarela, malária, e dengue à distância de uma picada

Publicado em 22 de Setembro de 2011   
Doenças tropicais estão a regressar à Europa. Portugal não está imune ao problema
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Dengue na Croácia e no Sul de França, casos de febre do Nilo a aumentar na Grécia e em Itália. Mais mosquitos exóticos e um vírus africano a matar milhares de tordos na Alemanha. As doenças tropicais estão a regressar à Europa e Portugal não está imune, muito pelo contrário. Nos últimos dois anos, em regiões como o Algarve, a densidade das populações de mosquitos que podem envolver riscos para a saúde aumentou quatro vezes, alerta o especialista Paulo Almeida, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), Universidade Nova de Lisboa.

Os quatros mosquitos mais presentes no país, nos quais até à data só foi detectado o vírus do Nilo ocidental, podem transmitir doenças tão longínquas como a malária, endémica no país até 1959. Prevenir novos surtos passa por manter a monitorização, feita no IHMT e através das administrações regionais de saúde, num programa coordenado pela Direcção-Geral da Saúde. Sem mais especialistas não será possível fazer frente a uma ameaça que se tornou uma preocupação central na saúde europeia, defende o professor de Entomologia Médica, que regressou de um encontro da associação europeia de controlo de mosquitos em Budapeste. Até ao final do mês estão abertas as candidaturas para o único mestrado no país na área da Parasitologia Médica (ver site), que dá preparação para lidar com este tipo de doenças. À 12.a edição, a procura está aquém da que tem sido registada nos últimos anos. "Em geral a Europa tem um défice de profissionais nesta área, principalmente pessoas que saibam identificar os mosquitos, os vermes, os parasitas, pessoas que saibam perceber se os doentes têm ou não têm malária ou a doença do sono." Ao contrário do que se podia pensar, e não por bons motivos, as saídas profissionais não passarão por sair do país. "Quando iniciei a minha formação pensava trabalhar em África, nem se falava da hipótese de estas doenças regressarem. Quando se banalizou o DDT e outros insecticidas achou-se que estas doenças seriam todas erradicadas. Afinal estão de volta."

Ameaças A Madeira é uma das quatro regiões da Europa com a presença confirmada do mosquito Aedes aegypti, que transmite o dengue e a febre-amarela - falta apenas a importação dos vírus para que um surto seja possível. O cenário é semelhante ao que existia em Cabo Verde em 2009, quando um surto de dengue afectou 21 mil pessoas. "Neste momento é a situação mais preocupante. Em Cabo Verde também não havia o vírus, mas tínhamos identificado o mosquito há 50 anos", lembra o investigador. Enfrenta ainda uma ameaça cada vez mais visível na Europa, porque pode trazer novos casos de dengue, febres hemorrágicas e uma doença original de África e do oceano Índico chamada chikungunya, parecida com dengue e que foi detectada há dois anos no Brasil, em Itália e França. Por detrás dos surtos está um mosquito que até há 20 anos só existia no Sudeste Asiático, o Aedes albopictus. Segundo o mapa de risco do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), já alastrou a 15 países, entre eles Espanha. "O risco de entrar em Portugal é elevado", diz Paulo Almeida.

As alterações climáticas, como o aumento das temperaturas e das chuvas, favorecem a concentração dos mosquitos, mas também de outros animais: "Sabemos que há, por exemplo, um aumento de piolhos e, em algumas regiões, de carraças, que além da febre da carraça transmitem a doença de Lyme." Outras doenças que estão a ser estudadas, porque do lado dos mosquitos estão reunidas as condições para aumentarem, são a leishmaniose, que afecta sobretudo cães, mas também pode atingir pessoas, ou a dirofilariose - quando os mosquitos são infectados com vermes do coração dos cães e os transmitem a outros animais ou ao homem.

O aumento de espécies invasivas na Europa, como é o caso do mosquito-tigre, poderá servir de catalisador ao desenvolvimento de todas estas doenças, até aqui presentes na Europa apenas quando algum viajante regressava de um país exótico infectado - Portugal tem de 50 a 100 casos de malária importada todos os anos. "Neste momento já existem na Holanda mais duas espécies de mosquitos invasores, Aedes japonicus e Aedes coreicus. "Temos alterações climáticas por um lado e depois mosquitos que são trazidos em plantas, como os bambus da sorte, e sobrevivem porque as temperaturas estão mais altas. É a aldeia global", resume o especialista.

Além dos mosquitos transmissores de doenças, vectores como piolhos e carraças também aumentam



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