Há um mês, em entrevista ao i, Eduardo Madeira comparou-o com Elvis: “Um rei é um rei”, disse então. Embora o visado nos diga que preferia ser o Mário Soares do humor, porque ao contrário do cantor o ex-presidente “está vivo e aos 84 anos continua a dar cartas”, Herman José, como qualquer rei que se preze, tem o seu séquito a acompanhá-lo a todo o lado. Uma entrevista a Herman José não é uma conversa a dois: na sala, nos bastidores de um dos estúdios da TVI, estão cinco pessoas, entre representantes da editora onde gravou o novo disco (Espacial) e do gabinete de imprensa do canal, e convidados do próprio Herman. Um funcionário da produção do programa entra e oferece-se para satisfazer qualquer desejo real. Regressa com uma Coca-Cola. “É uma honra para mim estar a servi-lo”, diz. Um rei é, de facto, um rei.
A que se deve este regresso à música, com o disco “Adeus, Vou Ali Já Venho”?
Quando a vida televisiva se complicou, percebi que os espectáculos ao vivo tinham grande importância no meu equilíbrio artístico. E financeiro. Nesses espectáculos populares, as minhas músicas valem ouro, mas senti necessidade de ter mais material e aproveitei o layoff televisivo para isso. Essa exclusividade permite-me, pela primeira vez, ter um trabalho musical de que orgulho realmente. Hoje [no “Você na TV”, TVI] até me dei ao luxo de fazer playback, porque sei que a gravação é o meu melhor.
Começou a vida artística na música. Volta às origens.
Sim, o meu arranque está ligado à música. Lancei o “És Tão Boa” em 2005, mas não gravava nada de raiz há 25 anos.
Porquê o interregno?
Acho que se temos um bufete frio à nossa disposição não devemos ser gulosos e tirar tudo ao mesmo tempo só porque sim. Estava concentrado na vida televisiva, não tinha de acumular outras coisas. Preferi esperar.
Lembra-se da primeira vez que cantou em público?
Foi em 1970. Fiz um trio com duas amigas e fomos à RTP, a um programa do Raul Durão e da Ana Zanatti. Cantei Vinicius de Moraes e gravámos um single chamado “Hello Monday”. O meu sonho era fazer um espectáculo no Coliseu dirigido pelo maestro Pedro Osório e ter como atracção convidada o José Cid.
Vai dar um concerto com ele no Algarve, em Agosto.
Sim, é um grande amigo.
Quais as suas referências musicais?
James Taylor, Carole King, Frank Zappa, Herbie Hancock.
Mas quer mesmo ser levado a sério como cantor?
Se não me levarem a sério não me importo. Sou um cantor irónico. Inspirei-me no Georges Brassens, que tinha letras muito irónicas, e no Benny Hill, com as suas músicas humorísticas.
Então assume que a sua música é para rir e não para ouvir?
O disco é esquizofrénico. Tem músicas orelhudas. Mas o “Amor Avariado” é uma canção de amor que podia ser do Rui Veloso e do Carlos Tê. Há uma bipolaridade na minha forma de estar na música.
Quem escreveu as letras do disco?
As novas são todas minhas. Mas também tenho letras do Carlos Paião, da Rosa Lobato Faria, do Alberto Janes e do César de Oliveira.
Não acha que algumas das suas letras são um bocado primárias?
Neste disco, as minhas letras são um tratado de escrita. Leves, mas de escrita imaculada, como faziam o Paião e o César de Oliveira.
O “És Tão Boa” também era um tratado?
É uma música muito bem escrita. “Teus olhos são pecado/teu rosto enfeitiçado de tanto e aveludado brilho/sorriso de alecrim com dentes de marfim/deus fez--te boa assim/como o milho.” Isto é poesia. Humorística, mas bem escrita. O refrão é de um grupo de Torres Vedras.
Na apresentação deste disco disse que a música foi uma terapia para não dizer mal dos anteriores empregadores. Correu assim tão mal a sua saída da SIC?
Não se pode misturar quem me desconsiderou com o canal.
Isso quer dizer que está zangado com o Nuno Santos e não com a SIC?
Quem me tratou mal não foi o canal, mas quem o dirigia. A música foi a minha terapia.
O que aconteceu de tão grave?
Em Janeiro encomendaram-me um programa para estrear em Março. Chegados a Março, disseram que não contavam comigo. Se isso não é grave, não sei o que será.
Qual era o programa?
Chamava-se Sexta-feira Santa. Era uma mistura de humor e stand up.
E veio para a TVI apresentar um programa para aspirantes a músicos e a famosos. Sente-se bem nesse papel?
Estou feliz. Este programa é tão profissional e tão digno – tudo é verdade, cantam ao vivo – que me dá uma honra enorme. E tenho a certeza que vai crescer.
Mas tem noção que vai lá muita gente sem qualidade para cantar na televisão?
Não, acho que todos cumprem os mínimos. A média é boa.
E também é um atalho para a fama…
Não diga isso à Sara Tavares e ao João Pedro Pais.
Pode sair dali uma Sara Tavares?
Sim, sem dúvida. E ainda falta ouvir 32 cantores. Pode sair dali muita coisa. Ou não. É um dos fascínios da música, não conseguimos adivinhar o êxito.
Com 18 ou 19 anos entrava num programa como o seu?
Claro. Eu era um tipo tão ambicioso... Mas também sofreria muito se perdesse.
As audiências estão a ser boas?
Sim, mas a fasquia é alta e queremos crescer mais.
São líderes?
No último tivemos óptimo share, liderámos enquanto estivemos no ar.
Foi isso que lhe pediram?
Não. Até porque os formatos estão não dependentes de apresentadores. Tem alguma dúvida que, se substituir o Manzarra e a Carolina Patrocínio por outro miúdo simpático e uma miúda gira, o “TGV” da SIC continua a funcionar? No “Salve-se Quem Puder”, se em vez da Diana Chaves estiver lá outra miúda qualquer, é igual. São os formatos que se impõem, não os apresentadores.
Quer dizer que estar o Herman no “Nasci para Cantar” ou outro qualquer é igual?
Sim, acho que sim. Espero ser uma mais-valia, mas não sei como funciona o público. Se calhar, se estivesse lá uma boazona de minissaia também era giro. Faço os possíveis para que a minha parte seja divertida.
O seu estilo na TVI é muito mais sóbrio – blazer, calça bege… Foi uma imposição?
Não. Achei que era interessante voltar a um estilo que não fizesse ruído. No primeiro almoço de trabalho, a directora de produção da TVI perguntou-me: “Como te estás a ver a apresentar isto?” Eu disse-lhe: “De blazer.” Todos concordámos.
Foi o José Eduardo Moniz que o contratou?
Sim, estava em Sevilha e recebi o telefonema dele. Fiquei aflito porque o programa era ao domingo e tinha muitos espectáculos marcados… Mas resolveu-se tudo. Foi um processo rápido e divertido, que me fez bem à alma. A partir de certa altura, o artista alimenta-se muito mais de amor e carinho que de dinheiro.
Já tinham trabalhado juntos?
Em 1988, quando ele foi director de programas da RTP. Nunca tivemos uma discordância.
E se ele saísse para o Benfica?
Se ele acumulasse não era grave. Se saísse mesmo é que era triste. Ia jogar para o Benfica. [risos]
É o melhor director de programas que já teve?
Um dos melhores. Gostei muito do Manuel Fonseca e adorei o Rangel, que me levou para a SIC. Na RTP guardo muito boas memórias do Joaquim Furtado, pai da Catarina, e do Joaquim Vieira, a dupla que me encomendou o Herman Enciclopédia, que foi talvez o meu melhor programa.
Tem noção da estrutura montada à volta dos seus programas? Sabe quanto custam?
Este concurso não pode ser barato. Implica um estúdio grande, músicos ao vivo, ensaios, um grande cenário.. não é barato. O Herman SIC era caríssimo: tinha actores de primeira linha, grandes autores, orquestra…
Caríssimo…?
É difícil contabilizar os custos. Não sei, não consigo avaliar.
Perguntando de outra forma: acha que o Herman é um bom investimento para um canal?
Se eu fosse director de um canal, considerar-me-ia um bom investimento. Um restaurante, por exemplo, deve ter muitos pratos acessíveis, mas também algo mais caro, mesmo que não dê lucro. Um tornedó rossini com trufas frescas e paté. Sai carote e não se ganha dinheiro com este prato, mas entre 30 hambúrgueres e pizzas deve lá estar. Faço bem o papel de tornedó rossini da estação.
Por falar em comida, o que é feito do seu restaurante, o Café Café?
Acabou. Já não ganhava que chegasse para poder perder tanto. Ter um restaurante sai mais caro do que manter o iate do Abramovich. Vendi há dois anos. Agora é uma boîte, o Twins.
E o iate?
Adoptei uma solução mais realista. Não passava férias com o barco, ele é que passava comigo. Era escravo dos custos, da tripulação, do tempo que perdia. Troquei-o por uma lancha normal para dar umas voltas. Não aconselho ninguém a ter um iate. E menos ainda um restaurante.
Com a música e a apresentação, o humor fica de parte?
Não. O humor é a coluna dorsal dos meus espectáculos. A música é um separador. Antes de tudo, sou humorista. A música é um complemento.
Qual foi o seu programa mais marcante?
"O Crime na Pensão Estrelinha", numa passagem de ano.
E a personagem?
Há duas muito importantes. O Esteves foi a primeira caricatura do Porto a ser adoptada pela própria região. E o Diácono Remédios, que se mantém actual, responde aos instintos censórios e retrógrados que herdámos de 40 anos de ditadura e dos quais ainda não nos livrámos. Portugal ainda não é uma democracia.
Porquê?
Tanta coisa... Há problemas culturais, na justiça, a organização do estado é medieval?
Continua a ser censurado?
Já sofri o que tinha a sofrer.
Aprendeu a ter limites no humor?
Tenho tantos... Vou-lhe dar um exemplo: no último programa estavam lá três miúdas que eram bombeiras e só uma tinha usado a agulheta. Não imagina a quantidade de trocadilhos que me passaram pela cabeça à volta das palavras bombeiros e agulhetas. Só pensava: não podes dizer isto, não podes dizer aquilo, olha as senhoras, olha que a repetição vai para o ar sábado à tarde. A minha cabeça parece uma centrifugadora a mandar fora informação.
Os seus maiores problemas foram em assuntos relacionados com a igreja [um abaixo-assinado por causa de um sketch da Última Ceia e as entrevistas históricas no Humor de Perdição] .
Sim, mas não só. O Jorge Sampaio cortou relações comigo por causa de uma piada no Herman 98. Tinha sido preso um guarda-costas dele com um quilo de heroína e eu disse que nessa semana tinha passado mais droga pelo casal Sampaio do que pelo Casal Ventoso. Nunca mais me perdoaram, deixei de existir para eles. Quando digo que vivemos num regime medieval é por causa disso. Não está a ver o Obama a meter alguém num índex por causa de uma piada destas!
É verdade que foi a sua mãe que lhe deu a deixa do "não havia necessidade"?
Ainda ontem, quando fomos almoçar, me disse: "As minhas amigas estão a gostar muito de te ver, não tens necessidade de certas coisas."
Esses bordões vêm de pessoas à sua volta?
Não forçosamente. Este do "Vou Ali Já Venho" foi automático.
E as personagens? O Nelo e a Dália, por exemplo, de onde vêm?
Ia fazer uma personagem para a SIC, uma bicha. Peguei numa pochete, mas senti-me tão antigo, tão fácil? Quando olho para o lado vejo a Rueff, acabada de acordar, muito mal penteada, trombuda, mal vestida, por pintar, e disse: é isto! A bicha casada tem sempre umas mulheres tristíssimas.
Um dos seus vídeos mais vistos no You Tube é o último programa na "Roda da Sorte", quando desata aos tiros aos prémios? O que lhe passou pela cabeça para fazer aquilo?
Tinha comprado uma espingarda e andava lá em Azeitão aos tiros a tudo: pedras, árvores, os vasos abriam em leque? achei aquilo era maravilhoso para o último programa. Pedi autorização na segurança e eles disseram que sim, pensavam que era um pressão de ar. Quando começo a dar tiros nas panelas de pressão e no cenário com uma espingarda que a marinha americana usa para imobilizar barcos ninguém teve coragem de me interromper. Se calhar tiveram medo.
Eram prémios verdadeiros?
Não. Tive o cuidado de os substituir por coisas que não fossem boas de mais, objectos antigos. Mas foi perigosíssimo, surrealista. E os concorrentes continuavam a jogar.
Gostava de voltar a ter um talk-show?
O único problema é que em Portugal não se passa nada. Só faria sentido numa lógica de serviço público. A Diana Krall entrou na Europa através de um talk-show meu, o Herman 98, e ainda hoje diz isso. Mas isso só é possível num canal de serviço público, que não se preocupe com as audiências.
E com dinheiro para trazer cá essa gente?
Vêm a custo zero. O Tony Bennet, o Sting, o Iglesias, vieram todos à borla.
Qual foi o seu melhor entrevistado?
Há os bem-falantes e com grandes histórias de vida, como a Fernanda Montenegro? Depois há os muito importantes, como o Elton John e o Iglesias. E há os simples, como a Anastacia e a Gloria Estefan. Dos portugueses, achei engraçado entrevistar o Cavaco no Herman SIC, onde lançou a campanha presidencial. Foi a primeira vez que vimos um Cavaco mais humano e bem-disposto. E babava-me sempre que entrevistava o José Hermano Saraiva. Era como o fascínio de um miúdo que vai ao Disney World falar com o Mickey Mouse.
E os piores?
O Mark Knopfler. Só respondia yes, no, perhaps.
E dos portugueses?
Tantos que não vale a pena individualizar. Havia muitos actores que pediam para ir lá falar de uma peça que não estava a vender bilhetes e na entrevista faziam ar de enfadados.
Recebeu um Globo de Ouro, em 2007, por mérito e excelência. Dois anos depois está de saída da SIC. Aquilo não soou a prémio de carreira antes de o encostar?
Preferia que me tivessem dado o prémio dez anos depois e não me tirassem a apresentação dos Globos. Acho extraordinário ter uma rapariga como a Bárbara Guimarães - que é muito querida, mas que se limita a ler o teleponto - a apresentar e eu na plateia. Nunca entendi.
Caso houvesse um concurso para eleger os grandes humoristas portugueses, quem acha que ganhava?
Os que estão na moda agora. Os Gato em primeiro, depois o Nilton, o Marco Horácio? Eu ficava para aí em 18.o lugar.
Mas quem são para si os maiores de todos os tempos?
O primeiro é o Vasco Santana. O segundo é o António Silva.
E o Herman?
Ficava em terceiro.
E os Gato Fedorento?
São muito novos. Só entram neste campeonato pessoas com mais de 30 anos de carreira.
O Eduardo Madeira comparou-o com o Elvis. Sente-se o rei do humor português?
Preferia ser o Mário Soares do humor. O Elvis já morreu e gostava de ter a longevidade do Mário Soares, que com 80 e tal anos continua a dar cartas. Mas percebo e agradeço. O Elvis é muito bom e não passou de moda. Senti isso com o Herman Enciclopédia.
Quase toda esta nova geração do humor escreveu para si. Identificava os autores dos textos quando interpretava?
O sentido de humor do Ricardo [Araújo Pereira] era identificável e o do Nuno Artur Silva também. Tinha umas voltinhas específicas. E o João Quadros também é muito identificável.
Quais os textos de que mais gostava?
É injusto, mas, se destacar alguém, não posso deixar de salientar o Nuno Markl, o José Pina, o Ricardo? Mas os outros eram todos bons e catalisavam--se. Os Gato completavam-se: um dizia mata, o outro esfola.
Esteve na génese das Produções Fictícias?
Sim, a empresa nasceu por minha causa. Cansei-me de escrever e comecei a pedir textos ao Nuno Artur Silva.
Tem medo de não voltar a ter piada?
Tenho a certeza que não vou voltar a ter a mesma piada. A minha cara não tem 40 anos. Estou condicionado à minha cara de 55 anos e as minhas personagens também. A Marilu a dar ao cu no "Tal Canal" já não existe. Aos 28 anos, uma pessoa dá ao cu de uma certa maneira, aos 55 o cu pesa mais e não acompanha.
Nos anos 80, no início da sua carreira, há artigos em que já se punha em causa a sua orientação sexual. Porque sempre existiu este tabu?
No dia a seguir a aparecer com o Nicolau já diziam que era namorado dele. Coitado, foi meu amante durante uns tempos.
Nunca se deu ao trabalho de esclarecer esse assunto?
Seria um disparate. Há coisas que não vale a pena contrariar. Tenho fama de cocainómano. Não há dealer que não fale de mim. Vou fazer o quê? Em relação à minha sexualidade é a mesma coisa. Tantas pessoas que já foram para a cama comigo? algumas deram processos judiciais, porque eu estava no Brasil. Como é que se combate isso?




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