Cancelar é fácil
por Tiago Mota Saraiva, Publicado em 10 de Setembro de 2011
A Parque Escolar EPE é a mais recente opereta da forma como os diferentes governos têm gerido as obras públicas em Portugal. Em quatro anos, conseguiu deixar-nos uma dívida praticamente equivalente à dívida somada das 408 empresas municipais. O seu caminho está repleto de situações obscuras e alguns resultados francamente medíocres, apoiados na bonomia de diferentes maiorias e órgãos fiscalizadores, pouco entusiasmados com avaliar resultados e procedimentos. O discurso mediático privilegia o "fazer obra" e atropela a qualidade, a transparência e o rigor.
Mas de repente o poder quer projectar que se transforma. Rapidamente aparece a auditoria certeira que encontra os dados para aniquilar o monstro. A notícia alivia-nos, ainda que as responsabilidades se diluam. A dívida da má gestão e do conluio, que enriqueceu uns poucos, assaltar-nos-á a carteira das formas mais criativas.
A novidade dos tempos que correm não está neste processo. A novidade é utilizar-se o cancelamento como demonstração de transparência e seriedade, sem que se perceba que é um comportamento igualmente criminoso. Se temos um buraco na parede pelo qual entra frio, calor e chuva, sabemos que quanto mais tarde o taparmos maiores serão os custos da sua reparação.
Cancelar a requalificação das escolas e não concluir e rectificar algumas intervenções que foram feitas é projectar um futuro explosivo. Não aproveitar o trabalho que se encontra por fazer para promover um processo-piloto, transparente, rigoroso, e no qual a qualidade seja o eixo central, é reconhecer que esses princípios não estão na agenda do governo. Cancelar é abdicar do país.
Arquitecto
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