Natalia Juskiewicz. "O fado exprime toda a gama de sentimentos humanos"
por Nelson Pereira , Publicado em 06 de Setembro de 2011
Canta o fado com um violino. Depois de uma formação clássica no seu país natal, Natalia ficou presa ao fado e ao Atlântico
Fez estudos clássicos de Violino na Academia de Poznan, a cidade polaca onde se realiza um dos mais importantes concursos internacionais de violino do mundo, o Concurso Internacional do Wieniawski. Em Portugal desde 2000, tem tocado com a maior parte das orquestras portuguesas e conhece o país de lés a lés. O fascínio pelo fado empurrou-a para o desejo de interpretar com o instrumento que conhece desde criança os clássicos maiores do fado. "Canta" o fado com o violino. E teima que o fado não é só tristeza e não pertence só à alma portuguesa.
Qual é a importância do violino na sua vida?
Comecei a aprender violino com seis anos, que é a idade com que habitualmente as crianças na Polónia começam a sua educação musical. E o violino tornou-se parte integrante de mim, da minha vida, é um elo íntimo entre o coração e as mãos.
Na Polónia existe uma maior tradição de música clássica?
Sim, existe uma tradição maior, e daí o interesse ser também maior. Há mais concertos e festivais de música clássica. Mas em Portugal isto tem mudado. Os programas de ensino deveriam reforçar o ensino da música aos alunos desde os primeiros anos. Mesmo quando não existe o objectivo de uma carreira profissional, aprender música contribui muito para o desenvolvimento da criatividade e da sensibilidade de uma criança.
Como nasceu este fascínio pelo fado?
Conheci Portugal em 1999, passei aqui uma semana de férias. Estive então pela primeira vez em casas de fado em Lisboa. Já tinha ouvido fado, mas nunca ao vivo. Fiquei impressionada com a força de emoções que o fado consegue exprimir.
Mas a ideia de substituir a voz do fadista pelo violino, não surgiu logo...
Não. Encantada com a simpatia e a hospitalidade dos portugueses, quis conhecer melhor Portugal. E mais tarde, já no início de 2000, vim a convite da Orquestra do Norte. Trabalhei com a Orquestra do Norte durante cerca de oito meses, mas desejei sempre viver perto de Lisboa, Trabalhei depois com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, assim como com a Orquestra Metropolitana, uma colaboração de quase um ano. Entretanto, com músicos que conheci, formámos um grupo de música de câmara, toquei em trios e quartetos. Toquei igualmente como solista, também com a Orquestra do Norte. Durante a minha estada em Portugal colaborei com praticamente todas as orquestras do país. Há dois anos estou concentrada no projecto do fado. Continuo interessada em tocar em orquestras de câmara, mas é o fado que me entusiasma mais. Tive oportunidade de tocar nos lugares de maior prestígio em Portugal e viajei pelo país inteiro. Passados 11 anos, sinto-me em casa aqui.
Como é que do encanto pelo fado surgiu este desejo de interpretar os clássicos do fado com o violino?
O contacto próximo com as casas de fado despertou em mim uma grande paixão pelo fado. Sem conhecer a língua, tocavam-me os sentimentos que o fado exprime. Sentia uma grande emoção desde o início, era como se percebesse a língua. Foi daí que nasceu a ideia de tentar exprimir com o meu instrumento as mesmas emoções. Este meu fascínio pelo fado foi-se aprofundando com o tempo. Comecei a desejar exprimir as vozes dos fadistas, aquela língua que me era então desconhecida, com o instrumento que conheço desde criança, que faz parte de mim, que é afinal a minha voz, o violino. Mas não aconteceu logo. Tive de amadurecer para isto.
Amadurecer como?
Este desejo foi amadurecendo e só veio a ganhar asas quando já vivia em Portugal. Para isso tive primeiro de desenvolver uma maior empatia com o fado. Mas principalmente tive de passar por experiências na minha vida sem as quais não saberia entender e exprimir o fado... Não é possível interpretar o fado se desconhecemos as emoções que o fado exprime, tem de vir do fundo da alma. Até porque a recepção por parte dos ouvintes não seria a mesma. Quem não sofreu não saberá nunca exprimir o sofrimento. Seria um fingimento. No fado encontro o reflexo das experiências que vivi, o percurso da minha vida.
O fado é português. Não se sente estrangeira no fado, apesar de todo esse fascínio de que fala?
Estou convencida de que o fado é universal, exprime todos os sentimentos que são comuns à experiência, não só do povo português, mas de todos os homens. O fado para mim não é só lamento e tristeza. As interpretações que tenho conhecido nas casas de fado exprimem muitas outras emoções. Sinto sempre uma grande comoção, encontro no fado toda a gama de sentimentos, a expressão incomparável da beleza de todos os sentimentos humanos. Não há no fado apenas lamentos, tristeza, sofrimento. O fado é também expressão de alegria, felicidade, paixão, amizade. É a expressão perfeita dos sentimentos humanos. Tive a sorte de assistir a interpretações de grandes artistas portugueses, que sabiam transmitir emoções que iam da nostalgia e da tristeza à alegria e à felicidade. Nunca me senti uma turista que escuta música exótica e estranha, mas experimentei sempre com o fado uma enorme proximidade. E, apesar de os portugueses estarem convencidos de que a saudade é um sentimento português, na Polónia temos também a expressão desse sentimento e existe também uma palavra para o dizer. Julgo que não somos assim tão diferentes uns dos outros, portugueses e polacos.
Já o atrevimento de interpretar fado com um violino não deixa de ser exótico...
Pode parecer imodéstia, mas julgo que o violino é o instrumento que melhor substitui a voz humana, capaz de exprimir um variado leque de emoções. O violino é tocado encostado ao coração, numa intimidade muito grande com o corpo. Até porque o violino permite controlar o som, temos influência sobre a forma como dada nota vai soar, controlamos a vibração, a modulação do som. Se tocamos piano, podemos modelar o som pelo toque na tecla, mas não tanto quanto o violino permite. Canto o fado com o meu violino. Uma vez que não sou cantora, decidi tentar expressar os sentimentos do fado com as cordas do meu violino. No essencial, trata-se de substituir a voz do fadista pela do violino.
Hoje é o fado que ocupa o lugar principal na sua carreira, sim?
Neste projecto com o fado, a que chamei "Um Violino no Fado", além de concertos, existem dois videoclips, que desde 2010 estão disponíveis no Youtube: "Com que Voz" e "Canção do Mar". O primeiro videoclip mereceu o prémio de melhor projecto na área do fado em 2010.
Qual tem sido o acolhimento do púbico?
Para mim, tocar violino no fado, os meus concertos de fado, não são apenas exprimir emoções, são um momento de comunhão entre mim, os meus músicos e o público. A música não vive sem um público, mas isto aplica-se particularmente ao fado, que mexe com emoções fundas na alma humana. E tenho tido a experiência de uma grande proximidade com o público, o que me tem encorajado muito. Depois dos concertos as pessoas vêm falar-me comovidas, vêm confirmar as emoções que eu sinto também quando toco. É isto que dá sentido ao que faço. E fiquei muito tocada pelo acolhimento que me foi manifestado por fadistas da geração mais velha, o que me encorajou muito a continuar. Recebi um sinal de apoio muito grande do filho de Alfredo Marceneiro, que admiro muito. Uma actuação minha na RTP Internacional trouxe-me sinais de apreço de portugueses pelo mundo fora.
Quais têm sido os maiores sucessos?
Em Maio de 2010 tive o privilégio de tocar na abertura do TEDxLisboa, onde tive a estreia ao vivo deste projecto com o fado.
No mês de Outubro, recebi o "Prémio Revelação", na XVIII Gala de Leiria. A minha interpretação de "Com Que voz" foi incluída num dos CD que acompanham o livro "Fado Portugal", que faz a divulgação do fado através de uma apresentação de fados de duas épocas distintas. São 50 fados em dois CD, numa edição comemorativa dos 200 anos do fado, traduzida também em inglês, que faz uma viagem cronológica pela história do fado e os seus protagonistas, das origens ao século xxi.
Em Março de 2011, a convite da Orquestra Chinesa de Macau, estive em Macau para integrar o espectáculo "Encanto de Portugal", um concerto comemorativo dos 500 anos da presença portuguesa no Oriente. Tocámos um concerto com acompanhamento da Orquestra de Macau, que tocou com instrumentos chineses tradicionais. Foi uma experiência marcante, com um excelente resultado.
Por ocasião da inauguração da presidência polaca na UE, a embaixada da Polónia em Lisboa elegeu o meu projecto "Um Violino no Fado" para representar a Polónia nas comemorações organizadas em Portugal. A minha interpretação do fado foi entendida com uma forma de encontro de duas sensibilidades, polaca e portuguesa, o que me deu muita satisfação. De certo modo é um bonito culminar de um percurso que tem preenchido a minha vida em Portugal.
Uma polaca canta o fado com um violino para um público chinês?
Tanto o fado como a música tradicional chinesa têm características e linguagens próprias, mas surpreendentemente existem proximidades. Tal como tento que o meu violino no fado chore a saudade lusitana, o erhu chinês exprime num gemido muito próprio e comovente a nostalgia do Oriente. Tivemos um formidável acolhimento do público. Vimos alegria e lágrimas de emoção nos olhos das pessoas. Em particular durante a interpretação de temas como "Segredos", ou "Com Que Voz". E reagiram de forma muito viva e espontânea quando interpretámos "Havemos de Ir a Viana". O fado tem este poder surpreendente de tocar as almas. E isto não acontece só aos portugueses.
Há concertos agendados?
Tenho concertos marcados no próximo dia 3 de Outubro na Biblioteca da Universidade de Coimbra, em Outubro em Viseu e em Novembro no Tivoli do Porto.
E está para breve o seu primeiro disco com interpretações de fado.
Em Novembro será lançado este meu primeiro CD, "Um Violino no Fado". Inicialmente, gravei dois temas, fiz algumas actuações e foi o acolhimento caloroso das pessoas que me fez pensar em gravar o disco. Acompanharam-me nessa gravação, na guitarra portuguesa o Paulo Valentim, na viola de fado o Bruno Costa e na viola baixo o Rodrigo Serrão, que me acompanharam em Macau. Tive o privilégio de contar com estes excelentes músicos e também, na direcção musical, com o apoio experiente do Carlos Alberto Moniz e do Armindo Neves.
Qual é o seu fado favorito?
Não sei responder. A escolha é sempre influenciada pelo momento de vida em que me encontro, por aquilo que estou a viver. Acontece-me escutar muito fados com os quais me identifico muito, como "Lágrima" ou "Gente da Minha Terra". Mas gosto muito de outros de maior leveza, como a "Casa da Mariquinhas", por exemplo.
Tem trabalhos na área da composição?
Alguns. Tem-me sido dado criar música para acompanhar as exibições das esculturas da artista plástica Cristina Leiria, autora, por exemplo, da estátua da Kun Iam no Centro Ecuménico em Macau. Mas não tenho nada escrito, prefiro a espontaneidade e a inspiração do momento.
Não pôs de lado ser violinista de orquestras ou conjuntos de música clássica?
O fado passou a ocupar um lugar maior, mas além deste meu projecto com o fado continuo a colaborar com várias orquestras portuguesas. E também actuo como solista, ou em grupos de música de câmara, com espectáculos em Portugal continental e insular, Canadá, Polónia e Dinamarca, entre outros.
Faz outras coisas, além dos concertos?
Além de trabalhar como violinista, com todas as obrigações que isso implica - ensaios, gravações e concertos, tenho oportunidade de desenvolver outras actividades profissionais. Fui professora de Musicologia na universidade americana Maryland, na NATO, em Carcavelos. Graças ao conhecimento de várias línguas tenho trabalhado como tradutora e locutora. Fiz também um workshop de actriz. Gosto muito de passear em Lisboa, onde gosto de ir ao teatro e ao cinema. Quando tenho tempo livre, adoro viajar e descobrir novos recantos em Portugal, muitas vezes mesmo sem planear o destino. Tenho o privilégio de viver na proximidade do mar, em Cascais, onde faço longas caminhadas ou ando de bicicleta.
Cascais tem alguma coisa da sua cidade natal, Koszalin?
Koszalin é uma cidade muito diferente. É mais modesta, cheia de verde, situada junto à costa. Foi ali que se construiu a minha personalidade, à beira do mar Báltico. Para mim, essa proximidade do mar permanecerá sempre o elo de ligação entre a "minha" Polónia e o "meu" Portugal. Nos dois lugares pulsa a saudade, a nostalgia e o mistério que fazem o fado.
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Artigo: Natalia Juskiewicz. "O fado exprime toda a gama de sentimentos humanos"
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