EDITORIAL
O problema é só um: não há dinheiro
por António Ribeiro Ferreira, Publicado em 06 de Setembro de 2011
Talvez seja preciso fazer uns desenhos para os indignados perceberem a coisa
Os especialistas do costume andam por aí em debates muito interessantes a tentar perceber porque é que as medidas do governo não são entendidas pela população em geral e pelos grupos profissionais atingidos em cheiro pela austeridade em particular. Uns avançam que o problema está na má comunicação e sugerem que Passos Coelho e companhia arranjem uns artistas na arte de explicar as coisas ao povo. Chegados a este ponto da conversa é de temer o pior - e lembrar que Sócrates montou uma extraordinária máquina de comunicação, associada a um marketing fabuloso, que conseguia levar os mensageiros a passar a mensagem do chefe sem desvios ou arestas que pudessem de alguma forma interferir com o objectivo definido em S. Bento. Acontece que a coisa durou e funcionou até a realidade, esse desmancha-prazeres, rebentar com a propaganda muito bem produzida e mostrar a olho nu as desgraças, as misérias e um país em bancarrota sem dinheiro para vícios. Passos Coelho e a sua coligação com o CDS não têm de andar a perder tempo com comunicações, marketings e propagandas mais ou menos sofisticadas. Têm de aplicar as medidas impostas pela troika, cumprir os cortes definidas no programa de ajuda externa e tentar ir mais além nas reformas do Estado, da saúde, da Segurança Social, da educação e da justiça. Os objectivos são claros e não merecem grandes discussões ou explicações detalhadas. É preciso poupar muito dinheiro e pôr as máquinas a funcionar bem com o dinheiro disponível. Como não há milagres, é evidente que os serviços prestados pelo Estado não vão ser em muitas áreas perfeitos ou iguais ao que eram antes da bancarrota, em que o país se endividava loucamente e gastava muito mais do que podia. É a vida, como dizia o velho Guterres. E toda a gente sabe. Mesmo os que andam por aí a fazer de indignados, com ameaças de protestos, manifestações, greves ou mesmo tumultos. Não vale a pena gastar muita tinta, muita saliva e muito menos dinheiro com comunicações para explicar o óbvio. Portugal não tem dinheiro, ponto final. Para os mais teimosos ou ignorantes, para os que ainda pensam que o ministro das Finanças pode telefonar ao governador do Banco de Portugal e mandar imprimir umas notas, o melhor é pedir a um senhor professore de artes plásticas com horário zero que faça uns desenhos a explicar a situação como se as pessoas fossem muito estúpidas. O ordenado já está pago, não prejudica as criancinhas porque já não dá aulas e o governo não tem de gastar uns milhões com agências de comunicação e outros artistas na arte de retransmitir mensagens. Mas, já agora, se tiverem tempo, leiam o que diz o antigo presidente da CIP Francisco van Zeller e façam o que ele diz. Cortem na despesa a sério e despeçam 100 mil funcionários públicos. Arranjem dinheiro para pagar indemnizações e reduzam de forma estrutural a parcela mais importante da despesa primária do Estado. É difícil, é capaz de provocar tumultos, mas é a única maneira de acabar com esta maldita saga de o Estado aumentar os impostos sempre que gasta de mais ou descobre um novo buraco nas contas.
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