PSP. Mais de 70 mil horas no tribunal, em apenas seis meses
por Rosa Ramos, Publicado em 05 de Setembro de 2011
Lei obriga os agentes a ir ao tribunal. Sindicato diz que não recebem compensação por "falta de recursos humanos"
Só nos primeiros seis meses deste ano, os agentes da PSP passaram um total de 70 400 horas em tribunal. Muitas vezes, denuncia o Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol), "sem receberem qualquer compensação". Armando Ferreira, o presidente do sindicato, diz que a culpa é da "falta de recursos humanos" - que não permite aos agentes gozarem o descanso a que têm direito.
A direcção nacional da PSP garante, no entanto, que "todos os agentes gozam as horas de descanso a que têm direito" e acrescenta que "as deslocações de elementos policiais a tribunal são consideradas como actos de serviço, que advêm da obrigatoriedade de colaboração com as instâncias judiciais na prossecução da justiça". Sempre que um agente é obrigado a comparecer em tribunal - para acompanhar um detido e ser ouvido no âmbito de um processo em que foi interveniente - durante um período de folga, é compensado em horas de descanso. "Na exacta proporção do tempo despendido" no tribunal, acrescenta a PSP. Ou seja, os agentes não recebem qualquer remuneração adicional, sendo pagos em horas de descanso. Contudo, garante o Sinapol, "na maior parte dos casos, esse descanso não é cumprido". De qualquer forma, o próprio sindicato admite que a polícia se limita a cumprir a lei ao "perder" tantas horas em tribunal: "São os juízes e o Ministério Público quem exige a presença dos elementos policiais", reconhece Armando Ferreira.
Tribunais não facilitam O que também não abona a favor dos agentes é o funcionamento dos tribunais: "O agente é convocado para as 10 da manhã e só é ouvido às cinco ou seis da tarde. Muitas vezes, perde um dia inteiro à espera e depois o julgamento é adiado", denuncia o sindicalista, acrescentando que estas horas em tribunal "poderiam ser transformadas em serviço policial efectivo".
Fonte da PSP admite mesmo que, por vezes, os agentes ficam à mercê da boa vontade de quem trabalha nos tribunais. "Há comarcas que facilitam mais do que outras - apesar de a legislação obrigar o elemento policial a ir a tribunal - e prescindem da presença dos agentes, uma vez que os factos já estão relatados nos autos de notícia", explica. O que é certo é que as horas passadas em tribunal acabam por perturbar o funcionamento das esquadras, reconhece a mesma fonte: "Depois de uma detenção, o agente precisa de tratar de todo o expediente, ainda tem de levar o detido ao tribunal e relatar os factos ao juiz. Logicamente que tudo isto tem reflexo no funcionamento dos serviços da polícia", acrescenta. Questionados pelo i, quer a GNR quer a PJ não quiseram revelar dados sobre as idas dos seus elementos aos tribunais.
Sindicato pondera queixa Armando Ferreira, da Sinapol, esteve a semana passada em Bruxelas, onde reuniu com a EUROCOP e um elemento da Comissão Europeia para denunciar o incumprimento de períodos de descanso na PSP. "Há agentes que trabalham sete ou oito semanas sem gozarem folga, o que é ilegal", denuncia. O sindicato está a ponderar apresentar queixa junto das instâncias europeias se os incumprimentos não terminarem. "Não é benéfico para o país ter polícias que não descansam", argumenta o sindicato. O incumprimento acontecerá, sobretudo, por causa da prestação de serviço em jogos de futebol. "Estes serviços até são remunerados, mas os agentes fazem-nos obrigados e há casos em que lhes são retiradas folgas para irem aos jogos", garante Armando Ferreira. A PSP nega que haja qualquer incumprimento e garante que "nenhum agente é obrigado a não descansar".
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