Educação
Professores contratados. São 37 mil no desemprego e 13 mil nas escolas
por Kátia Catulo, Publicado em 01 de Setembro de 2011
Ensino público vai contar com menos 5 mil docentes: dos 55 mil candidatos, apenas 12 747 conseguiram um lugar
Foi uma longa espera até os professores contratados saberem que sorte lhes calhou. Estiveram toda a manhã frente ao computador e, durante alguns minutos, uma parte ínfima das listas do concurso nacional foi divulgada no site da Direcção-Geral de Recursos Humanos da Educação. Depois desapareceu. Choveram insultos nos blogues, pedidos de ajuda, professores com sangue a ferver e professores com cabeça fria para saber que a verdade viria à tona mais tarde. Quatro horas depois, a página de internet da tutela ressuscitou e trouxe os números que não surpreenderam a maior parte da classe: são cerca de 37 mil os professores que ontem à tarde souberam que não ficaram colocados em nenhuma escola. Dos cerca de 55 mil candidatos, apenas 12 747 docentes escaparam ao desemprego.
São os números do concurso nacional divulgados pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) e mostram que neste ano lectivo as escolas da rede pública vão contar com menos 5 mil contratados que no ano anterior. Não é a hecatombe anunciada pelos sindicatos, mas é um corte que vai representar menos 20% de docentes para assegurar o regresso às aulas na próxima semana.
Para uma minoria, há ainda uma oportunidade de ficarem num agrupamento nos próximos dias, uma vez que a tutela ainda não conseguiu preencher cerca de 3 mil horários: "A existência de 3179 horários não satisfeitos após a fase de concurso para a colocação de professores denota alguma ineficiência do sistema, que terá de ser solucionada", reconhece a nota do ministério de Nuno Crato, adiantando que vai recorrer aos professores que ontem não foram colocados e que vão integrar uma bolsa de recrutamento.
Segundo as contas feitas pela Associação Sindical de Professores Licenciados, são os docentes do 1.o ciclo do ensino básico que mais razões têm para ficarem angustiados: 74 obtiveram colocação e mais de 12 mil ficaram excluídos. Muito mais abaixo surgem os docentes do pré-escolar; 4533 educadores de infância souberam que estão desempregados e 172 foram colocados.
O grupo disciplinar de Português está igualmente entre os mais afectados - dos 4593 candidatos, apenas 258 foram convocados para dar aulas. E mais azar ainda teve quem ensina Latim e Grego - nenhum dos 249 candidatos foi colocado. A disciplina de Espanhol, contudo, representa um caso raro entre os contratados, uma vez que os 89 candidatos acabaram por conseguir um lugar nas escolas. Entre os grupos disciplinares com mais professores contratados, aliás, estão os que pertencem às áreas da Matemática e das Ciências da Natureza, com 353 colocados, ou Economia e Contabilidade (182 docentes).
Professores que ficaram na mesma escola foram quase 8 mil, uma redução de 21% em relação ao ano lectivo anterior, em que houve quase 10 mil docentes com contratos renovados. Há ainda, de acordo com os dados que a ASPL disponibilizou ao i, cerca de 1600 professores sem turmas atribuídas (horário zero) e a esmagadora maioria não conseguiu um lugar nas listas definitivas de destacamento por ausência da componente lectiva. Cerca de 300 não conseguiram lugar nas listas de destacamento por condições específicas.
Sem paralelo. Menos 5 mil professores no ensino público são algo que vai ter consequências, avisa o dirigente da Federação Nacional de Educação (FNE): "Trata-se de uma efectiva redução das necessidades que não tem paralelo com os anos anteriores e representa um desperdício de pessoas que deviam ser aproveitadas para assegurar um ensino de qualidade", lamenta João Dias da Silva.
Não há redução de alunos para justificar menos contratações, defende o sindicalista, há sim uma "conjugação de orientações do ministério" para cortar nos recursos humanos das escolas públicas: "É este o resultado da fusão dos agrupamentos, do fecho das escolas, do regresso dos professores destacados, da redução dos créditos ou do fim de disciplinas com a Área de Projecto", recorda Dias da Silva.
Tudo "começou a ser preparado" pela anterior ministra, Isabel Alçada, e "teve continuidade" com Nuno Crato, diz o sindicalista, que alerta agora para a necessidade de encontrar uma solução para os milhares de professores que ficaram desempregados: "É preciso criar com urgência políticas activas de emprego para integrar estas pessoas com experiência ontem desperdiçadas."
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