Negócios online
Quem paga uma revista gratuita na Net?
por Ana Rita Guerra, Publicado em 23 de Julho de 2009
Take e Magnética são as únicas revistas digitais. Mas nem sempre a publicidade é paga
Em Abril, a revista online Take Cinema entrevistou o famoso "nazi das sopas" da série cómica Seinfeld, numa conversa exclusiva com o personagem interpretado por Larry Thomas. Também um especial com Steven Soderbergh e Benicio del Toro, realizador e protagonista da aventura cinematográfica sobre Che Guevara, tornou o número 14 da revista uma edição memorável. Mas os seus autores não lucraram um tostão com as milhares de visitas e descargas da Take nesse mês. Na verdade, José Soares e Miguel Reis ainda desembolsaram dezenas de euros para garantir o sucesso da edição, como têm feito todos os meses desde Fevereiro de 2008, altura em que lançaram o primeiro número da Take Cinema Magazine, uma das duas revistas exclusivamente online em Portugal.
"Decidi criar o projecto para ocupar o espaço deixado pela única revista de cinema que existia em Portugal e que acabou", explica José Soares, mentor da Take, referindo-se ao fim da Premiére em Outubro de 2007, depois da saída do grupo Hachette do mercado nacional.
Designer de profissão, e sem qualquer conhecimento editorial ou comercial do negócio das revistas, José Soares fez contactos com amantes do cinema na Internet e conseguiu formar uma equipa disposta a trabalhar gratuitamente. Até hoje. O grupo inclui arquitectos, estudantes de Biologia, advogados e até um ex-jornalista da Lusa.
O assessor de imprensa Miguel Reis, braço direito de José Soares na Take, explica que nenhum dos dois sabe como fazer dinheiro num projecto online. Assim, em vez de lucrar com a revista, ambos gastam tempo e dinheiro num projecto que todo o mercado cinematográfico julga ser muito rentável.
"Não há uma única publicidade paga nesta revista", garante Miguel Reis, adiantando que tudo o que a Take tem conseguido são parcerias, que lhes permitem aparecer em festivais de cinema e dar DVD e bilhetes de cinema em passatempos para os leitores. A revista só publica textos originais (ao contrário de outras publicações, que compram e traduzem artigos), mas nem sequer está registada na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
Com mais de vinte mil leitores por mês, a Take vale por quatro ou cinco revistas de nicho, como os títulos de pesca e videojogos que aparecem nas bancas. Por isso, o sonho dos criadores é conseguir passar o projecto do online para o papel. Exactamente o contrário de tudo aquilo em que acredita a Magnética Magazine, a outra revista exclusivamente online do mercado português.
"Eu gosto mesmo deste formato", garante Ana Catarina Pereira, directora editorial da Magnética, que chegou à internet no final de 2008. A possibilidade de editar a revista em papel está posta de lado, até porque "é muito mais barato e ecológico" fazê-lo em formato digital. E a verdade é que a edição está a ter um sucesso esmagador, com mais de oito mil visitantes únicos por mês. A última edição recebeu quase 60 mil visualizações na primeira semana, com cibernautas de mais de 50 países.
"Ainda não somos auto-suficientes, mas estamos a caminho", explica Ana Catarina, revelando que 30% dos visitantes vêm do estrangeiro, não apenas dos países lusófonos, mas também da América do Sul, do Paquistão, da Índia, da Alemanha ou da Itália. A Magnética tem uma versão inglesa, e esse é um dos principais trunfos na conquista de publicidade, já que quase todas as marcas que anunciam são internacionais e têm enorme abertura para a publicidade online. São os casos da Nike, da Smart, da Jean Paul Gaultier, da Onistsuka, da Tiger... Neste momento, a Magnética depende dos anúncios, mas está a estudar outras formas de rentabilizar o produto.
Adicionalmente, a revista pretende candidatar-se a fundos comunitários que apoiam este tipo de projectos online, depois de já ter recebido apoio do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Com seis empregados fixos e cerca de 15 colaboradores, a Magnética assume-se como uma revista que espelha o que de melhor se faz em termos artísticos e culturais da comunidade lusófona. Quase dez anos depois da crise das empresas tecnológicas, que rebentaram em bolsa quando todos achavam que o futuro era na net, a Magnética prova que é possível viver exclusivamente na internet.
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