Atletismo

Mundiais de Daegu. O dia em que Bolt foi mais rápido que o tiro de partida

por Rui Catalão, Publicado em 29 de Agosto de 2011   
A segunda jornada ficou marcada pela desclassificação do jamaicano, mas houve mais: Bekele desistiu e deixou de ser imbatível; Pistorius qualificou-se nos 400 metros e Naide Gomes não passou do décimo lugar no comprimento
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A ganância de Usain Bolt
Faltavam segundos para o início da prova dos 100 metros. Usain Bolt, concentrado, grita “let’s go!”. Talvez quisesse intimidar a concorrência, desta vez mais pobre sem as presenças de Asafa Powell e Tyson Gay. Bolt era o (único) favorito, mesmo que este ano ainda não tivesse parecido um super-herói. Bolt era (e é) o homem mais veloz do mundo, mais rápido do que a própria sombra. Ontem, foi também mais rápido do que o tiro de partida. E pelas regras foi desclassificado. Assim que se apercebeu do que tinha feito tirou a camisola e levou as mãos à cabeça. Não protestou, não se queixou de barulho a mais. Estava ali, rendido à ganância de ser o mais rápido em tudo. Até podia ter começado um segundo depois dos adversários, que provavelmente teria sido capaz de ganhar à mesma. Mas não. Saiu sem glória nem medalha, sem recorde ou volta triunfal à pista. No caminho para os balneários ainda gritou mais uma vez: “Demasiado fácil!” Teria sido, de facto, sem a falsa partida. Agora, a regra será mais posta em causa do que nunca. Usain Bolt deixou o estádio sem falar. Apenas abriu a boca para dizer aos jornalistas: “Estão à procura de lágrimas? Isso não vai acontecer.” Mesmo assim não se perdeu tudo para a Jamaica. Yohan Blake aproveitou e ganhou a medalha de ouro, com 9,92 segundos. A Bolt sobram os 200 metros, desde que modere a ganância.

O sonho (real) de Oscar Pistorius
As próteses de fibra de carbono deram-lhe a alcunha de Blade Runner. Há quem diga que Oscar Pistorius se torna mais forte assim, que tira partido do equipamento que o ajuda a correr. O sul-africano, uma lenda dos Paralímpicos, ficou sem pernas aos 11 meses de vida, depois de ter nascido sem perónios. Até chegar aos Mundiais de Daegu teve de percorrer um longo caminho, com passagem pelo Tribunal Arbitral do Desporto, que lhe deu razão. E assim pôde correr entre os que não tiveram o mesmo azar do que ele. Só isso já seria uma vitória para Pistorius. Estar ali, nos quartos-de-final dos 400 metros, era um prémio justo para quem tanto lutou. Mas o velocista sul-africano queria mais. Queria lutar pela passagem às meias-finais. Na pista oito, a mais exterior, assinou um dos momentos mais memoráveis da competição. Foi terceiro na eliminatória, com 45,39 segundos, mas no final não pareceu surpreendido com o resultado. “Não sou o único atleta aqui, há milhares deles. Por isso não me julgo um pioneiro, mas sinto-me muito honrado por estar nesta posição.” Depois, sim, foi engolido pelos jornalistas. Passou uma hora em entrevistas, sem escapatória. “Preciso de sair daqui o mais depressa possível para tomar um banho gelado e preparar-me para amanhã [hoje].” Pistorius reaparece hoje em pista, às 12h00, para tentar prolongar o seu momento de sonho até à final.

O fim da invencibilidade de Bekele
O palmarés de Kenenisa Bekele é arrebatador. Comece a contar, tente não se perder. Jogos Olímpicos: ouro (10 000 metros) e prata (5 000 metros) em Atenas-2004, mais duas medalhas douradas em Pequim-2008 (5 000 e 10 000). Mundiais: ouro nos 10 000 metros em Paris-2003 (mais prata nos 5 000), Helsínquia-2005, Osaka-2007 e Berlim-2009 (também ganhou nos 5 000). Estão aqui dez medalhas, entre as duas maiores competições de atletismo, oito delas de ouro. Tudo desde 2003. Foi nesse ano que o etíope perdeu pela última vez uma prova de 10 000 metros. Bom, a partir de ontem deixou de ser invencível. Bekele surpreendeu ao declarar-se pronto para competir em Daegu, mas pelos vistos ainda não estava em condições. Mesmo com um ritmo baixo, Bekele cedeu. Ficou para trás, depois desistiu. Faltavam dez voltas para o fim da corrida. “Tinha medo de não ser capaz de conseguir terminar a prova, uma vez que ainda estou a recuperar de uma lesão na virilha.” Bekele não queria perder a oportunidade de somar mais uma medalha ao seu palmarés. Agora deve esquecer também os 5 000 metros. Resta-lhe pensar já em Londres-2012, onde vai tentar defender o título olímpico. Perdeu-se a invencibilidade de Bekele, mas a Etiópia ganhou um novo campeão do mundo: Ibrahim Jeilan, com a marca de 27:13.81. O português Rui Silva foi décimo.

A fraqueza de Naide Gomes
Quando a cabeça diz “não”, o corpo dificilmente teima que “sim”. Naide Gomes é o exemplo perfeito disso. Na qualificação do salto em comprimento, saltou 6,76 metros (mais um centímetros do que o necessário) à primeira tentativa. Prova superada sem problemas, pelo menos visíveis. Mas, afinal, a atleta portuguesa arrumou o assunto logo de rompante porque tinha medo das dores no pé esquerdo. Antes disso levara uma injecção. “O pé foi tão bem anestesiado que, neste momento, ainda nem o sinto. Na final vou ter de fazer o mesmo, para eliminar a dor.” Naide Gomes está assim desde Janeiro, mas a cabeça deu a volta às queixas do corpo. Ontem, na final do salto em comprimento, isso já não aconteceu. “Não temo ninguém, só temo a minha lesão.” E tinha razões para dizer isso. A final foi de uma pobreza franciscana, com a norte-americana Brittney Reese a revalidar o título de campeã do mundo com apenas um salto válido – de uns míseros 6,82 metros. Naide Gomes conseguiu dois (em três tentativas), mas o melhor não foi além dos 6,26 metros. Ficou por isso no décimo lugar, longe das oito primeiras que discutiram as medalhas. “Agora vou descansar, vou ver o resto dos Mundiais em casa. Já tinha decidido que, mesmo se corresse bem, não ia a mais provas esta época.” Amanhã começa a viagem de regresso até Portugal.



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