Vela

Dentista, Árbitro, Juiz. Descubra as diferenças

por Inês Melo, Publicado em 28 de Agosto de 2011   
Manuel Santos Silva, árbitro internacional de vela, conta ao i que nos últimos cinco meses esteve apenas quinze dias em casa
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Recuemos vinte anos no tempo, aos dias em que a vida de Manuel Santos Silva se dividia entre as quatro paredes de um consultório e os quatro ventos da vela. Na altura desdobrava-se entre a medicina dentária e a tripulação de um barco no Algarve, até se aperceber de que passava mais tempo dentro de água do que em terra. Regressemos novamente a Agosto de 2011, ao dia em que Manuel Santos Silva conta ao i que nos últimos cinco meses esteve apenas quinze dias em casa. Hoje dedica-se exclusivamente à vela, como juiz, e foi um dos dois portugueses (com Miguel Allen) responsáveis pela arbitragem do Troféu Região de Múrcia, do circuito Audi MedCup, que terminou ontem em Cartagena, Espanha.

Como é que surge o interesse pela arbitragem?

Comecei a fazer vela tarde, mas já estou há mais de vinte anos ligado à modalidade. Primeiro como praticante, depois como árbitro, foi a evolução normal. Os anos começaram a pesar, principalmente quando se compete em alto nível, e por isso decidi enveredar pela parte da arbitragem. É também uma forma de continuar ligado à alta competição.

O Manuel é juiz internacional...

Sim, mas comecei como juiz em Portugal. Primeiro é preciso fazer-se parte de uma autoridade nacional e só depois é que se passa a juiz da Federação Internacional. Eu tenho graduação como juiz e como árbitro. Para isso é preciso frequentar um curso teórico e prático, e fazer um determinado número de provas de uma categoria para uma pessoa se poder candidatar. Depois há que manter. De quatro em quatro anos temos de apresentar uma renovação da graduação em que temos de ter o mínimo de provas feitas em determinado nível.

Disse que era juiz e árbitro. Quais são as diferenças?

Aqui na Audi MedCup estamos a fazer arbitragem directa. Ou seja, é como no futebol: vamos atrás do barco e assinalamos os incidentes. Se alguém infringiu alguma regra penalizamos o barco hasteando uma bandeira. Antes esta avaliação era feita numa sala e só no fim da regata é que cada velejador vinha contar a sua versão da história, aí temos uma função de juiz. Agora, na água, diz-se que é a função de árbitro. São duas graduações diferentes. Na água temos de trabalhar mais por antevisão. Na sala somos cinco e temos sempre tempo para discutir.

A participação nas provas é feita por nomeação ou convite?

As provas em que há nomeação são as provas organizadas pela federação internacional. O resto são as entidades organizadoras que convidam as pessoas que entendem. A primeira prova que fiz no circuito da Audi MedCup foi em Portugal, porque a organização quis ter um juiz português na prova. Depois, como conheço várias pessoas dentro do circuito, fui novamente convidado.

Qual é a maior dificuldade de ser árbitro?

É a antecipação. Se não antecipamos, quando damos por isso já não temos tempo de chegar lá e ver o que é que se passou.

Mas nem sempre é possível anteciparem tudo...

Está previsto que se por acaso não vemos alguma coisa, ou vemos mas não temos dados suficientes para decidir, podemos mostar uma bandeira cor-de-rosa. Significa que o barco poderá fazer um protesto. Mas há que evitar esta situação. Isto não é o futuro. O futuro é: não vemos, não marcamos. É claro que isso implica mais responsabilidades para o nosso lado, mas faz parte. Temos de estar preparados, e a experiência é fundamental.

Que dedicação é que isso implica?

Este ano posso dizer-lhe que desde o mês de Abril estive quinze dias em casa. Só consigo fazer isto porque estou divorciado. Dificilmente um casamento aguentaria uma situação destas. E até ao fim de Outubro também só devo ir duas semanas a casa.

A vela é trabalho ou é lazer?

Para mim é as duas coisas. Pagam-me pela maior parte das provas. Não é mais compensador do que o consultório, mas aqui tenho dormida, comida e viagens asseguradas, também ajuda. Materialmente não foi a melhor opção, mas como já tenho a família criada e menos responsabilidades... [risos] Depois, o dinheiro não é tudo na vida. E como eu não quero ser a pessoa mais rica do cemitério, até nem me posso queixar.


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