Baby Yar
por Luís Januário, Publicado em 24 de Agosto de 2011
Sobre o inominável massacre escreveu o poeta Evgræni Evtouchenko:
“o que importam as palavras da minha comoção, eu preciso só que olhemos”
Uma rua apinhada. Um beco? A saída de uma praça? Quase todos se movimentam na mesma direcção. Dir-se-ia que são arrastados. A aglomeração é tão grande que os teus movimentos são os que a multidão permite. Vais com a turba, levas os braços flectidos e de vez em quando rodas o corpo para evitar ser esmagado, retardar o avanço, controlar a tua posição. Nos passeios, nas varandas, nos degraus das escadas de acesso às casas mais recuadas, há homens que parecem controlar com o olhar a progressão da massa. Tu sabes que alguns metros à frente, vigilantes, estão pessoas que te reconhecerão. Estão armadas e vão reter-te, talvez disparem sem aviso. O facto de tu saberes, de, sem que saibamos como, teres sido avisado, constitui uma vantagem apreciável. Decerto vais tirar partido dela. Mas do ponto privilegiado em que observamos esta cena nada parece acontecer. A qualquer momento esperamos algo na tua atitude que altere o que pressentimos ser uma chacina. Um massacre? Um embarque nos vagões que vão para leste? A multidão avança e tu com eles. Ouve-se o ruído dos pés que se arrastam, um murmúrio de orações, de vez um quando uma voz de mulher grita um nome. Os corpos trocam um cheiro a argila pestilenta. E tu cada vez mais perto do teu destino, cada vez mais à beira de perder a vantagem. Porque não foges? Faz qualquer coisa. Queres virar-te e não consegues. Queres baixar-te, frustrar o plano de vigilância dos teus executores, e não tens força. Perdeste a força, quase a vontade, estás entregue à multidão e o teu destino confunde-se com o deles, vais ser apanhado sem ter dado luta, não ficarás para contar, de nada serviu a tua vantagem, de nada valeu teres sido avisado.
António Muñoz Molina é um dos escritores com capacidade para convocar evocações poderosas que impregnam a cultura contemporânea. Num livro seu, “Sefarad” (2002), há uma crónica intitulada “Quem espera”. Aí se fala de gente que seria bom recordar. Victor Klemperer, o homem que viria a escrever LTI- Lingia Tertii Imperii, um estudo da utilização da língua alemã para o controlo ideológico e a fanatização das populações. Entre 1933 e 1945 Klemperer escreveu um diário, em que todos os dias previa a sua prisão. Hans Meyer, um critico literário em fuga desde o dia do Anschluss, conseguiu apanhar o último comboio de Viena para Praga e depois atravessar a Europa até ser preso, cinco anos depois, em Bruxelas. Dele escreve Molina: previra tão minuciosamente a cena da sua detenção que quando ela chegou teve a sensação de já a ter vivido.
Em 1936, Evgenia Guinsburg, uma professora da Universidade de Kazan, militante do Partido Comunista e mulher de um membro do comité central, apercebe-se de que caiu em desgraça. Tenta obter uma acusação, que não surge. É expulsa do ensino e mais tarde apreendem-lhe o cartão do partido. Durante dois anos é permanentemente assaltada pelos pressentimentos a que Lermontov chamou angústia profética. Cita Molina: “A espera de uma desgraça inevitável é pior que a própria desgraça.”
Em Janeiro de 1934, um anarquista português foge da polícia. Com responsabilidades no jornal “A Batalha”, esconde-se num moinho onde funciona a imprensa clandestina, em seguida em casa de amigos apavorados, depois numa arrecadação deserta. Até que um dia adoece, com uma febre recorrente que contraíra numa deportação anterior. Embora não se tivesse cansado de lutar, volta para casa, o lugar mais exposto. Um vizinho ouve-o tossir e nessa noite a polícia irrompe na sua casa e leva-o para o governo civil, onde é espancado.
Fuga sem fim a de Stefan Zweig para o Brasil, onde, escrevendo que é melhor terminar enquanto é tempo, se suicida.
Sozinho, Walter Benjamim precipita--se para a neve dos Pirenéus, a fronteira onde não pedem salvo-conduto, a sua morte branca.
O que há de comum a estes relatos e no teu sonho é a Europa como ratoeira concentracionária, cuja malha se aperta.
A multidão que surpreendeu Dante no primeiro círculo do Inferno, tantos que não sabia que a morte tinha abatido tantos e que, da sua secretária no Lloyds Bank, o caixeiro T. S. Eliot viu avançar pela London Bridge, confunde-se com a que D. M. Thomas descreveu em “O Hotel Branco”, a multidão do teu sonho, a caminho da ravina de Babi Yar. A morte voltou a pôr os ovos nas feridas. Quando os da frente começam a ser abatidos, os que caminham atrás, todos, mesmo os que tinham sido avisados, já não têm recuo.
Médico
Escreve quinzenalmente, à quarta-feira
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Actividade em ionline