Negros hábitos

por Luis Rainha, Publicado em 24 de Agosto de 2011   
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A religião organizada é uma criatura oportunista. Preda sobretudo os velhos, os feridos e os aflitos. Rejubila a cada maré de desgraças, a cada epidemia de misérias. Até uma das suas glórias lusas, a suposta aparição de Fátima, deixou isso bem claro: "Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto", eis a ameaça despejada pela fundadora do "altar do mundo" sobre os pequenos e aterrorizados videntes. Com mães assim quem precisa de madrastas más?

Há dias, o cardeal patriarca de Lisboa não quis perder a oportunidade de se queixar dos sindicatos e demais malandros que não se conformam com o roubo do nosso futuro. Afirmou-se indisposto com "os grupos que estão a fazer reivindicações". Parece que a sua organização se dá bem com muitos pobrezinhos à volta para "pedir e anunciar a generosidade e a esperança". Quem prefere lutar contra a maré é que tem as tais "visões derrotistas e pessimistas". Que floresçam mil santuários de caridade; que as igrejas se voltem a encher de massas deprimidas; que o cheiro da estearina queimada em Fátima chegue às narinas compassivas do Senhor. E esqueçam essa mania de querer mais e melhor ainda neste mundo.

Em Madrid, o Papa dedicou-se aos espíritos tenros dos jovens. E insurgiu-se contra "os que querem decidir por si mesmos o que é verdade ou não, o que é bom ou mau". Uma alma mais distraída leria aqui um assomo de autocrítica. Mas não, é apenas mais do mesmo: os propagadores de superstições a julgar os outros sem se verem primeiro ao espelho.

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