Anna Hazare. Um Gandhi contra a corrupção
por Sara Pereira, Publicado em 18 de Agosto de 2011
Prisão do activista provocou vaga de protestos. A Índia pode enfrentar uma "Primavera Hindu", se não adoptar outra estratégia contra a corrupção
Na terça-feira, o activista indiano Anna Hazare foi detido, horas depois de dar início a uma greve de fome por tempo indeterminado no parque Jayaprakash Narayan, em Nova Deli, como forma de pressão sobre o governo para que crie uma legislação mais dura contra a corrupção. As autoridades alegaram a interdição de ajuntamentos públicos e protestos no parque. No mesmo dia, a polícia anunciou que Hazare, de 74 anos, seria libertado em breve.
Porém, este negou-se a sair da prisão, depois das autoridades lhe estabelecerem seis condições para a greve de fome, que incluem um limite de três dias para o protesto e a proibição de juntar mais de cinco mil pessoas. Com Hazare, foram detidos outros membros do movimento Índia Contra a Corrupção - cerca de 1300.
Hazare, muitas vezes comparado a Mahatma Gandhi, foi premiado em 1992 com o prémio governamental Padma Bushan pelos esforços em transformar a localidade de Ralegan Siddhi em modelo social para a Índia. Entre as medidas tomadas está a criação de um banco de cereais, um programa de partilha de água através de canais de irrigação e a remoção do sistema de castas.
A detenção de Hazare levou a que milhares de indianos se manifestassem por todo o país, em apoio ao activista, que se tornou numa inspiração para uma Índia saturada da corrupção e do mau funcionamento dos serviços públicos. Em 2005, um estudo revelou que mais de 45% dos indianos pagara subornos para obter um cargo público ou para acelerar a obtenção de documentos. A ascensão das redes sociais e dos meios de comunicação privados vem alimentando uma revolta crescente na classe média indiana - a prisão de Hazare é a gota de água.
Já a 5 de Abril, Hazare iniciara uma greve de fome até à morte para que o governo nomeasse um provedor de justiça para lidar com a corrupção nas repartições públicas. Quatro dias depois, as reivindicações do activista foram aparentemente ouvidas e Hazare deu por terminado o protesto. Em Agosto, o governo decidiu aprovar a sua própria versão do projecto-lei sem a discutir com membros da sociedade civil.
"O caminho que Anna Hazare escolheu não tem fundamento", é "um desafio inconstitucional às autoridades" e alimenta "deliberadamente o conflito", criticou ontem Manmohan Singh, no parlamento. "A questão sobre quem redige e faz as leis é de exclusiva prerrogativa" do governo, acrescentou o primeiro- -ministro indiano, apesar dos protestos vindos das bancadas da oposição.
Arun Jaitley, líder do partido opositor Bharatiya Janata, considera que as manifestações pacíficas são uma chamada de atenção: "As pessoas deste país estão a ficar inquietas", alertou. Estudantes, advogados e empresários encheram as redes sociais de mensagens de apoio e apelos ao protesto pacífico. Anand Mahindra, director administrativo do Mahindra Group, uma das empresas mais poderosas da Índia, escreveu no Twitter que "democracia significa que nenhuma voz, por mais pequena que seja, fica por ouvir. O sentimento anticorrupção não é um sussurro, é um grito".
Embora não sejam esperadas revoltas com o intuito de derrubar o governo, à semelhança dos protestos que desde o fim do ano passado vêm surgindo no Médio Oriente e no Norte de África, a Índia parece um barril de pólvora pronto a explodir. Um em cada cinco indianos passa fome, quase metade da população é pobre, desde a independência em 1947 que o país é governado pela mesma dinastia e há um fosso cada vez maior entre a população idosa, voltada para os velhos costumes, e a população mais jovem.
Numa recente entrevista à Reuters, antes da sua detenção, Hazare declarou que "quando as pessoas chegam ao fim da sua capacidade de tolerância, isso deve ser visto como o início de alguma forma de revolução". Uma sondagem recente mostrava que, se as eleições legislativas fossem agora - estão marcadas para 2014 -, o principal partido da oposição, os nacionalistas hindus do Bharatiya Janata, sairia vencedor.
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