Cinema

Alerta Spoiler. Este texto revela que estragar a surpresa dos filmes é bom

por Nuno Castro, Publicado em 16 de Agosto de 2011   
Qual 007, a partir de agora tem licença para estragar a surpresa dos filmes e de ler a última página de um romance. É o que diz um estudo da Universidade da Califórnia
Opções
a- / a+
Já lhe deve ter acontecido. Gostou tanto de um filme, um livro ou uma série de televisão que quer partilhar as suas opiniões com alguém. Mas uma terceira pessoa, o chato de serviço, impede-o: "Não contes nada, ainda não vi o filme. Não quero ouvir." Ou o reverso da medalha: o excitadinho ao seu lado que não consegue guardar para si as opiniões sobre um filme que planeamos ver. É nessa altura que regressamos à escola e recorremos à infalível táctica de tapar os ouvidos ou começar a gritar "la la la la la la".

Segundo um estudo da University of California, excitadinhos e chatos poderão passar a conversar sem mandar calar ninguém ou tapar os ouvidos. De acordo com os investigadores do departamento de psicologia Nicholas Christenfeld e Jonathan Leavitt, estragar a surpresa de um enredo pode aumentar o prazer de entretenimento. Como é que se chegou a esta conclusão? É mais simples do que parece: os académicos pediram a 30 pessoas para classificar 12 contos, que foram divididos em três categorias: os que tinham um twist irónico (como "A Aposta", de Chekhov), mistérios ("A Chess Problem", de Agatha Christie) e histórias de John Updike e Raymond Carver. Uns leram as histórias originais, outros leram contos ligeiramente modificados - com um pormenor que denunciava o final, os spoilers, cuidadosamente adicionado.

Os resultados foram significativos: as versões com os spoilers receberam sempre melhores classificações. Porquê? Ainda não se sabe muito bem, mas a zona de conforto pode ser uma explicação: "Assim que se sabe o final, é cognitivamente mais fácil - está-se mais confortável a processar a informação - focar a atenção em tentar compreender a história", arrisca Jonathan Leavitt. O ex-assistente da Columbia University e jornalista que escreve sobre psicologia na revista "Wired" Jonah Lehrer avança outra justificação: "As surpresas são mais divertidas para quem as planeia do que para quem é alvo delas. A mente humana é uma máquina de previsão, o que significa que ela regista as surpresas como uma falha cognitiva. A nossa primeira reacção nunca é: "Fixe! Não me apercebi de nada!" Em vez disso, sentimo-nos embaraçados, incrédulos com a nossa ingenuidade."

Ou seja, a surpresa já não é o que era. Ou, se calhar, nunca o foi. Era sobrevalorizado. Se é um romântico e continua a acreditar cegamente na surpresa pode começar a gritar ""la la la la la la" - também pode saltar as três linhas seguintes que é mais fácil. Segundo estes investigadores, o alerta spoiler deixa de fazer sentido e saber que Verbal é Keyser Soze ("Suspeitos do Costume"), Tyler Durden não é real ("Clube de Combate"), Norman Bates é o assassino ("Psycho"), Bruce Willis é um fantasma ("O Sexto Sentido") não estraga o filme. Os resultados finais desta pesquisa serão publicados na edição de Setembro da revista "Psychological Sciense".

Mas, para já, os investigadores revelam outra surpresa (doce ironia): "A nossa intuição sobre o suspense pode estar errada. Talvez os presentes deveriam vir embrulhados em papel celofane e os anéis de noivado não deveriam ser escondidos dentro da mousse de chocolate. E as festas surpresa também deveriam ser reconsideradas", escreve Nicholas Christenfeld.


Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close