Antes de irem de férias, Nuno e a sua namorada Denise costumavam deixar um rádio com o temporizador ligado atrás da porta de casa para os vizinhos não perceberem que não estava lá ninguém. No rés-do-chão do prédio no Born, um bairro no centro de Barcelona, viviam cinco okupas que já tinham tentado arrombar a porta do primeiro andar aparentemente abandonado. "Quando não estávamos em casa pedíamos a amigos para irem lá a casa estender roupa", conta Nuno, de 25 anos. "Se íamos de férias, tínhamos cuidado para não fazer barulho com as malas para não perceberem que nos estávamos a ir embora. Só costumava pousar as rodas no chão quando estava longe."
O casal de portugueses mudou-se para Barcelona há três anos para trabalhar e quando alugou a casa sabia que o prédio já tinha um historial de okupas. "A senhoria disse-nos que tinha comprado o andar através de um leilão da câmara", conta Nuno. "A rapariga que morava lá foi para a Alemanha seis meses e quando voltou a casa estava ocupada. Não havia nada a fazer. Como tinha deixado os documentos lá dentro e a casa era herdada, não conseguiu provar que era proprietária."
MANUAL DO OKUPA
Em Espanha, o movimento okupa existe há mais de 20 anos. Nas grandes cidades, como Madrid, Barcelona e Sevilha, é comum ocuparem-se prédios antigos do centro da cidade, muitos deles abandonados. Num dos sites do movimento, www.okupatutambien.net, há um "manual do okupa" com dicas. As informações vão desde como arrombar a fechadura da porta, a instalar electricidade ou água no andar, ou informações legais sobre multas. Os problemas só começam quando alguém reivindica a posse da casa e as penas podem ir até quatro anos de prisão.
VIZINHOS LADRÕES
Os okupas chegaram ao prédio de Nuno e Denise há um ano e meio. "Duas semanas depois de nos termos mudado ouvi um grande barulho no prédio, uma máquina a trabalhar. Quando desci, vi três gajos que pareciam do Norte de África a fazerem um buraco redondo à volta da fechadura." No início, Nuno não desconfiou que eram okupas. "Pensei que estivessem a fazer obras. Só quando vi que puseram a mobília velha na rua e começaram a trazer móveis para casa percebi que eram okupas."
Poucos dias depois estragaram de propósito a fechadura do prédio, "para não terem de tocar sempre à campainha". Nas escadas começaram a aparecer bicicletas com cadeiras de bebés e carteiras vazias. "Depois percebemos que eles roubavam. Um dia até vi um a entrar no prédio a correr com uma carteira de senhora na mão."
Apesar das queixas que fizeram à polícia, por causa do "barulho de festas e de discussões", os okupas nunca foram despejados. "Nem as imobiliárias podem fazer nada", afirma Nuno. "Falei com a minha e disseram-me que depois de se fazer queixa em tribunal demorava entre um ano e meio a dois anos para os tirarem de lá."
A administradora das escadas, que já tinha acompanhado outros problemas com okupas, tinha uma solução: contratar seguranças de discotecas para expulsá-los à força. "Depois queria que chamássemos alguém para tapar a porta com tijolos."
Como isso estava fora de questão, Nuno e Denise não tiveram outro remédio senão procurar outro sítio para viver. "Até gostávamos da casa, o prédio era do século XVI mas todo remodelado. No outro dia passei lá e acho que os okupas ainda lá estavam."
EM TRIBUNAL
Rui, um emigrante português de 31 anos, também tem problemas com o barulho do vizinho de baixo, um okupa sul-americano. Mas não pode fazer queixa à polícia porque ele próprio também está a ocupar uma casa no mesmo prédio, perto da Carrer de la Princesa, no centro de Barcelona. "Os vizinhos já chamaram a polícia e tentaram perceber quem é que aqui morava. O rapaz teve de ir a tribunal e meteram as duas casas no mesmo caso. Já foi decidido que não podemos ficar cá e estamos à espera duma carta com a data para irmos embora. Até lá, vou ficar aqui."
A casa de Rui podia ser um loft qualquer em Barcelona. No centro tem um sofá com aspecto imaculado e um plasma na parede. "Foi o único investimento que fiz. Nisso e num portátil para ver filmes durante o Inverno."
Rui descobriu a casa no Verão passado quando visitava um amigo que morava ao lado. "Vi que a porta estava aberta, estava tudo escuro e espreitei. Só tinha pó e percebi que não vivia lá ninguém." Na altura, estava a morar em casa de amigos e tinha decidido não pagar renda. "Queria estar livre, sem contas para pagar nem obrigações sociais." Foi aí que decidiu ser okupa.
LIMPEZAS
"Tentei limpar o pó da casa mas foi tão difícil que limpei só um canto e pus um colchão de ar para dormir", recorda. Semanas mais tarde, conseguiu juntar dinheiro para comprar materiais de limpeza. "Pintei as paredes e comprei uma carpete e um oleado para andar descalço." O colchão de ar foi substituído por uma cama que entretanto encontrou na rua com uma rede de mosquitos que a separa da sala.
"Quem paga a electricidade é o dono do prédio", ri-se. Água não precisa - "vou à casa de banho do vizinho, é a um metro da minha porta". Internet também não. Um dos vizinhos é pirata informático e arranjou os códigos de wireless dos vizinhos.
Conseguiu fazer uma ligação ao contador do prédio e tem luz no lustre da sala, uma das primeiras peças que comprou para a casa. "Já que ia fazer uma coisa assim, fiz com style, à minha maneira."
O emigrante orgulha-se de falar seis línguas ("português, inglês, luxemburguês, francês, alemão e castelhano") e de ter estado 15 anos sem visitar Portugal. "Sou do Porto, mas não tenho saudades. Habituei-me a uma vida nómada. Vivi no Luxemburgo e em Chamonix, em França. Lá trabalhei numa loja de snowboard durante um ano. Se é para conhecer um sítio gosto de estar muito tempo." Com tantos idiomas, às vezes atrapalha-se no português e diz coisas como "Gosto de viver com ''simplicitude''" ou "É uma sorte estar tão bem ''cêntrico'' num lugar tão bonito".
PESSOAS COM RODAS
Escolheu ir viver para Barcelona há três anos, porque é uma cidade "com uma arquitectura ideal para pessoas com rodas". Rodas entenda-se as dos seus patins em linha. Ao lado do plasma tem uns numa prateleira como se estivessem em exposição.
"Aqui patino todos os dias. No Luxemburgo já fui campeão quando tinha 16 anos e apareci em revistas", conta enquanto devora um esparguete à bolonhesa de uma caixa de plástico. Não tem cozinha mas isso não o preocupa. "Era para investir numa até que percebi que não valia a pena. Habituei-me a comer fora."
Em tempos trabalhou em lojas de skate, ensinou miúdos a patinar em escolas e trabalhou em escritórios. Por enquanto não quer voltar a trabalhar. "Não preciso de muito dinheiro. Só para ter a minha liberdade. E o dinheiro entra de diferentes maneiras..."




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