Ana Sofia Bettencourt. "É uma confusão dizer que o PSD é um partido de direita"
por Sónia Cerdeira, Publicado em 09 de Agosto de 2011
A deputada do PSD eleita por Lisboa afirma-se "o mais possível" a favor da privatização da RTP por não "reflectir" o serviço público
A ex-vereadora de Santana Lopes na Câmara de Lisboa estreia-se esta legislatura no Parlamento. Directora de uma escola profissional dedicada ao ensino artístico e mãe de um filho de dois anos, Ana Sofia Bettencourt espera conseguir conciliar tudo. Assume-se uma "liberal" e é contra a adopção por casais homossexuais: "Chame-me conservadora", diz.
Como se iniciou na política?
Em minha casa, apesar de ser uma família apartidária, discutia-se política. E quando tinha 14 anos decidi que queria contribuir do ponto de vista político no país. Andei a ver todos os partidos e aquele com que mais me identifiquei na altura foi o PSD. Cheguei a uma secção e disse que queria participar e fiz-me militante da JSD. Aos 18 renovei a vontade de querer contribuir e inscrevi-me no PSD.
Porquê o PSD? Os jovens não tendem mais para os ideais da esquerda?
Isso é uma confusão - dizer que o PSD é um partido de direita. O PSD na sua matriz ideológica tem muita coisa que hoje se entende como de esquerda. Tem preocupações sociais, agora nada se faz contra o mercado e contra a criação de riqueza. Não há um sistema social eficaz sem produção de riqueza e foi esse equilíbrio que me fez ir para este partido.
Se não tivesse estado no partido desde os 14 anos acha que tinha chegado a deputada?
No PSD penso que não tem nada a ver. Quem está há mais tempo no partido necessariamente conhece mais pessoas, eventualmente beneficia dessa rede de contactos. Hoje em dia nas listas de Lisboa são eleitos muitíssimos deputados que são recentes no partido e têm muitíssimo valor que lhes foi reconhecido. Não vejo essa lógica assim tão directa.
Foi vereadora na Câmara de Lisboa. Qual a maior diferença entre o poder local e estar no Parlamento?
A função de vereadora é muito mais executiva. É quase no imediato que se vê o nosso trabalho posto em prática. Por muito que se projecte a médio e longo prazo há mudanças que podemos fazer no curto prazo e essas vão-se vendo. E vai-nos dando alento para continuar. Penso que o trabalho parlamentar será uma corrida mais de fundo, não tão visível.
O que sentiu no primeiro dia?
Foi um misto de responsabilidade e de pensar que durante quatro anos esta será a minha casa. Gostaria de marcar a minha passagem por cá e estar à altura desse desafio.
Como pretende deixar essa marca?
Não tenho ainda uma agenda definida. A causa mais importante será um trabalho de equipa dos deputados de Lisboa que não existiu pelo menos no grupo parlamentar do PSD durante alguns anos. As pessoas que fizeram parte do grupo de Lisboa assumiam-se como deputados do ponto de vista nacional sem ligações tão grandes como aquelas que nós temos agora ao terreno.
É importante ser-se do distrito por onde se é eleito?
É importante que apesar de eleito por outro distrito a pessoa não se esqueça que foi eleita por esse núcleo. Mas não estamos a defender só as questões de Lisboa, temos de as projectar no âmbito nacional.
Como vai ser discursar no plenário? Vai ter receio?
Vou ter algum receio, sim.
Conciliar a vida de deputada com a familiar vai ser um desafio?
É uma questão de organização. Está a ser um pouco complicado em termos de horários mas tudo se faz.
Vai mudar algum hábito?
É difícil até porque o deputado deixa de poder ordenar a sua agenda. Passa a ser o parlamento e o serviço público que dita a nossa agenda. Por muita organização que haja às vezes tem de haver a capacidade de ser-se criativo na forma como ainda temos de corresponder ao apoio familiar. Mas o acompanhar da vida do meu filho está no topo das minhas prioridades.
Como tem feito a gestão do tempo?
Os momentos em que estou, estou efectivamente com ele, que está a ficar um bocadinho mais rabugento, mas tudo se compõe.
É directora de uma escola profissional. Vai manter esse cargo?
Gostaria. Estive a estudar um calendário em que é possível mas terei de pedir o parecer à comissão de ética.
O ensino profissional ainda é desvalorizado?
Na nossa escola, que é uma vertente do ensino artístico, não se sente tanto até porque somos das únicas com a vertente de conservação e restauro de património mas, sim, ainda há muito esse estigma.
Como é ser directora de uma escola?
O mais engraçado é ver a forma como os alunos entram no 10º ano, a achar que têm mais direitos que deveres e nós tentamos explicar que há tantos direitos como deveres. E ver depois como saem no 12º já como adultos conscientes e responsáveis.
Já teve problemas com algum aluno?
Temos tido vários, mas são normais da idade e todos passamos por isso.
Houve casos de mau comportamento para com professores?
Como a escola é pequena - e não queremos que seja muito grande por causa do acompanhamento personalizado aos alunos - esse tipo de vivências são resolvidas no acto e não se voltam a repetir. Muitas vezes chegam ao 10º ano com atitudes que não aceitamos e vamos corrigindo. Eles acatam. Também não é qualquer aluno que entra, temos critérios de entrada, com entrevistas.
Qual deve ser o modelo de avaliação dos professores?
O modelo não está bem feito, tem de ser revisto mas é preciso haver avaliação necessariamente. No nosso caso o modelo é distinto. Já temos avaliação há muito tempo, temos uma comissão que avalia, da qual faço parte, onde também está a directora do conselho pedagógico. Os professores também são avaliados pelos alunos.
Como funciona? Poderia ser uma ideia para o resto das escolas?
Um misto das duas pode ser uma coisa eficaz. Dependerá sempre da comissão que avalia e que faz a triagem. A dificuldade é: imagine que um professor é mais exigente com a turma, pode a turma avaliá-lo de forma negativa, não sendo isso negativo do ponto vista pedagógico. Como temos uma escola pequena conseguimos ter a percepção muito real do que se passa e não sei se todas as escolas poderiam funcionar assim. Mas é importante a opinião do aluno, claro, porque o co-responsabiliza na acção.
O PSD é um partido com algumas divergências internas que costumam vir a público. Acha que passa uma má imagem para a opinião pública?
É sempre positiva a discussão de ideias e divergências de pontos de vista, mas devem ser discutidas nos fóruns certos. Todas as ideias que são em prol do que se quer fazer para o país são aceitáveis. Tudo o mais que não tenha a ver só com estas iniciativas, tudo o que tenha outro género de interesse, já não considero salutar. O interesse individual e umbiguista não é salutar.
Isso costuma acontecer no PSD?
De vez em quando há sempre alguém que tenta.
Quem?
Há histórias no partido vastíssimas ao longo destes anos. Agora não é só no PSD. Acontece em todos. Entendo que nós não somos deputados, não somos presidentes de câmara, não somos donos de lugar. Estamos. E, às vezes, as pessoas por estarem muitos anos em dada função perdem um bocadinho essa noção e quase que ficam com uma noção de pertença, o que é negativo.
Foi vereadora na altura de Pedro Santana Lopes. Logo no início desentendeu-se. O que se passou?
Não foi um desentendimento. Santana Lopes tem o seu feitio, que é conhecido, uma personalidade forte, eu também não tenho uma personalidade que não seja forte e no início houve uns choques de entendimentos. Ainda por cima porque era vereadora-adjunta. Trabalhava com ele muito directamente e o princípio de conhecimento foi complicado, mas depois correu tudo bem. Ainda hoje me dou lindamente com ele.
Foi devido a alguma medida que não concordasse?
Não foi propriamente sobre uma medida, teve mais a ver com feitios. É normal quando chegamos a um trabalho muito exigente, em que se trabalha diariamente 14 a 16 horas por dia, e o cansaço às vezes é muito. Mas encaro estas coisas com naturalidade.
Quais as diferenças entre Santana Lopes e Pedro Passos Coelho?
Entrei para a JSD na altura em que Passos era o presidente. Desde essa altura até hoje tenho por ele uma elevada consideração. Todos nós, daquela época, achávamos que ele estava predestinado a este lugar. Tem uma capacidade de trabalho enorme e pelo menos a minha geração está muito satisfeita por ter um primeiro-ministro que define o caminho e cumpre o que, nesta fase, será muito importante. Santana Lopes é um líder nato. Têm personalidades distintas mas são dois homens muito fortes. Santana com outro tipo de interveniência e passado, mais mediático desde os 24 anos, e Passos Coelho mais recatado a nível de mediatismo, o que não deixa de ser curioso.
Como era Passos enquanto líder da JSD? Lembra-se de algum episódio?
Lembro-me da história de defesa dos interesses dos estudantes - à data o PSD defendia uma coisa e o líder da JSD outra. Foi uma grande afirmação da JSD. Passos estava contra a introdução das Provas Gerais de Acesso (PGA), que na altura foram introduzidas no âmbito de uma série de reformas que não se estava à espera e foi tudo um bocadinho atabalhoado.
É difícil para um político cumprir promessas?
Às vezes é difícil pelas providências cautelares, uma série de coisas que nos vão atrasando o processo decisório.
Mais vale não prometer nada?
A coisa tem de ser transparente. Uma coisa é a nossa vontade, outra é o próprio sistema que muitas vezes impede a celeridade da resolução. Muitas vezes não é por falta de vontade de quem está no lugar, mas por demoras em concursos, providências cautelares. E isso já não tem a ver com os presidentes de Câmara mas também com os tribunais. As pessoas que têm interesse conseguem perceber isso, as que não querem porque estão contra porque sim nunca vão entender por mais que se explique.
É a favor da privatização da RTP?
O mais possível. A RTP, principalmente a RTP1, terá de ser privatizada porque o serviço público não está lá reflectido a maior parte das vezes.
E da adopção por casais homossexuais?
Não. Já existe a adopção individual. Chame-me conservadora mas entendo que a referência não deve ser essa. E sou o mais liberal possível. Mas, nesse caso, a referência não deve ser essa. Já o fazem, é certo, mas é uma assunção de responsabilidade individual que pode ser partilhada. A questão de ser o casal, posso vir a mudar de opinião, mas vejo com alguma estranheza, confesso. Tal como a outra questão do casamento. Acho que não devia ter sido chamado casamento. Com todos os direitos que possam ter, e que são perfeitamente legítimos, necessariamente com protecção social mas chamar-lhe casamento, não. Também sou católica, se calhar é por isso.
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