EDITORIAL
A segunda grande depressão
por Ana Sá Lopes, Publicado em 08 de Agosto de 2011
A crise europeia é consequência de um Tea Party informal que capturou os líderes
À hora a que escrevo, ainda não terminou o domingo de pânico nas potências ocidentais, para tentar travar mais uma segunda-feira negra, antes da abertura dos mercados asiáticos. Ao desmantelamento da Europa em curso (muito bem definido pelo presidente do ISEG na entrevista que publicamos na edição de hoje), juntou-se na sexta-feira a até agora impensável descida do rating dos Estados Unidos da América, que nunca tinha acontecido. A ameaça da agência Standard & Poor''s de voltar a diminuir o rating americano já chega para que nos deixemos de eufemismos e comecemos a chamar os bois pelos nomes. Aquilo em que andamos desde 2008 pode ser "a maior crise económica mundial desde 1929", mas o que está a acontecer à vista de todos é a segunda grande depressão, à escala mundial. Infelizmente, sem que se consiga descortinar um Roosevelt e um John Maynard Keynes capazes de levar a cabo um "New Deal". Os instrumentos existem, não há efectivamente quem lhes pegue.
David Axelrod, o conselheiro de Obama, deu ontem uma entrevista à cadeia CBS onde afirmava que a descida de rating era uma crise atribuída ao Tea Party, o grupo radical do Partido Republicano. Em parte, sim. A possibilidade de recuperação da economia americana depois das cedências que Obama foi obrigado a fazer aos republicanos capturados pelo Tea Party tornaram a América mais frágil.
De certa maneira, a crise europeia também é consequência de um Tea Party informal, sem organização nem líderes assumidos, sem Sarah Palin nem evangélicos, que capturou as duas potências europeias, Alemanha e França. Este Tea Party difuso é o que leva Angela Merkel a recusar avançar para fórmulas mais federalistas e a isolar a grande Alemanha do resto. Enquanto o resto era Portugal, Irlanda e Grécia, a Europa podia conviver com isso (a dor ia só para os periféricos). Mas o risco de queda da Espanha e da Itália está à nossa frente e pura e simplesmente não existe dinheiro para pagar os resgates. No dia em que a Espanha e a Itália caírem, a Europa acabou.
O problema é que o mesmo Tea Party informal europeu, um caldo onde se misturam nacionalistas, anti-europeístas furiosos ou mais light, cidadãos que não querem que os seus impostos "paguem as contas" dos outros malvados, vai impedir forçosamente que uma solução à escala europeia seja encontrada. Essa solução não é outra que não o federalismo, uma palavra odiosa para muitos europeus. Faltam líderes à Europa, é certo. Mas também faltam cidadãos.
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Artigo: A segunda grande depressão
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