Reflexões a partir de Oslo e Utoya

por Pedro Delgado Alves, Publicado em 02 de Agosto de 2011   
Desvalorizar o atentado como um assomo de loucura, ignorando o que de perigosamente ideológico comporta para as democracias será o pior erro que podemos cometer
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No passado dia 22 de Julho, a Europa foi uma vez mais confrontada com o impacto horrendo da violência. Para além da dureza própria do golpe, as circunstâncias em que teve lugar e a sua ocorrência num dos estados europeus mais valorizados pelo seu carácter pacífico, tolerante e enraizado pelos valores da democracia, impele-nos a um amplo debate sobre como responder às muitas interrogações que ficam para o futuro.

Infelizmente, não é a primeira vez que a Europa tem de enfrentar os desafios que o terrorismo apresenta às suas instituições e aos seus valores. O recurso ao terrorismo marcou grande parte da nossa história no pós-guerra, fosse pela mão de movimentos separatistas (IRA ou a ETA), fosse pela actuação de radicais de extrema-esquerda (Brigadas Vermelhas ou a RAF/Baader-Meinhof). Mais recentemente, fomos confrontados pelo desafio à escala global do integralismo islâmico, em Madrid, em 2004, e em Londres, em 2005.

Contudo, a partir de Oslo e Utoya temos de empreender uma nova reflexão, que não descure o relevo do crescente do discurso de ódio extremista na ocorrência e na fundamentação da actuação de Anders Breivik. O crescente sucesso eleitoral da extrema-direita xenófoba, que nalguns estados lhe permite mesmo o exercício de funções governativas (como ocorreu na Áustria na década passada com Jörg Haider) ou a possibilidade de influenciar determinantemente as suas opções políticas (como é presentemente o caso nos Países Baixos, onde Geert Wilders é o garante da sobrevivência da coligação minoritária), é um factor a analisar e ponderar no rescaldo dos atentados.

Não se trata, obviamente, de estabelecer um nexo causal directo entre o discurso anti-imigração e anti-islâmico de muitos partidos europeus e o horror profundo de Oslo e Utoya, mas tão--somente de reconhecer que a entrada da xenofobia no discurso político quotidiano fornece um contexto de normalização de opções fundamentalmente contrárias ao nosso modelo de Estado de direito democrático.

Os alvos do duplo atentado tornam impossível ignorarmos o seu plano ideológico. A escolha da sede do governo, símbolo das instituições democráticas, e do acampamento de Verão dos jovens trabalhistas noruegueses (AUF), associado a políticas públicas de inclusão e abertura à diversidade, evidenciam as pulsões antidemocráticas e xenófobas de Breivik, patentes de forma ainda mais clara no seu extensíssimo manifesto. Nesse documento torna-se claro o desejo do autor de se apropriar de uma dimensão redentora e libertadora das massas cristãs oprimidas pelos resultados de um multiculturalismo desenfreado e descaracterizador da sociedade europeia.

É nesta retórica, simultaneamente identificável de forma mais polida em partidos políticos que procuram apresentar-se como respeitáveis, e potencialmente inspiradora para outros radicalismos, que devemos centrar as nossas preocupações. Descartar ou desvalorizar Breivik e o seu manifesto como um mero produto de um assomo de loucura, ignorando o que de perigosamente ideológico comporta para as democracias europeias e a forma como pode inspirar radicalismos aparentados será seguramente o pior erro que podemos cometer.

A pronta resposta do primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, deve ser a nossa principal opção. Mais humanidade e mais democracia, através de políticas de integração, do reforço da educação vocacionada para o conhecimento do outro e da sua diversidade e da reafirmação da Europa como espaço de convivência inclusiva.

Secretário-geral da JS


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