Economia solidária?

por João Rodrigues, Publicado em 20 de Julho de 2009   
A Encíclica Caridade na Verdade contém reflexões que não andam longe das teses da economia solidária, que junta socialistas e católicos
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A última Encíclica Papal - Caridade na Verdade - merece ser lida e discutida. Quem escreve isto é um não crente que reconhece a influência da Igreja Católica e acha que a sua doutrina social continua a oferecer recursos para pensar criticamente a economia e as transformações necessárias para a tornar mais solidária.
Apesar do seu conservadorismo, ou talvez por causa dele, Bento XVI identifica algumas consequências perniciosas de um modelo económico que gerou um predomínio da especulação financeira sobre a actividade económica real: a configuração do mercado global emergente enfraqueceu sindicatos e erodiu direitos laborais e sociais ao favorecer a chantagem da deslocalização de empresas demasiado concentradas nos interesses dos accionistas e muito pouco no trabalho digno.
Quem lê esta coluna sabe que há um outro ponto da Encíclica com o qual também não posso deixar de convergir: o aumento das desigualdades económicas ameaça a coesão social, a democracia e a existência de relações de confiança, acabando assim por corroer as fundações dos próprios mercados. Estes não prescindem de uma ecologia moral apropriada, nutrida por "leis justas", por "formas de redistribuição guiadas pela política" e pela "lógica do dom sem contrapartidas". A justiça dos resultados obtidos nos mercados depende então da forma como estes são estruturados e enquadrados.

É da definição de uma "democracia económica", feita da articulação, em permanente redefinição, das esferas do Estado, dos mercados e da sociedade civil, todas elas envolvidas no processo de provisão dos bens necessários à vida, que pode resultar uma economia atravessada pela "reciprocidade fraterna".

 

 Mesmo que estes conceitos possam e devam ser debatidos, parece-me relevante a recusa de qualquer separação artificial entre economia e moralidade, a partir do reconhecimento de que as decisões económicas nunca são neutras.
Destaco ainda a defesa da coexistência de uma pluralidade de "formas institucionais de empresa" - das empresas privadas e públicas às experiências associativas - prosseguindo vários objectivos e favorecendo uma "hibridização dos comportamentos de empresa". Isto não está longe de algumas preocupações da economia solidária, um frutífero ponto de encontro de muitos socialistas e católicos. Trata-se no fundo de não desistir de buscar os arranjos que nos permitam "ir mais além da lógica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo". É uma pista promissora para quem deseja retirar todas as consequências do fracasso da construção neoliberal de uma economia divorciada do bem comum.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



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