Outro ciclo

Isto não vai acabar bem!

por Jorge Bateira, Publicado em 28 de Julho de 2011   
Um dia, alguns académicos deviam ser responsabilizados pela caução que deram à política desastrosa que nos vendem como inevitável
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As decisões da cimeira da UE realizada a 21 de Julho levaram muitos comentadores a dizer que a Europa finalmente está no bom caminho. Tarde e a más horas, a UE reconheceu que as condições dos empréstimos eram punitivas e insustentáveis. Mas, como sublinha o comunicado da cimeira, a reestruturação da dívida grega com custos para os credores (por agora moderados) é "uma solução única e excepcional" e os restantes governos da UE "reafirmaram solenemente a sua inflexível determinação em honrar integralmente os seus compromissos soberanos". Confirmaram também o seu empenhamento nas políticas de austeridade e na realização das "reformas estruturais", quer dizer, na fragilização da capacidade negocial do trabalho, na predação do Estado providência e na venda ao desbarato de activos públicos.

Por conseguinte, Irlanda e Portugal continuam obrigados a pagar tudo o que devem no quadro de uma política orçamental recessiva, a reforçar por um novo PEC com multas e um visto prévio aos orçamentos nacionais no âmbito do Semestre europeu. Tendo em conta que a dívida pública da Irlanda é imensa, mesmo com as novas condições acabará por ter de ser reestruturada com perdas para os credores. Portugal, condenado a arrastar-se entre a recessão e a estagnação, também não vai pagar tudo o que deve. Não se espere que as exportações ponham a economia portuguesa a crescer porque os membros da zona euro que não estão sob tutela também se obrigaram a colocar os seus défices públicos abaixo dos 3%, o mais tardar até 2013. Mesmo a Grã-Bretanha, não pertencendo à zona euro, também abraçou a austeridade por iniciativa própria. Assim, as perspectivas para as nossas exportações, aliás largamente destinadas aos mercados europeus, não são brilhantes.

Porém, a fé inabalável na ideia de que "a oferta gera a sua procura" sustenta um grupo de economistas académicos na defesa intransigente de uma ideia-chave: executando bem o Memorando, o país acabará por resolver o seu problema de endividamento público e privado. Em estado de negação, não se dão conta de que a economia portuguesa está a liquidar as bases do seu potencial de crescimento através do desemprego maciço, cada vez mais de longa duração e sem apoio social, e da emigração de jovens qualificados. Para estes formatadores da opinião pública pouco importa que até a insuspeita revista "The Economist" publique um artigo onde são referidos estudos recentes demolidores da ideia de que "austeridade com reformas estruturais" gera crescimento económico. Um dia estes académicos deviam ser responsabilizados pela caução que deram à política desastrosa que nos vendem como inevitável.

Nota final. Muita gente entendeu a decisão de alargar o âmbito de intervenção do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) como um passo na direcção de um Fundo Monetário Europeu, na senda de uma Europa federal. Acontece que, com esta decisão, os cidadãos alemães, austríacos, holandeses e finlandeses alargam consideravelmente a sua responsabilidade fiscal pelos encargos que o FEEF no futuro assumirá enquanto prestador de garantias nos empréstimos à Grécia (dois), à Irlanda, a Portugal e aos bancos europeus que entretanto terão de ser recapitalizados. Daqui a algum tempo, quando a Espanha e a Itália acabarem por bater à porta do FEEF, soarão campainhas nas cabeças dos cidadãos da Europa rica. Aceitarão eles que os seus governos (sem os ouvir) assumam a responsabilização total e colectiva por uma dívida imensa através da emissão de obrigações europeias, os "eurobonds", garantidas por tributação federal? Isto não vai acabar bem!

Economista, co-autor do blogue

Ladrões de Bicicletas

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