Estaleiros de Viana. Gestores "proibidos" de sorrir e almoçar no refeitório
por Ana Suspiro, Publicado em 27 de Julho de 2011
Avisos em nome da segurança dos administradores surgem num documento interno da empresa. Veja o vídeo do autor
Os administradores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo terão sido aconselhados a evitar certos comportamentos e percursos dentro dos estaleiros, em nome da sua segurança. Um documento interno da empresa, a que o i teve acesso, revela alguns conselhos que terão sido dados pela comissão de trabalhadores à administração da empresa pública dias depois do anúncio de um plano de reestruturação que prevê a redução de 380 postos de trabalho.
"A comissão de trabalhadores manifestou também, na situação actual, a preocupação pela segurança física dos elementos da administração, tendo sugerido que a presença desta no refeitório poderia considerada provocadora, e deixou também a recomendação de certos cuidados em alguns percursos dos estaleiros. Aconselharam ainda a administração a evitar manifestações de alegria, entre as quais sorrir e rir, pois poderiam desencadear reacções incontroláveis junto dos trabalhadores", lê-se no documento.
Contactada pelo i, a comissão de trabalhadores nega ter dado conselhos à administração no sentido de salvaguardar a sua segurança física. E desmente ter feito os avisos descritos no documento interno da empresa que foi elaborado no final de Junho.
Esta matéria surgiu na sequência de um incidente ocorrido nas instalações dos estaleiros após a realização de um plenário com centenas de trabalhadores que resultou em momentos de tensão e alguns vidros partidos. António Barbosa, coordenador da comissão de trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo, admite que houve uma situação um pouco complicada, mas garante que foi logo resolvida. Este responsável assegura que a segurança dos administradores não está em risco e que as pessoas que trabalham na empresa "são civilizadas e serenas".
Embora não tenha acesso aos documentos da administração da empresa, o coordenador da comissão de trabalhadores nega que este órgão tenha feito qualquer advertência relativa aos riscos de segurança física da administração. "Nunca tal assunto foi abordado" em reunião ou encontro com a administração.
António Barbosa reconhece contudo que os elementos da administração deixaram de almoçar no refeitório dos estaleiros. Quanto questionados sobre a razão desta atitude pela própria comissão de trabalhadores, terão respondido que seria uma altura complicada, pelo que o melhor era não ir.
O i tentou obter um comentário ou esclarecimento junto da empresa, mas não houve resposta até ao fecho da edição.
Desde que o plano de reestruturação foi suspenso para reavaliação por ordem do novo governo, o silêncio tem sido a palavra de ordem. A gestão da empresa terá sido aconselhada a não fazer declarações até que a tutela conclua a reavaliação do plano de reestruturação.
Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo são controlados pela Empordef, holding que é tutelada pelo Ministério da Defesa, liderado por Aguiar-Branco.
Suspenso até 2 de Setembro Neste processo, o secretário de Estado da Defesa e o chefe de gabinete do ministro já ouviram a comissão de trabalhadores dos estaleiros. No final desta reunião, Paulo Braga Lino disse que o governo estava empenhado em encontrar uma solução integrada para a empresa. A comissão de trabalhadores defende uma solução que não passe pela redução do número de efectivos, já que os estaleiros têm encomendas.
O plano de reestruturação dos estaleiros ainda recebeu luz verde do anterior governo, a poucos dias das eleições, quando já estava em gestão corrente. Isto não obstante a proposta ter sido apresentada ao então ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, em Fevereiro. A revelação do plano em meados de Junho suscitou forte contestação por parte dos trabalhadores, que realizaram uma manifestação em Viana do Castelo. A decisão sobre a aplicação plano de viabilização e reestruturação da empresa pública acabou por ser adiada para 2 de Setembro.
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