Copa América

Uruguai. "Foi em Lisboa que começou esta epopeia"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 26 de Julho de 2011   
El Loco Abreu, ex-jornalista e às vezes jogador, mostra do que se faz a selecção celeste. É de loucos
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Vamos jogar ao stop? Vá lá, só enquanto estamos no pára-arranca de Buenos Aires entre buzinadelas infernais.

A... ... ... stop! Letra U. Selecções por U? Uruguai.

Mais uma vez.

A... stop! Letra B. Bairros por B? Belém.

Outra vez.

A... ... stop! Letra M. Estádios por M? Hum... Monumental. Que sorte, estamos mesmo aqui à porta. Do Monumental, casa do River Plate e palco da final da Copa América, ganha justamente pelo Uruguai (3-0 ao Paraguai), aquela equipa que começou em 4-3-3, mudou para 4-4-1-1 e acabou em 4-4-2. Mas afinal o que é isto? Nada. São só números de telefone. A Celeste é essencialmente um grupo de amigos que se divertem a jogar. Com ordem mas sem táctica. Forlán rouba bolas no seu meio-campo, Suárez é o primeiro defesa, Alvaro Pereira é lateral e extremo ao mesmo tempo, Lugano faz a dobra a Coates e dá-lhe um caldo a rir-se, Rios choca com Cáceres e abraçam-se. Hurras à melhor selecção do torneio. E à mais elegante também. À única que se veste de fato e gravata nesta Copa América. Bom, neste momento já não é bem assim. Maxi Pereira já não tem gravata, Alvaro Pereira tirou o casaco e Cristian Rodríguez... não o vemos. Deve estar a jogar ao stop! Mas há outros artistas.

O guarda-redes Muslera está ao telefone com os olhos a brilhar, o capitão Lugano range os dentes e abraça a dupla goleadora Forlán-Suárez e o seleccionador Tabárez dá entrevistas aos jornalistas. Uns com gravador, outros com microfone e um, apenas um, com uma câmara portátil. "Desliga lá isso e vem para este lado", sorri Tabárez para o "jornalista". Entre aspas, porque trata-se de Sebastián Abreu, o "Loco". Entre aspas, porque é um louco saudável. O avançado do Botafogo e número 13 da selecção uruguaia só jogou um minuto (sim, leu bem, um=1) nesta Copa América e é o homem mais feliz do mundo. Parece daqueles sortudos que ganharam uma viagem num concurso, mas não, ele próprio é um integrante da Celeste. "Sortudos somos nós que o temos como realizador, produtor e actor neste filme da Copa", solta Suárez, numa alusão às filmagens ininterruptas de "Loco" Abreu. "É nos treinos, no autocarro, no hotel, até nos jogos", acrescenta Forlán, ou melhor, Forlán III - o avô Juan Carlos Corazo ganhou a Copa como seleccionador em 1959 e 1967, o pai, Pablo Forlán, como jogador em 1967 e agora a terceira geração (Diego Forlán Corazo) completa o ciclo, em 2011, e com dois golos na final.

Abreu olha para a dupla Suárez-Forlán e atira para o ar. "Se não fossem estes dois, eu jogava tranquilo", e lá vem mais uma "ola" de gargalhadas. Suárez segreda qualquer coisa a Forlán e os dois quase caem de tanto rir. É aí que Forlán aponta indiscretamente, com a mão esquerda aberta, para o bolso das calças de Abreu. Entortamos a cabeça para a direita para ler "Pasión" e depois entortamos a cabeça para a esquerda para completar "Celeste". É um livro. Mas de quê? Abreu baixa a câmara e explica... "É um livro com as histórias dos Mundiais 1930 e 1950, aqueles que ganhámos. Grande obra. Tens de comprar. Qualquer jornalista que se preze tem de o ter em casa."

Mas isso só está à venda no Uruguai, não?

E tu és de onde?

Portugal.

Ah sim, gostei muito de lá estar, em Agosto do ano passado.

De férias?

Férias? Mira, quem pensas que eu sou? Jornalista? [Risos, e um toque no nosso ombro para não desanimarmos.] Fui lá jogar.

A Portugal?

Sim, a Lisboa.

À minha cidade?

Isso já não sei. Se é tua ou não. [Gargalhada.] Fui a Lisboa. Uruguai-Angola. O nosso primeiro particular depois do quarto lugar no Mundial da África do Sul. Joguei a titular e ganhámos 2-0. Foi aí que começou, digamos assim, esta epopeia que hoje termina. Bem, não termina. Fechamos aqui um parêntesis para reabrir outro daqui a dois meses com o início das eliminatórias para o Mundial-2014.

Espera aí, mas esse jogo com Angola foi onde?

Num estádio lindíssimo, hein! De Os Belenenses [diz mesmo assim, de forma pausada para não se enganar]. Ganhámos 2-0 e os nossos golos foram nos últimos cinco/dez minutos.

Não me lembro nada disso.

Pois... [pisca-nos o olho] Como o Forlán e o Suárez não jogaram... [e finge-se amuado com os braços cruzados].

Não é isso, se calhar estava de férias.

Eu bem digo. Vocês jornalistas, boa vida.

Ou então estava de folga.

Folga. Que é isso?

Um dia sem trabalhar.

Ah, tens disso? Nada mau. Nos meus tempos não tinha isso.

Nos teus tempos?

Sim, já fui jornalista.

Tu és jornalista, com essa câmara.

Não, agora é brincadeira. Aos 14/15 anos era mesmo um jornalista. Na minha cidade natal, Minas. Outros tempos. Tu tens papel e caneta, outros têm telemóvel. Eu tinha um gravador enorme, mais pesado que eu [risos], e depois ia para a redacção passar tudo a limpo numa máquina de escrever pré-histórica. Vocês têm laptops do melhor.

Com essa idade escrevias para um jornal?

Sim, o "Serrano". Lá de Minas. Era legal [Abreu joga no Botafogo do Rio de Janeiro e às vezes o seu jeito de falar é brasileiro] mas tive de optar pelo futebol. Um dia o meu director deu-me um trabalho importante: cobrir a final do basquetebol de juvenis. Uma crónica e depois uma entrevista com o melhor jogador, o melhor marcador. Essas coisas que vocês fazem [pisca-nos outra vez o olho]. Acontece que eu ia jogar essa final.

Nãããã!

E isso nem foi o pior. A minha equipa ganhou, o melhor marcador do jogo fui eu e o MVP também foi para mim. Quando cheguei a casa peguei na máquina de escrever e fiz uma entrevista a mim mesmo: "Sebastián, como foi o jogo? Foi muito bom ganhar este título." E por aí fora. E como é que assinei esse texto? Pois é, Sebastián Abreu. No dia seguinte toda a gente na cidade se meteu comigo, até o director do jornal, que, meio a brincar meio a sério, me pediu que tivesse mais cuidado na próxima vez.

E pronto, foste para jogador. A tua ficha no dossiê da Copa América é especial porque diz que já jogaste em 17 clubes.

Deixa-me ver, deixa-me ver [e começa a murmurar: Defensor, San Lorenzo, Depor, Grémio, Tecos, Nacional, Cruz Azul, América, Monterrey, San Luis, Tigres, Dorados, River, Beer Sheva, Real Sociedad, Aris Salónica e Botafogo]. Sim, estão todos aqui.

És um globetrotter. E li que jogaste com o Guardiola, é verdade?

Sim, aqui ó [aponta-nos para Dorados]. Em Sinaloa, no México. Pep é grande.

Dentro e fora do campo?

Dentro já toda a gente viu e sabe. Fora é um personagem. Eu passei lá a época inteira, ele é que não jogou muito tempo no Dorados, mas ainda marcou um ou dois golos. Mesmo assim, divertimo--nos à grande. Longos almoços e jantares. Ficávamos horas à mesa. Um luxo, mas estou a estranhá-lo...

Porquê?

Ainda não me enviou aquela mensagem de Verão.

Aquela mensagem?

Sim, todos os Verões ele envia-me um sms a perguntar se sei de algum avançado que marque golos e eu responde-lhe "Pep, já estou a caminho de Barcelona". E ele desfaz-me sempre: "Estás Loco? Quero um avançado, não um companheiro para os churrascos."

Tabárez, o seleccionador, passa por ele e dá-lhe uma palmada no ombro, em jeito de "vamos embora, que temos de apanhar um avião para Montevideo". Abreu diz chau (no Uruguai, é sem o "t"). Sobra Forlán. Ainda a falar aos jornalistas e a contar uma história da véspera da final. "No sábado, eu e o Loco [sempre Abreu no centro das atenções] estávamos a passear dentro do hotel, a falar sobre coisa nenhuma, quando dois apresentadores de um programa de televisão argentina nos apanham ali sem querer e convidam--nos para um jogo famoso. O Chino, não é? [Consiste em lançar bolas de ténis no topo de algum prédio para acertar num balde no chão da rua]. Estávamos no 19.o andar e acreditas que não acertámos nem uma vez? Y mira, o Loco fez batota. Passava as bolas por água para ganharem peso e assim evitar o vento. É mesmo Loco, não é?" É. Vamos voltar ao mesmo? Letra E. Aeroportos por E? Ezeiza. Vamos embora daqui. Com pena. E uma bandeira uruguaia na mala.


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