Exposição
Videografia de João Penalva. Que a verdade nunca estrague uma boa ficção
por Maria Ramos Silva, Publicado em 23 de Julho de 2011
A antologia do artista radicado em Londres mostra-se em Lisboa. São "Trabalhos com Texto e Imagem", para ler no Centro de Arte Moderna
Imagine um livro em escala alargada para folhear em pé. Uma obra mais movida pela dúvida que pelo papel. E um escritor de imagens em movimento esquivo à fotografia, enquanto se ultima a montagem da sua exposição. Baldes, enceradoras, escadotes, fitas, martelos, ruído de ferramentas eléctricas e uma fileira de cadeiras que não fazem parte do programa mas enquadram o retrato surripiado. "Ainda pensam que isto é uma peça. Vêm cá e depois perguntam ''onde é que está a das cadeiras?''"
Os assentos ficam fora do catálogo. Sobram "Trabalhos com Texto e Imagem", antologia de João Penalva (Lisboa, 1949), artista radicado em Londres há 30 anos que apresenta a sua videografia no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, do hall do edifício ao piso superior. A mostra dá a conhecer as múltiplas facetas da sua obra, da pintura dos anos 90 às instalações e aos filmes que o notabilizaram a partir do final desta década, oscilando entre a minúcia e a telegrafia; constante na ironia e no humor. "Uma narrativa próxima de um filme", destaca a curadora, Isabel Carlos, que lidera a visita guiada no CAM.
Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta e fotógrafo, Penalva é um contador de histórias encartado, o familiar que correu mundo para partilhar aventuras tão deliciosas que só podem ser reais. O árbitro de um jogo nebuloso que nos arrasta para o universo da escrita e da imagem, transformado num lugar único de enumerações e descrições exaustivas. No fim de contas, "claro que é tudo ficção". Podem não ser reais, mas são genuínas.
Estamos entre ver e não ver, forçados a fazer xeque às percepções e a desmontar lugares-comuns ao sabor de um ilusionista, seja nas salas escuras que nos devolvem vídeos com monólogos de sapatos que voltaram da guerra em farrapos ("Mister"), seja nas enigmáticas madeixas emolduradas do senhor John Ruskin, nas fotos de estúdio anónimas encontradas por acaso que motivam enredos a partir de Bruxelas ou do Japão, nos retalhos de Tanizaki ou no extenso corredor de imagens ficcionadas onde a obsessão pelo tempo ocupa muito mais que rodapés ("Arcade"). "Relógio com um só ponteiro num edifício de escritório". "Uma hora e quarenta e sete minutos no relógio da sede de um jornal diário". "Duas horas em ponto no relógio da torre da igreja".
"Gosto que não se tenha ideia de onde isto vem". Estamos em "Dokumentarfilm", ou em Dochi, 12 de Abril de 2003. "Ou que se chegue a esta peça e não se saiba o que está do outro lado", dirá adiante. A continuação da história, que será mostrada em parte na Kunsthallen Brandts, na Dinamarca, de 2 de Março a 28 de Maio de 2012, está nas nossas mãos.
Destaque para "Violette Avéry", ou a interacção de três núcleos de imagens distintos, a partir do pseudónimo da mulher que assinou romances pornográficos secretos, activista de uma sexualidade demasiado heterodoxa para as doutrinas morais japonesas das décadas de 50, 60 e 70 do século passado. Para "Vanitas", que permite pensar "o que é a produção artística e até que ponto ela é difícil se tivermos uma incapacidade física", ou o resultado de uma peça escrita inteiramente à máquina com a mão esquerda, depois de ter partido o outro pulso. E ainda para um certo regresso ao bidimensional, em "A Gerência Agradece". Ou para o resultado da audição de "A Sagração da Primavera", de Stravinsky, durante um ano, em "Wallenda".
"Encontros ao Fim da Tarde" é a proposta deixada pela curadora e pelo autor, presentes nestas visitas agendadas para 22 de Julho e 30 de Setembro, às 17h00. Nos dias 24 de Julho, 11 de Setembro e 2 de Outubro, às 12h00, teremos "Domingos com Arte", por Hilda Frias. A 30 de Setembro, às 13h15, fica o convite para "Uma obra de arte à hora de almoço", de novo a cargo de Hilda Frias, que sugere uma visita à obra "Arcade".
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